Uma carta para - Nina

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Minha filha, 


é com lágrimas nos olhos que te escrevo hoje. No dia em que o exame de ultrassom indicou que você era uma menina explodi de felicidade. Diferente das mulheres da minha idade, não queria uma princesinha pra enfeitar, queria uma companheira com quem eu pudesse aprender e ensinar.


Confesso que além da alegria, meu coração se encheu de medo. Só eu sei, como no meu interior, eu temia colocar uma menina nesse mundo. Como eu queria te trazer a um mundo onde mulheres não são assassinadas por seus companheiros, pois eles se acham donos de nós. Como eu queria te trazer a um mundo onde homens e mulheres pudessem ter condições de vida iguais, salário igual, direito igual. Como eu queria te trazer a um mundo onde a vítima não é julgada nem condenada pelo crime que sofreu. Queria te trazer a um mundo onde meninas fossem respeitadas, ouvidas, donas de seus corpos, estimuladas à independência. Queria que você chegasse num mundo onde não se debate se a mulher deve ou não amamentar seu filho em local público, ou que não condenasse mulheres que optam por não serem mães. Gostaria tanto que você viesse ao mundo podendo escolher o que você quer ser, sem que ninguém te desencoraje usando como argumento seu gênero. Meu sonho era que você crescesse sem nunca ouvir as palavras feminicídio, estupro e assédio.


Mas infelizmente nada disso foi possível. E você chegou num país em que a cada 12 segundos uma mulher é violentada, cada 10 minutos uma mulher é estuprada, cada 90 minutos uma mulher é assassinada, e que nenhuma chega na idade adulta sem nunca ter sofrido assédio. Em que mulheres conquistaram o direito ao trabalho, mas ainda assumem sozinhas as funções domésticas, em duplas ou triplas jornadas. Em que conquistamos o direito do voto, mas ainda não ocupamos nosso lugar na política por discriminação e preconceito. Em que ainda no século XXI mulheres são criadas para servirem aos homens, e ensinadas que mulher realizada é mulher casada, com filho, cuidando da família. Em que um ‘homão da porra’ é uma mulher normal. Em que ainda somos consideradas o ‘sexo frágil’. Você chegou e já aos 8 anos está percebendo como o patriarcado é cruel com as mulheres. E você me olha como quem entende minha luta ainda tão pequena, e me acarinha me dando toda sua força e esperança.


Eu quis, antes de você chegar, que você nascesse num lugar onde você, suas vontades e decisões fossem respeitadas. Como isso não foi possível, meu amor, te digo: seja bem-vinda ao mundo, e bem-vinda à luta! Nós vamos juntas dar as mãos às milhões de mulheres brasileiras e nos dar conta do tamanho da nossa força e nossa voz. Que a nossa geração, de mãos dadas, possa ano a ano acabar com a cultura do machismo e todas as consequências dela. E que sua filha, se você desejar ser mãe, já possa viver num mundo mais justo e menos cruel com as mulheres.

Mamãe te ama.

Tags feminismo maternidade machismo mulher assédio
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Carol Guerra

Carol Guerra
Cantante, cantora ou vocalista, como preferir. Touro com peixes. Umbandista filha de Oxum e Ogum. Mais forte que imaginava e mais emocional que gostaria. Inserida na luta feminista e da cultura urbana. Mãe desde os 16, repeti a dose aos 19. "Um homem não me define, minha casa não me define, minha carne não me define. Eu sou meu próprio lar!"

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