Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria

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Essa semana começou com uma inquietação sinistra. No fim de semana eu e meu companheiro tivemos uma discussão com a minha cunhada, que começou com o simples fato dela ter, de maneira racional, incitado  nosso pequeno a mentir pra gente. Quando confrontamos ela sobre esse vacilo, ao invés de nos entender ela bradou:

- Quer falar de problemas com ele? Então por que não falar do fato de que alguns meninos excluem ele por se parecer com uma menina? Vocês acham isso normal?

Não, eu não tô exagerando. Não, essa mulher não tem um filho. Não, ela não sabe o trabalho que é criar um filho que te conte a verdade, um filho disposto a ser livre e nem imagina a quantidade de forças que a gente tira de dentro de si pra que frases como a dela não destruam a auto estima do nosso menino.

Quando eu engravidei eu pedi muito, muito mesmo que aquele bebê fosse um menino. Fazia esse pedido meio sem saber o porque, mas hoje entendo que isso era mais um sintoma das minhas dificuldades em aceitar ser mulher-feminina-vaidosa. Eu sempre me identifiquei mais com o que era masculino e acho que isso foi uma forma de negar o “ser mulher” que a sociedade me impunha, então quando engravidei pensei logo que seria muito mais fácil criar um menino. Ledo engano!

Ainda com ele na barriga eu e meu compa sabíamos que a gente ia enfrentar a porra de um mundo preconceituoso quando decidimos que a gente daria a ele uma criação longe dos padrões sexistasDesde quando ele era apenas um bebê a gente já vinha sofrendo com “mas o neném é menino ou menina?” nas lojas de roupas e de brinquedos. Já recebemos olhares e críticas de vendedoras “Mas, você NÃO PODE levar isso, isso é pra meninas” quando escolhemos o macacão vermelho sangue ao invés do azul petróleo. Já vivemos o preconceito velado do vizinho que não deixava o filho dele entrar na nossa casa porque aqui tinha muito brinquedo de menina, e estamos falando de uma penteadeira rosa, presilhas de cabelo, panelinha e algumas bonecas. Quando com três anos ele decidiu que “nunca mais ia cortar o cabelo” a gente sabia que as coisas iam piorar, afinal de contas ele a essa altura já amava rosa e escolhia peças de roupas dessa cor, já amava acessórios como pulseiras e anéis, curtia passar um batom e já tinha até nos pedido de presente uma saia (como todo bom umbandista ele se amarra desde novo no balançar a saia pros seus orixás).