Um corpo a serviço de outro

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Rosa olhou para os meus seios e quis fazer um carinho. Percebi a saudade do mamá e comentei com ela:


- Era aqui no peito da mamãe que você mamava, né, filha?
- Aham, meu.
- Seu, não. Da mamãe. Mas acabou o leite, né?
- Cabô leite. Comprar mais.


Eu me acabei de rir e ela riu comigo sem entender nadica. Foi engraçado à vera e ela logo se distraiu com outra parada. Ela tem mó carinho mesmo pelos peitos da mamãe, pelo "mamá", palavra que ela magicamente nunca mais pronunciou desde o desmame total e natural que rolou.

Foram dois anos, um mês e alguns dias de mamá. Fiquei pensando na cagada que eu e ela tivemos, porque foi fácil o nosso início e molezinha esse final. Minha meta era seguir mesmo a recomendação da OMS, amamentando exclusivamente por seis meses e indo até pelo menos dois anos. A gente praticou a tal da livre demanda, o open bar de mamá, e ela podia mamar quando, onde e por quanto tempo desejasse. Teve muito mama sutra também, Rosa mamou de tudo que foi jeito, até de cabeça pra baixo.

Meta cumprida, uhuuu! Mas fiquei aqui pensando como foi essa experiência, fazendo aquela retrospectiva básica. A percepção do tempo é muito foda, né? Parece que foi ontem que ela nasceu e começou a mamar. Eu pisquei e fez dois anos. Mas, GZUYZAMADO, eu já tava de boaça dessa função porque parecia que eu tinha nascido amamentando de tanto tempo que parecia. Quando eu a colocava pra dormir mamando a impressão era a de que eu estava acorrentada na cama há um século. Aliás, posso dizer que foi um ano e quatro meses arrastaaaados botando ela pra dormir mamando e acordando sei lá quantas vezes na madruga pra ela mamar mais.

Mamou foi é muito essa garota, meu piercing de mamilo. Já tava desistindo de atingir os dois anos quando fomos convidadas para participar de um reality show pra fazer criança dormir. MANO, EU PARTICIPEI DE REALITY SHOW, pra vocês verem o desespero. Mas foi mara, o programa levou uma consultora do sono para minha casa e nos ajudou a colocá-la pra dormir sem mamar e ainda fazendo o desmame noturno. E deu certo! Voltei a dormir, voltei a ser uma pessoa, deixei de ser o bento carneiro e tomei fôlego pra aguentar mais um tempo com bebê nas tetas.

Chegando perto dos dois anos eu já estava ansiosa pra acabar. Ao mesmo tempo, já dava uma saudaaaade dela me olhando enquanto mamava. Até aquela mãozinha from hell que torcia meus mamilos tal qual um dj nas carrapetas já fazia parte da rotina e de certa forma ia fazer falta aquela nossa disputa pelo espaço no meu corpo. Estranho, né? Ia dar saudade um troço que me incomodava. Mãe é tudo loka.

Fui regulando um pouco as mamadas, dando uma negociada. Vinha mamar, já puxando minha blusa. Ensinei a pedir "mamá, por favor" e tentava desviar a atenção pra outras coisas também.Tava dando certo. Ela vinha dando sinais que o fim do mamá estava próximo. E eu feliz e saudosa e muito, mas muito, aliviada. Sensação de dever cumprido. Até que descobrimos que eu estava grávida de novo. Mano! Agora que tava acabando eu ia emendar?! Caracoles. Deu medo de Rosa não desmamar e, além de eu emendar mais dois anos amamentando, ia ficar com dois filhos pendurados?!

Só que eu falei ali em cima que eu e Rosa somos cagonas, né? Pintou a primeira viagem dela sem mamãe e papai. Foi pra Salvador passear com a vovó. Ficamos sem nos ver 4 dias seguidos, o maior tempo longe até então. Na volta, de bebê minha filha passou a garotinha. Veio mais falante e TCHANÃ: NÃO QUIS MAIS MAMAR. Botou a boca no peito e não soube mais mamar. Falou que tinha acabado o leite. E foi assim, como mágica, que ganhei 6 meses de respiro até a próxima missão das minhas divinas tetas leiteiras.

Maneirona nossa história, né? Quis dividir esse relato suave, mas queria deixar bem evidente que nossas "cagadas" no caminho não foram cagadas. Escrevi cagada pra ver se vocês estavam espertos no lance, era pegadinha do malandro. Não foram cagadas, galera, foram privilégios. Muitos, inúmeros privilégios. Tive acesso a muita informação de qualidade e uma rede de apoio poderosa, até na hora do desmame. Ao contrário da maioria das mulheres, sempre tive pessoas ao meu redor que, além de tornarem minha rotina mais leve, não interferiram nas minhas escolhas. Podem até terem me julgado, mas ninguém ficou falando na minha cabeça que era loucura amamentar até dois anos, que meu leite era fraco ou qualquer coisa do tipo. Saía do consultório da pediatra com uma receita em que dizia "leite materno em livre demanda e banho de sol", ela não nos enfiou goela abaixo receita de complemento. Rosa é uma criança que tem biotipo de magrinha, o peso está sempre abaixo da média e a pediatra sempre nos tranquilizou quanto a isso e sempre incentivou a amamentação.

Então, minha intenção com esse relato, por increça que parível, é dizer que amamentar não é tão fácil quanto parece. A gente fica exausta, louca de cansaço. É muita entrega e nem sempre estamos dispostas também. É preciso que a mulher tenha, no mínimo, apoio para isso. Já não é uma tarefa fácil entregar nosso corpo a serviço de outro, galera. Se tiver gente que além de não ajudar, atrapalha, fica quase impossível conseguir. E queria dizer também que é igualmente um saco ficar ouvindo que o mamá é "amor líquido", que é possível amamentar até aos 335677 anos da criança, que é "só querer". Apenas parem de culpabilizar e pressionar as mulheres que por escolha ou impossibilidade não amamentaram. Digo isso sabendo muito bem da importância das campanhas pela amamentação num país em que a média não passa dos 60 dias de mamá, mas acho importante lembrar que a campanha também deve ser para uma participação mais ativa dos pais na rotina de cuidados com o bebê e com a casa para que a mãe consiga amamentar, a campanha não deve ser para oprimir ainda mais as mulheres. Cuidem das mães!

Tags amamentação maternidade-real rede-de-apoio
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Carolina Bittencourt

Carolina Bittencourt
Mãe da Rosa, 34 anos de pista, carioca, tijucana que foi parar em Copacabana, socióloga que virou figurinista, feminista interseccional, bissexual, místico-espiritualista, ariana, treteira, lactante,na luta e cheia de amor no coração. Não sabe quase porra nenhuma da vida, mas corre atrás para diminuir o preju.

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