Tem culpa, eu?

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Eu sou Maria Paula, tenho 27 anos e um filho, Zé, de 4. Quando aos 21 anos eu descobri a minha gravidez foi o primeiro momento da minha vida em que me relacionei com a culpa. Até então no auge da minha juventude eu levava uma vida bem inconsequente e leve. O susto da notícia passou e não demorou muito pra eu ter certeza, embora sem saber nada a respeito desse universo, que eu queria ser mãe. Queria levar a adiante essa gravidez fosse como fosse, mesmo sem o apoio do pai, que na época não era nem um namorado. Foi assim, que, ainda no desespero, eu comecei a conversar com amigos mais próximos. Qual não foi a minha surpresa quando percebi que todos eles me achavam incapaz de realizar essa missão.


" Você Maria, com um neném? Isso Não vai dar certo.
 Ufa, sorte que a gente sempre pode abortar, né Maria?"

Até hoje eu não sei exatamente o que eu esperava das pessoas, mas com certeza não era uma repulsa tão grande e foi aí que eu tive mais certeza ainda da minha escolha. AH MAS VAI DAR CERTO SIM

Carregada desse descrédito eu comecei a andar na contramão da maioria das coisas que eu representava mas sem ter a clareza de que fazia isso pra provar algo pras pessoas e não exatamente porque seria impossível ser eu mesma e mãeE, foi assim que eu abandonei a faculdade, parei de sair de casa, virei uma pessoa caseira, calma, não bebia, não fumava um cigarro, não saia pra night, pra ver os amigos só em casa, na casa de alguém e cedo.

O Zé nasceu e eu comecei a me sentir muito perdida já que por maior que tivesse sido o meu esforço em deixar de parecer uma jovem inconsequente, meu cabelo laranja afastava as mães no parquinho, o Sling rosa em um bebê “macho” fazia as pessoas me olharem torto na rua e eu não conseguia me sentir acolhida nem mesmo com grupos de mães. Comecei a me trancar em uma bolha muito minha. Era eu, meu companheiro, meu neném, os poucos amigos que acreditaram na minha força, minha família e aquela certeza de que esse círculo de amor me bastaria sempre. Assim eu fui vivendo por quatro anos inteiros, era a mãe do Zé, pouca coisa mais eu poderia dizer sobre mim. Já não me reconhecia em nada. E foi aí que a depressão, o pânico e a ansiedade apareceram na minha vida.

Era um dia qualquer quando eu olhei pra mim e percebi que tinha alguma coisa errada, porra, eu não podia discursar sempre sobre a importância das mães se sentirem parte de algo além da maternidade e ficar trancada nesse exercício de parecer ao mundo que a maternidade me bastava. PORRA, não tava bastando. Eu olhei pra mim e me senti um belo de um NADA. Minha profissão? Meu Hobbie? Qual o último livro que eu li, o filme que eu vi? Que assunto me interessa? Eu não sabia mais nada sobre mim, sobre nada, só sobre ser mãe e sobre meu filho.

Foi nesse dia, de repente, que uma CULPA COLOSSAL TOMOU CONTA DE MIM. Não aquelas culpinhas do dia-a-dia, do tipo que você sente quando dá um grito mais agressivo com seu filho, ou que você sente quando deixa ele dormir de pinto sujo porque tava exausta. Era uma culpa pesada, com o peso de ter se desencontrado pelos últimos 5 anos e não ter a mínima noção de como se reencontrar. De repente eu senti que a minha depressão era culpa minha, afinal eu me afastei das mães, deixei a dificuldade de me relacionar com as pessoas me colocasse em um casulo e fui incapaz de furar a minha bolha pra ver o que além tinha no mundo.

Me senti culpada por estar questionando a beleza que é ser mãe, me senti culpada por ter pensamentos que me levavam a crer que se eu não tivesse tido um filho jamais estaria passando por isso. A culpa bateu também porque eu amo meu filho, mas de repente eu PRECISAVA SER MAIS QUE MÃE mas eu não podia por que eu não tinha me qualificado. Aí bateu a culpa de largar os estudos, de não ter procurado um emprego no primeiro ano dele, de ser tão apegada ao meu filho a ponto de ter me desencorajado a viver.

E foi assim que em dois meses eu perdi 7 quilos, a minha auto estima virou um buraco negro e eu não conseguia forças nem pra tomar banho. Me sentia culpada por ficar parada me vendo afundar e me sentia culpada porque a minha tristeza podia contagiar a todos na casa e tudo que eu queria era que meu filho e companheiro conseguissem se manter firmes.

Foram meses muito complicados, completamente instáveis, eu não dormia, nem ficava acordada, não comia, não dava risada, me forçava a levantar e fazer pequenas coisas mas tinha a certeza que não ia aguentar muito tempo.

Foi necessário muita força, foi necessário QUEIMAR A CULPA. Foi necessário me dar uma segunda chance de fazer tudo que eu não fiz, afinal estamos vivos pra se permitir errar. E foi assim que eu busquei redes de apoios, me aproximei de grupos de mães na minha cidade, me expus aos meus amigos e familiares, disse que queria ser mais, que não queria ser só mãe.

E agora eu vou aos poucos me reerguendo e tentando colocar na balança da alegria a culpa de não ser mais mãe em tempo integral, mas de ter me escolhido um pouco também. De um lado da balança está a culpa (de deixar o filho com um amigo pra trabalhar fora, dele não estar na escola dos sonhos pra eu poder cuidar de mim) e do outro a minha felicidade, a minha chance de voltar a ser mulher. Enquanto elas estiverem equilibradas eu vou seguir na luta de me reconectar com a Maria Paula que habita aqui, até porque, eu não me chamo mãe.

Tags Relatos
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Maria Paula

Maria Paula
27 anos, aquariana com ascendente em leão e lua em câncer, brasileira e em busca de outras informações e adjetivos que possa usar para se definir.

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