Uma mãe feliz é um ato de rebeldia

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Uma semana depois do meu filho nascer os algoritmos já sabiam que ele estava aqui. Sei disso não porque eu recebi um parabéns ou um pacote de Pampers do Zuckerberg, mas pelo tipo de campanha que comecei a receber no meu feed:

“Mamãe Sarada - volte ao seu corpo de antes em um mês”.


Não, muito obrigada.

Eu sei, a economia vai mal, e nada mais necessário pro capitalismo girar do que nós mulheres nos odiarmos em cada curva, celulite, manchinha na pele. Mãe então, é um prato cheio: diástase, linha nigra, curvas esquisitas, um quadril novo, sensibilidades estanhas, peito jorrando leite e o mundo falando que as roupas e hábitos de antes devem todos morrer pra nascer você nova, santa mãe imaculada. Ah, e por favor fazendo dieta pra parecer ainda que pelo seu quadril nunca passou criança.

Mas deixa eu te dizer uma coisa: a economia não é problema seu e você não tem obrigação de resolvê-la a custa de tantas nóias. Você não precisa engolir essas mentiras sobre seu corpo. Você precisa é se dar bem com essa casa que vai te acompanhar pra sempre.

Nós, ensinadas que mãe é um bicho esquisito, desengonçado, que dança como mãe, que usa aquela roupa de mãe, que fala daquele jeito ridículo que só mãe fala, que é tão feio ser a mãe que a gente compra qualquer merda pra parecer menos mãe, menos ridícula. Nós, se a gente se rebela, implodimos um universo.

É só perceber que por mais que a gente recauchute o corpo, a mente ainda tá caindo na cilada gigante que o patriarcado cria pra toda mãe: a de se odiar e achar que a vida acabou. 
Ah, se a gente falasse com a gente mesma igual fala com aquela amiga que conheceu no grupo de mães e tá na jornada com a gente. Se a gente se educasse a se elogiar um pouquinho mais. Se cada vez que a cabeça tentasse mostrar que tem algo errado, a gente mandasse esse bicho calar a boca e respondesse com algo incrível…

- Sua bunda não entra nessa calça, sabia?
- Sim, é porque é uma bunda enorme e muito gostosa pra essa calça. É essa calça que, coitada, não entra nessa bunda.

A gente tem mais é que descobrir as novidades incríveis nesse corpo novo que veio com a maternidade. Amar as curvas novas, a bunda grande, os peitões, as novas possibilidades desse corpo. Tem que ser muito maravilhosa pra ter direito a trocar de corpo e descobrir tudo de novo, mas a gente merece porque a gente botou vida no mundo.

Sabe, parir (seja cesárea, parto natural, parto de ponta cabeça assobiando e chupando cana de pé na rede) é fruto de uma força incrível. Um segundo não tem nada ali, cinco minutos depois a gente formou uma célula que somos capazes de transformar em gente. E depois nutrir essa gente. Fazer crescer forte, saudável, pronto pro mundo. Vem um sistema falar que isso estragou seu corpo?

Diz pra esse sistema que isso deixou você gostosa.
Diz pra esse sistema que mãe trepa, viaja, dança, precisa de vale night, usa cropped se quiser e se ama. Você é dona da sua vida e do seu poder de consumo pra botar ele onde quiser e não onde esse sistema quer fazer você acreditar que ele tem que estar.
Não, você não vai se odiar o suficiente pra gastar em Curso Mamãe Sarada o que poderia gastar em cerveja num belíssimo vale night. Seu corpo, suas regras.

Fácil não vai ser: é que mãe feliz é um ato de rebeldia que tentam sufocar todos os dias tentando te fazer voltar a consumir as coisas mais malucas pra se adequar. Mas você é forte. Você resiste. É só ocupar sua mente explorando as novidades pra esquecer dessas bobeiras. E ocupada é fácil ficar: você tem todo um novo corpo pra descobrir como usar pra ser feliz.

Tags patricarcado
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Debora Camargo

Debora Camargo
Redatora web freelancer viciada em escrever, fotografar e compartilhar o que vê pelo mundo.

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