Trago o amor próprio com bruxaria

1550

Quando eu era criança, em caso de doença era tratada pela medicina ocidental: muito xarope e remédio de farmácia. Porém, minha memória afetiva ainda se lembra do espanto de ser rezada por uma senhora, quando tive a “espinhela caída”. Lembro de alguns chás esporádicos, mas nada muito marcante. Mais tarde, na adolescência, nunca me passou pela cabeça cursar uma faculdade de medicina, nada ali me atraía.

Quando me tornei mãe, uma das partes mais difíceis foi entrar em contato com outro ser que necessitava de um cuidado intensivo e constante, muito maior que as minhas forças eram capazes de dar conta. Parecia sobre-humana a força necessária para cuidar de um bebê, sem formação prática nenhuma no assunto e, pior, com uma visão distorcida acerca da maternidade e do cuidado. E à mercê de pitacos os mais variados. Aprendendo no tranco, o foco acabou indo todo para meu filho, para sua saúde, alegria e bem-estar.

Eu, enquanto individua, me diluí. Ainda que precisasse muito me cuidar e ser cuidada. Ainda que eu também tivesse (re)nascido. Simultaneamente, entrei em outra parte dolorosa do processo: o descuido e o isolamento em que vive e é colocada a mulher-mãe.

Por sorte, faço parte de uma rede de mães onde aprendi muito sobre o cuidado de bebês: como fazer com as cólicas, o nariz entupido, as reações às vacinas, a alergia ao leite, os saltos de desenvolvimento e picos de crescimento, etc. Receitas práticas para lidar com o universo completamente novo, para aliviar desconfortos, para curar. Nessa rede também fui acolhida e me senti cuidada, aprendi que minhas neuras eram compartilhadas, minhas tristezas e aflições eram compreendidas, que a minha solidão fazia parte de uma estrutura adultocentrista perversa, que isola mulheres-mães e crianças.

Fazer parte dessa rede me curou (e ainda cura) muitas feridas físicas e emocionais. Foi na troca entre mulheres-mães, então, que descobri o valor revolucionário do cuidado.


A fitoterapia entrou na minha vida pelas mãos de uma mulher, num momento de muita fragilidade, quando estive à beira de uma crise de pânico ocasionada por problemas familiares, perdas e isolamento social. Foi quando conheci uma nova companheira, a Lavanda (Lavandula Officinalis), que sutilmente foi lembrando a cada célula do meu corpo o que era leveza, equilíbrio e alegria.

A partir de então a ciência fitoterápica se transformou num interesse e numa ferramenta. Fui estudando outras plantas, outros jeitos de cura pelas propriedades medicinais do reino vegetal, num universo predominantemente feminino. Minhas mentoras são mulheres e venho introduzindo esse conhecimento no círculo de mulheres à minha volta. Hoje tenho uma farmácia caseira de fitoterápicos, usados pela minha família e pelas famílias de mães e crias que fazem parte da minha rede. Meu sonho é que cada uma delas possa ter sua própria farmácia, que se apropriem dessa ferramenta, que é acessível e de fácil manutenção.

O uso de plantas medicinais e seus derivados para o tratamento das doenças remonta às origens da humanidade.

Devido à sua relação única com o processo reprodutivo, em muitas das sociedades pré-capitalistas as mulheres eram consideradas particulares conhecedoras dos segredos da natureza que lhes permitiriam gerar a vida e a morte e descobrir as propriedades secretas das coisas. Praticar magia (como curandeiras, praticantes de medicina tradicional, ervanárias, parteiras, criadoras de poções de amor) também era para muitas mulheres uma forma de emprego e, sem dúvida, uma forma de poder, embora isso as deixasse expostas à vingança quando os seus remédios falhavam. Esta é uma das razões pelas quais as mulheres se tornaram o primeiro alvo da tentativa capitalista de criar uma concepção mecanizada do mundo. ¹"

No final do século XVIII e início do século XIX, a química transformou-se numa disciplina capaz de isolar (e depois sintetizar) os princípios ativos de espécies vegetais. As plantas medicinais passaram a ser pesquisadas com o objetivo de identificar as substâncias químicas responsáveis pela atividade terapêutica contida nos vegetais. O medicamento ideal passou a ser aquele capaz de agir em um alvo específico e único, como uma enzima ou um receptor: a chamada “abordagem com bala de prata”². Essa abordagem é encorajada pela indústria farmacêutica por considerar mais simples estudar a molécula isolada, seus mecanismos de ação e suas interações. Essa é uma postura científica que também compartimentaliza o entendimento do corpo e considera a doença como um ente isolado e central.

É maravilhoso perceber que a medicina ocidental e a ciência farmacêutica tenham se desenvolvido tanto, principalmente as técnicas cirúrgicas e a atenção de pacientes graves, com risco imediato de vida. Mas, ao mesmo tempo, esse formato de medicina criou doenças: a menstruação, a gravidez, o parto, a amamentação e a menopausa deixaram de ser processos naturais: foram hipermedicalizados. Um avanço inegável para o universo feminino, a pílula anticoncepcional, ainda em pleno século XXI continua a ser uma bomba que tem mudado totalmente o equilíbrio hormonal feminino, além de inúmeros outros problemas colaterais (enquanto a pílula masculina não passou nos testes por apresentar algumas das mesmas características, “insuportáveis” aos homens). Neurologistas, pediatras e psiquiatras continuam a diagnosticar excessivamente transtorno e déficit de aprendizado e hiperatividade (TDAH), inviabilizando uma geração de crianças ³.




Nesse mesmo viés ocidental, a Fitoterapia passou a ser associada a curandeirismo, charlatanismo, práticas primitivas, engodo, misticismo, etc., ainda que a Organização Mundial da Saúde (OMS) demonstre que cerca de 70–95% da população mundial faça uso de práticas de medicina tradicional, incluindo a fitoterapia, como única forma de terapia4 na promoção da saúde. No Brasil, foi somente em 1981 que o Ministério da Saúde começou a adotar as plantas medicinais como prioridade5. E apenas no século XXI a legislação brasileira começou a avançar de maneira significativa na área dos fitoterápicos. Em 2009, como uma das medidas exemplares foi a publicação da RENISUS – Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS, que lista 71 espécies de especial interesse do SUS para uso medicinal, dentre outras ações no mesmo sentido. A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (Min. da Saúde, 2006)


“[...] se constitui parte essencial das políticas públicas de saúde, meio ambiente, desenvolvimento econômico e social como um dos elementos fundamentais de transversalidade na implementação de ações capazes de promover melhorias na qualidade de vida da população brasileira.
O Brasil é o país de maior biodiversidade do planeta que, associada a uma rica diversidade étnica e cultural que detém um valioso conhecimento tradicional associado ao uso de plantas medicinais, tem o potencial necessário para desenvolvimento de pesquisas com resultados em tecnologias e terapêuticas apropriadas6.”


A fitoterapia, assim como outras práticas tradicionais de cura, enxerga muito mais o indivíduo em sua integralidade do que a doença compartimentalizada. Além disso, ela trabalha com o conceito do fitocomplexo7: as plantas medicinais também possuem redes de atuação, combinações complexas de moléculas, aperfeiçoadas por milhares e milhares de anos, com diferentes atividades biológicas, que atuam em conjunto e complementaridade8. Já é comprovado inclusive, em muitos casos, que o fitocomplexo possui atividade mais intensa ou importante do que compostos isolados9, como demonstrado no caso dos tomates (β-caroteno), do brócolis, da soja (Glycine max), da flor-de-São-João (Hypericum perforatum) e de cranberries (Vaccinium macrocarpon)10. Outro bom exemplo é o do extrato padronizado de Cannabis sativa (maconha), superior ao canabidiol, seu principal constituinte, na inibição da contratilidade vesical em ratos e seres humanos11


Em outras palavras, em alguns casos torna-se mais efetivo utilizar a planta in natura do que os compostos isolados. A abordagem fitoterápica tem um estilo de “metralhadora,” pois atua através dessa diversidade de compostos químicos já existentes na própria planta, com maior atividade biológica, podendo atingir assim múltiplos alvos12.  Além disso, cada um dos compostos está em concentração muito menor do que seria necessário se a substância fosse isolada, diminuindo o risco de toxicidade.


Uma mesma planta pode ter atuação simultânea em diversas frentes, como a a Transsagem (Plantago Major) que auxilia em problemas respiratórios, epitélicos (cicatrizantes), urinários e na fissura de mamas; ou como o Gengibre (Zingiber Officinalis), que atua como afrodisíaco, anti-inflamatório, antidepressivo, antioxidante; ou ser sedativa, analgésica, ajudar em vertigens, cicatrizações epiteliais, questões gástricas, etc. como a Melissa (Melissa officinalis). Existem também as plantas que são tradicionalmente utilizadas para a saúde da mulher: a Lavanda (Lavandula officinalis, agustifolea, dentata, etc.), a Camomila (Matricaria Chamomilla), a Artemísia (Artemisia Vulgaris), a Macaé (Leonorus Sibiricus), a Sálvia (Salvia Esclareia) o Alecrim (Rosmarinus officinalis) e o Gengibre (Zingiber Officinalis), grandes amigas e aliadas.


Por todos esses motivos não devemos descartar a fitoterapia como uma terapêutica alternativa, coadjuvante e complementar, atualmente com embasamento científico comprovando.

Podemos dizer sem medo de errar que o conhecimento científico da cura tradicional pelas plantas vem sobrevivendo sobretudo graças às sacerdotisas, curandeiras, rezadeiras, benzedeiras, parteiras, raízeiras, etc. Mulheres negras, indígenas, rurais, quilombolas, ribeirinhas e periféricas, que vêm auxiliando há milênios um incontável número de pessoas, milhares delas desassistidas pela medicina ocidental moderna. Mulheres que criaram suas redes de cuidado comunitário, a quem devemos toda a reverência e o agradecimento por compartilharem e perpetuarem essa sabedoria. Faço uma reverência especial à mãe Beata de Iemanjá, in memorian, que sabia escutar o cochicho das plantas e cuja sabedoria se multiplicou em cada uma das sementes que plantou, no coração da terra e no das pessoas.

Essas mulheres conhecem o poder das plantas de ajudar a amenizar e a curar sintomas, mas também sabem que as plantas possuem uma essência sutil, capaz de lembrar aos nossos corpos as nossas próprias essências e caminhos abrangentes de saúde. É preciso, como nossas ancestrais e mais velhas, aprender a língua silenciosa das plantas.


E, assim como as plantas, curarmos e sermos curadas com alegria e tristeza, expansão e contensão, em inúmeras frentes, porque somos complexas. Curarmos e sermos curadas enquanto lembramos umas às outras que a doença deve ser de responsabilidade coletiva e não apenas daquela pessoa que a carrega. Quando nos ajudamos a nos lembrar o quanto somos incríveis, únicas e perfeitamente capazes de reencontrar nossas próprias direções. Mulheres que, atuando em conjunto, curamos e somos curadas trazendo pra roda as próprias forças e fragilidades, ambas ferramentas de fortalecimento e cura.

Aprendemos com as plantas (e com nossas) mais velhas que o caminho da saúde é generoso porque é, necessariamente, compartilhado.



Manual de Ervas para Ciclos Femininos:

https://drive.google.com/file/d/0B3_AxKJwInQWTWhfNVEtUVJRWms/view

Ervas Medicinais amigas das mulheres:

http://matricaria.com.br/ecologia-mulher/as-ervas-medicinais-amigas-das-mulheres/

Mãe Beata de Yemanjá e seu caroço de Dendê:

http://www.africaeafricanidades.com.br/documentos/Por_dentro_do_caroco_de_dende.pdf

Luciane Couto, os chás para o sono e outras mandingas (dos 19 min até os 28:56 min)

http://tvbrasil.ebc.com.br/semcensura/episodio/voce-dorme-bem

Mulheres e a Camomila: a libertação da culpa

http://www.revistavertigem.com/artigo/mulheres-da-camomila-a-libertacao-da-culpa/

Vera Froes e a receita de colônia de Lavanda (alazema):

https://www.youtube.com/watch?v=AYhbiHrEMxs

Consulta de plantas medicinais:

http://www.ervanarium.com.br/plantas

Silvia Federici: Caça às bruxas, passado e presente e o medo do poder das mulheres

http://chaodafeira.com/cadernos/caca-as-bruxas/

Herbarium de Emily Dickinson – plantas e poesia

https://www.brainpickings.org/2017/05/23/emily-dickinson-herbarium/

Mensagem da água

https://www.youtube.com/watch?v=pIOt3lixhN4

Curso de fitoterapia online grátis da USP

http://cursosextensao.usp.br/enrol/index.php?id=511

Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e (Min. da Saúde)

http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/politica_nacional_fitoterapicos.pdf


Referências:

Retiradas da Apostila do Curso de Fitoterapia Médica Farmácia da Natureza e Centro Médico de Ribeirão Preto (Capítulo 1: Introdução à Fitoterapia) - USP


¹ Silvia Federici em http://chaodafeira.com/cadernos/caca-as-bruxas/

² Williamson, E. M. (2001). Synergy and other interactions in phytomedicines. Phytomedicine: International Journal of Phytotherapy and Phytopharmacology, 8(5), 401–9. doi:10.1078/0944-7113-00060

³ https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/transtorno-de-deficit-de-atencao-hiperatividade-na-berlinda-11087553

WHO. (2013). WHO Traditional Medicine Strategy 2014-2023
5 (Portaria Nº 212, de 11 de setembro de 1981)
6 BRASIL (2006). Brasil. Política nacional de plantas medicinais e fitoterápicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
7 BRASIL. (2010b). Farmacopeia Brasileira (Volume 2) (5a ed., Vol. 1, p. 808). Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA)
8 Koehn, F. E., & Carter, G. T. (2005). The evolving role of natural products in drug discovery. Nat Rev Drug Discov, 4(3), 206–220. doi:10.1038/nrd1657; Lila, M. A., & Raskin, I. (2005). Health‐related Interactions of Phytochemicals. J Food Sci, 70(1), R20–R27.
9 Cravotto, G., Boffa, L., Genzini, L., & Garella, D. (2010). Phytotherapeutics: An evaluation of the potential of 1000 plants. J Clin Pharm Ther, 35(1), 11–48; Gomez Castellanos, J. R., Prieto, J. M., & Heinrich, M. (2009). Red Lapacho (Tabebuia impetiginosa)--a global ethnopharmacological commodity? J Ethnopharmacol, 121(1), 1–13.; Schmidt, B., Ribnicky, D. M., Poulev, A., Logendra, S., Cefalu, W. T., & Raskin, I. (2008). A natural history of botanical therapeutics. Metabolism, 57, S3–S),
10 M. A., & Raskin, I. (2005). Health‐related Interactions of Phytochemicals. J Food Sci, 70(1), R20–R27.
11 Capasso, R., Aviello, G., Borrelli, F., Romano, B., Ferro, M., Castaldo, L., … Izzo, A. A. (2011). Inhibitory effect of standardized cannabis sativa extract and its ingredient cannabidiol on rat and human bladder contractility. Urology, 77(4), 1006 e9–1006 e15. doi:10.1016/j.urology.2010.12.006

Tags ancestralidade sagrado-feminino medicina-natural ervas
SHARE

Barbara Lito

Barbara Lito
Barbara Lito é filha de Omolu, mãe do Davi, pesquisadora, sagitariana, produtora cultural/audiovisual e Aloooka da Lavanda. Apesar do patriarcado, acha que ser mulher é muito foda. Atualmente é aprendiz da língua do mato e das mandingas das plantas.

Comente

Studio na Colab55