Sobre representatividade e criação dos filhos pretos

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Somos 75% da população carcerária. Somos 61% dos dependentes químicos. Somos 54% de mulheres violentadas. Somos 73% dos jovens assassinados. Somos 70% da classe pobre. 


Toda essa porcentagem de desigualdade racial corrobora sim com a nossa cabeça, mas profundamente para a nossa saúde mental. Fomos ensinadas a sermos silenciadas e invisibilizadas e ouso a afirmar que o inconsciente da mulher negra assemelha-se em seus complexos e precisamos falar disso.


São 128 anos de abolição da escravidão e o Abandono, a Rejeição, a Inferioridade, a Auto-sabotagem ainda moram em nossas entranhas. Não preta, você não está ficando doida quando não se sente merecedora do lugar em ascensão. Não preta, você não está ficando doida quando reafirma o estereótipo de ter de ser forte diante das adversidades reprimindo suas fragilidades. Não preta, você não está ficando doida quando se sente constantemente no centro das dolorosas farpas.

Mas e aí? O drama social está posto e precisamos olhar para ele.

Depois que cedi uma entrevista a esse site sobre meu processo do ser mãe-mulher-negra-artista-pesquisadora, reverberei sobre a Orixá Obá e recebi muitos feedbacks. Entre aconselhamentos, críticas, mágoas e parabenizações. Elis Oliveira, uma mulher negra da zona norte de São Paulo capital compartilhou-me a principal conexão entre nós: o processo do empretecer a partir da morte de nossos pais. Sobretudo, a aceitação da religião de matriz africana em nossos lares e a nova criação aos nossos filhos. Agora quem pergunta sou eu, diz aí mana:

 

NMCM - Conte-nos um pouco sobre a sua breve história de vida, sobretudo, como foi a relação com sua mãe?

Elis Oliveira - Eu sou a caçula de 5 filhas, natural de São Paulo capital, nascida e criada na zona norte da cidade. Moro com meus dois filhos lindos, namoro, formada em Gestão de Recursos Humanos, sambista apaixonada, negra até a alma e muito alegre.  Minha mãe morreu quando eu tinha apenas 7 anos de idade. Infelizmente convivi pouco com ela, mas lembro que ela dentro das nossas condições procurava fazer todas as minhas vontades. Foi ela quem escolheu o meu nome, eu não gostava, queria ter nome de criança, sabe... Paula, Barbara..., mas hoje eu amo ser Elis! Dificilmente brigava comigo ou me batia. Era muito paciente, alegre, brincalhona, fazia piada de tudo e de todos. Era uma ótima cozinheira também. Gostava de festa, adorava uma roda de samba, estava sempre cantando. Lembro que ela tocava um instrumento chamado “timba”, se não me engano, quem deu a ela foi meu pai. Onde ela ia, nós íamos atrás. Me lembro que meu pai trabalhava a noite e eu dormia com ela, e pé de criança quase sempre está gelado, eu adorava colocar meus pés no meio das pernas dela para esquentar, me sentia protegida. Ela fazia meu café antes de eu ir para escola, cuidava das minhas roupas, cuidava muito bem do meu cabelo (é que mais sinto falta). E infelizmente, só pode me acompanhar no primeiro ano de escola. Em janeiro de 1995, dias antes de começar o ano letivo ela faleceu. São essas as lembranças que tenho dela, de nós duas, por conta da pouca idade que eu tinha e isso é uma das coisas que mais me dói, também porque hoje eu não tenho mais meu pai para me ajudar com essas lembranças, mas é a vida. Só posso dizer que para mim ela era maravilhosa. Foi o amor da vida do meu pai, da vida das minhas irmãs e da minha vida também. 

NMCM - Nossa mana... e depois o falecimento de seu pai... seu processo de empretecer foi iniciado após a morte dele né isso? Como foi?


Elis Oliveira - Após o falecimento da minha mãe, meu pai assumiu a criação das minhas irmãs e minha de forma integral. E eu, por ser a mais nova, estava com ele o tempo todo. Ele era um homem muito inteligente, justo, consciente de sua negritude, ancestralidade e principalmente da capacidade do povo negro. Ele sempre nos falava sobre isso.Foi da boca do meu pai que pela primeira vez eu ouvi um elogio ao meu cabelo crespo, foi dele também que recebi o primeiro incentivo para não alisar... isso há 23 anos atrás.... 
Foi através dele que conheci José do Patrocínio, André Rebouças, Luiz Gama, João Candido, Joaquim Nabuco, Candeia, Tia Ciata, Steve Biko, Cruz e Sousa e vários outros negros que lutaram para que chegássemos até aqui. Ele nos contava a história de cada um desses, de maneira mais lúdica, mas sempre contava. Esse processo de representatividade que a gente vê hoje nas redes sociais e tv, meu pai já fazia comigo e com minhas irmãs desde pequenas. Ele se revoltava com a forma como nós negros éramos tratados pelas mídias e principalmente nas novelas, e sempre emendava contando a luta de algum negro como que citei acima. Muitas vezes até achávamos o assunto chato e repetitivo, pela pouca idade não tínhamos noção da importância daquelas afirmações. 
E com o falecimento dele se abriu dentro de mim um buraco enorme, uma sensação de abandono muito grande, eu sentia como se estivesse dentro de uma casa com paredes (minhas irmãs) mas sem o telhado (meus pais) no meio de uma enorme tempestade. A saudade que eu sentia da presença física e dos ensinamentos dele me fez refletir sobre meu papel como filha, mulher, negra e como mãe, principalmente. E ai surgiram as dúvidas: E agora, quem sou eu? O que eu tenho feito de bom para mim, para os meus filhos? O que vou fazer com o que ele me ensinou?
Comecei a me importar com coisas que nunca havia prestado atenção até então.... Eu me cobrava muito, precisava ser para os meus filhos o que meu pai foi para mim!
Sempre gostei de estudar, mas até o momento eu não tinha condições de fazer uma faculdade, foi quando consegui uma bolsa de estudos parcial e fui cursar Pedagogia no ano seguinte da morte do meu pai.   Eu estava por minha conta. 
A faculdade me levou para um outro mundo, uma outra realidade para nós que nascemos e crescemos na periferia. Eu ouvia da boca dos professores frases que meu pai dizia dentro de casa sem nunca ter pisado lá sabe. Isso me encheu de orgulho e motivação!
Aos poucos comecei a ler mais sobre todos os nomes que ele me falou ao longo da vida, surgiram mais nome, fui buscando conhecimento e gradualmente assumindo minha negritude. A medida que minha visão se ampliava para a condição do negro na sociedade, mais eu sentia o peso de ir contra as estatísticas, de ajudar os meus a encontrar este caminho também.
Há uns três anos atrás senti a necessidade de assumir meu crespo, que eu nem lembrava mais como era devido aos quase 16 anos de relaxamento, chapinha e por fim o vício no mega hair que eu tirava num dia e colocava no outro, e quando não podia colocar no dia seguinte eu evitava sair de casa para ninguém me ver sem cabelo. Eu me sentia nua, me sentia menos mulher, sabe.... Aí eu adotei as tranças, crochet birds e entrelace. Amei mudar o visual. Foi assim por quase 3 anos, tudo lindo até chegar o momento de destrançar, eu sempre chorava!  No início deste ano, meu cabelo já estava bem crescido, precisando de hidratação e eu me cobrava para assumi-lo de vez. 
Tirei férias do trabalho e decidi aproveitar esse período para me adaptar ao meu crespo. Peguei umas dicas aqui, outras acolá, ganhei cremes do meu namorado, me enchi de bom ânimo e fui tirar o entrelace. Foi sucesso! Lavei, hidratei, armei o black, e enfim, consegui ver beleza no crespo pela primeira vez. Mas na hora de sair para a rua, mais uma vez travei, tive de esconde-lo debaixo de um turbante. Não consegui! Evitei até de me encontrar com meu namorado para que ele não me visse como eu era de verdade, mesmo que fosse dentro da minha casa. Eu tinha medo, vergonha porque eu ainda não conseguia me aceitar e na minha cabeça ele também não me aceitaria. Depois de anos ouvindo que seu cabelo é feio, ruim, duro e por aí vai.... Se olhar no espelho, dizer e se convencer de que isso não é verdade é muito difícil, doloroso e demorado. Chorei demais! Mas não desisti, e antes do final do período de férias, com minha enorme força de vontade e o apoio do meu namorado, consegui pela primeira vez sair para rua sem nada escondendo meu crespo. Foi uma vitória! Ainda vivo altos e baixos com meu cabelo e esse tem sido o meu maior desafio até aqui. Mas o objetivo principal foi atingido, consegui enxergar a beleza da minha negritude. Isso me fez um bem enorme, foi a retomada da minha autoestima, renasci, sabe.... Meu pai tinha razão! O crespo está crescendo e eu estou evoluindo e resistindo! 



NMCM - Uau! Você já é uma referência, preta! E por falar em referência... quais são @s negr@s que te seguram em sua militância e porquê? De que forma você orienta seus filhos para esse recorte?


Elis Oliveira - A minha principal referência é Aqualtune, que   grávida liderou um grupo de negros até o Quilombo dos palmares em busca de liberdade. Mãe de Ganga Zumba e avó de Zumbi dos Palmares, é a minha heroína! Acredito que todos os negros deveriam conhecer a nossa história, principalmente os negros brasileiros.  Tem Xica da Silva, Tia Ciata, Luiz Gama, Angela Davis, Nina Simone, João Cândido e Steve Biko. Mulheres e homens de luta que não se curvaram diante do racismo. Todos são grandes exemplos do orgulho negro, de resistência, liderança, inteligência e resiliência. Em especial as mulheres, sempre invisíveis quando se fala da história da nossa luta neste país.
E em casa eu procuro seguir o exemplo do meu pai, mostrando sempre as referências que temos, em todos os cantos, graças a Deus são muitas! Sempre dialogando sobre o conceito da consciência negra, fortalecendo o psicológico deles. Eu elogio sempre seus cabelos, os traços, a cor da pele... O objetivo é fazer com que eles enxerguem a beleza que o negro tem e se orgulhem disso. Foi assim que Deus nos criou. Os jovens negros de hoje vivem um momento melhor com relação a representatividade da negritude. Ainda estamos longe do ideal, mas eles conseguem enxergar pessoas iguais a eles na tv, jornais, revistas e principalmente na internet, fica um pouco mais fácil dialogar sobre o assunto.  
A parte mais complicada e até cruel é falar sobre a violência, sobretudo a violência policial. Há uns dias atrás estava circulando na internet um vídeo de um garoto negro que entrou em uma lanchonete para comprar algo e foi revistado por homem branco sem farda. Um garoto negro vestindo uma blusa com capuz e foi humilhado por aquele homem diante de várias outras pessoas porque era negro e usando um traje “tipicamente suspeito”. Um absurdo!  Meu filho mais velho adora usar blusa com capuz. Aquele vídeo me doeu na alma, poderia ser ele. Mostrei o vídeo, perguntei o que ele tinha entendido e expliquei o motivo pelo qual o garoto foi revistado. É cruel você ter de dizer para um filho que ele será frequentemente revistado pela polícia pelo simples fato de ser negro e morador da periferia, mas esse é o meu papel como mãe. Além de todas as recomendações que normalmente as mães fazem aos filhos como: levar uma blusa, um guarda-chuva... eu peço para que evitem de correr, sair sem documentos, evitem a blusa com capuz... tem noção da dificuldade? Eles ainda são crianças, um tem 14 anos e o outro 11, não deveriam se preocupar com isso, mas essa é a realidade dos negros. 
Meus filhos sabem que não são inferiores a ninguém, eles são diferentes, são negros.  Tem a mesma capacidade física e intelectual das outras crianças brancas. Podem sonhar com o futuro que quiserem. A estrada pode ser um pouco mais esburacada, mas com persistência e consciência é possível realizar



NMCM - Eita, dói mesmo! Você falou de seus filhos, mas também gostaria de saber sobre o seu namoro. Pode nos contar um pouco como é o seu relacionamento inter-racial? Os racismos que você já sofreu? 

 

Elis Oliveira - Temos um bom entendimento sobre todos os assuntos, principalmente quando se trata do racismo. Eu vivo isso na pele diariamente, ele não vive e tem consciência disso, mas enxerga, testemunha, me escuta e me apoia sempre.  É uma relação muito agregadora, que me permite ser e dizer quem eu sou de verdade: mulher negra consciente e orgulhosa de sua ancestralidade, 
Ao longo dos meus trinta anos eu nunca sofri um ataque racista direto, sabe?! Com ofensas em público e tal.... Até porque no Brasil o racista é covarde, poucos ousam se expor tanto.  Vivi o que todo negro vive, xingamentos sobre a cor e o cabelo durante toda a infância por parte das crianças, depois a preterição na adolescência.... Já adulta reconheci os olhares que falam mais do que palavras no shopping, no banco, no supermercado, nas ruas... nunca mais fui ofendida verbalmente, mas se acontecer, não vou aceitar jamais. O olhar já não me incomoda mais, aprendi a devolver, sabe... Olho de volta, firme, bem dentro dos olhos, sorrio e mentalmente digo: Sim, eu estou aqui, eu posso e você vai ter que me respeitar! E antes que eu mentalize metade da frase, o racista já virou a cara. Ensinei isso para os meus filhos, nunca podemos abaixar a cabeça para um olhar ou atitude racista porque para se levantar novamente demora muito e custa caro demais.

NMCM -  E... Obá? Qual é a sua relação com a orixá Obá? Como foi essa travessia?


Elis Oliveira - Obá se apresentou para mim pela primeira vez em uma loja de objetos antigos durante um passeio com minhas irmãs, entramos nesta loja e eu me encantei com uma escultura, não sabia que era um orixá, e comprei. 
Chegando em casa fui coloca-la na estante e aí observei que na base tinha o nome “Obá”. Eu já tinha ouvido falar de Obá vagamente, como não é tão comum como costumam falar de Oxum ou Iansã, por exemplo... E dias depois eu pesquisei sobre sua história, li apenas a lenda que fala sobre a orelha cortada como prova de amor, e como eu ainda não tinha iniciado o processo de empretecimento, achei a história apenas triste e me contentei com aquilo. 
Passado algum tempo percebi também que eu gostava muito de uma música que também leva o nome de “Obá” e eu não tinha feito essa ligação de que era uma homenagem à orixá... essa música surgiu em minha vida antes mesmo de eu comprar a imagem dela. 
Passaram-se alguns anos, num domingo à tarde, fui numa gira e durante o passe a entidade me informou que eu tinha a proteção de Obá. Aquilo me deu um choque, pois, pouquíssimas vezes um guia falou de orixá para mim e eu não sou de questionar. Mas neste dia eu não me segurei e logo perguntei: Ela é meu orixá de cabeça? E para minha surpresa, a entidade disse que não. Mas que Obá está presente na minha vida e na vida das minhas irmãs desde o dia em que minha mãe morreu e que Obá era o orixá de cabeça da minha mãe! A proteção foi um presente que Obá deu à minha mãe para aliviar o sofrimento causado por sua morte precoce e à privação do convívio com as filhas e o amor da sua vida (meu pai). Foi um choque! Uma das emoções mais fortes que já senti na vida. Um misto de alegria e dor. Eu chorava compulsivamente! Minha mãe morreu aos 37 anos, deixou 5 filhas menores de idade entre 17 e 7 anos e meu pai que na época tinha 42 anos. Ele não se casou novamente, viveu para nós até que sua missão terminou quando ele tinha 58 anos. Lembrei de tudo isso e desabei! Passou um filme na minha cabeça. Eu ainda não superei a morte dela. 
E Obá veio para mim como um consolo. E fui buscar conhecer um pouco mais, li várias versões de sua lenda, característica dos filhos, oferendas, orações e etc. eu precisava saber mais sobre a Obá dela e assim conhecer um pouco mais sobre minha mãe...  Eu já estava em processo de empretecimento e a cada artigo que lia o encanto ia só crescendo.  Eu me vi em Obá, vi todas as mulheres negras. Ela é a resiliência da mulher negra, é o amparo nas nossas frustrações, na solidão, no abandono, sentimentos bem conhecidos por todas nós. E também é muito amor. Amor por nossos homens, filhos, por nossas conquistas pessoais e coletivas... Essa revelação me deu um novo sentido. Minha gratidão por sua presença em minha vida será eterna. Obà Sirê!

Tags maternidade-real racismo empoderamento empretecimento
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Adriana Rolin

Adriana Rolin
Adriana Rolin se tornou atriz de teatro para viver outras vidas, é jornalista só de kaô, é poeta porque gosta de transportar o céu para o chão. Mãe de um guerreiro esplêndido chamado Zabir, fruto de um matrimônio afrocentrado. Também é arteterapeuta junguiana e mestranda em Artes. Ah, claro, tem insônia e reverte a ansiedade comendo doces vez ou outra.

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