Três vezes quase

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Três.
Três vezes quase.
Três vezes expectativas.
Três vezes transformações.

Por três vezes fui ao centro cirúrgico, olhar pro alto e chorar a prece do impossível. Ali a gente fica sozinha. Dor física nenhuma, já a cabeça pulsa. A pergunta inevitável é sempre aquela: será que fui feita pra ser mãe? Será que os Deuses, os Orixás, as energias do mundo me fizeram seca? Útero seco, podre, vazio, triste.

Como não lembrar das vezes que não quis ser mãe, zombei do ciclo da vida e gritei aos quatro ventos que essa vida de mulher não era pra mim? Nunca me percebi mulher. A gravidez me fez perceber as diferenças entre o feminino e o masculino. Sei que sou negra desde que nasci, mas o ser mulher só percebi quando engravidei. Percebi que de repente a cabeça muda e milhões de fantasias e expectativas nascem a partir daquelas duas linhas. Você muda sua alimentação, começa a perceber os fumantes a sua volta, esquece aquela cerveja gelada maravilhosa.

A primeira vez foi um choque de realidade. Uma mistura de fudeu com vamo-lá-vai-dar-certo-acho-que-quero-ser-mãe. Descobri que a maternidade era algo que eu queria e só não sabia disso.

Fim, acabou. Ninguém conta pra gente que é normal abortar. Ai que raiva do mundo! Ai que raiva de todas as amigas que perderam filhos e não me contaram! É normal gente! Acontece!

Nunca vi tanto sangue na minha vida. Bora fazer outro. Ai que sorte que eu tenho! Casei com um homem maravilhoso. 8 semanas e fim. E lá vai ela fazer show na semana que fez um aborto. Poderia ser pior.

Bora fazer mais um. Esse foi foda.

Voltando do Japão aquele sangramento. Para em Abu-Dhabi pra descobrir que existem lugares do mundo onde mulher grávida sem marido tá errada e vai presa. Quase fui. O empresário imbecil-frouxo-babaca-machista me deixou sozinha abortando num país árabe. Eu já falei que sou negra? Ah tá!

Bora, vai dar certo. Família em pânico, chega o marido e bora fazer curetagem com um médico indiano que eu nunca vi na vida. Realmente odeio centros-cirúrgicos.

Enfim, isso tudo pra dizer que a maternidade às vezes não passa de uma grande expectativa que nem sempre dá certo. Gostaria muito que alguém tivesse me falado isso.

O quarto? Não sei. Apenas parem de perguntar.

Tags aborto relatos maternidade machismo gravidez mãe
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Não me chamo Mãe

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O conteúdo do Não me chamo Mãe é feito coletivamente juntando um pedacinho da vivência de cada uma de nós, os gritos engasgados, as ideias borbulhantes e o amor desenfreado.

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