Sobre nascer e morrer ( não exatamente nessa mesma ordem )

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Foto: Aline Brant Ser mãe não, não nos define, mas na frase clichê “quando nasce um bebê nasce uma mãe” se nos aprofundarmos, pode revelar muita coisa e isso que faz tudo mudar. O que seria “nascer uma mãe”?

No senso comum Mãe é uma persona abnegada, santificada, pura, de amor incondicional, que segundo a própria Bíblia diz: “Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”, pelos filhos. A partir do momento em que aparecem aquelas duas listinhas no exame ou o “Positivo”, já começam ali mesmo as cobranças e o fardo das responsabilidades. A mesma crença que sustenta a mãe como ser imaculado, rotula a mulher que gera no meio da testa como pecadora e as dores do parto seriam como castigos pela sua desobediência. Pois claro, para gerar ela “pecou”, logo merece ser apedrejada. Mas esse pecado é “perdoado” se ela seguir todas as normas de uma mãe-santa.

Enquanto gera, essa mulher é automaticamente infantilizada, reduzida à uma incubadora. Ela deve ser colocada numa redoma, mas não por ela, o que importa é o feto. Ela não pode mais ser ela e começa o bombardeio de palpites de todos os lados:

“Não pode mais beber”, “Não pode mais fumar”, “Não pode mais trepar”, “Não pode mais ir pra noitada”, “Não pode mais pintar o cabelo”,”Não pode mais isso” “Não pode mais aquilo”, “Não pode mais…" e “Ai” daquela gestante que fugir à essas regras!

Gestar é ter que lidar com as mudanças no nosso corpo. Fisiologicamente mexe com todos os sistemas. Na maioria das vezes passamos a enjoar de cheiros e gostos que amávamos, vomitamos tanto quanto nos piores porres de vinho barato, fazemos xixi toda hora, morremos de sono, a libido ou some ou nos transforma em ninfomaníacas - mas isso jamais pode ser falado -  espinhas ou manchas no rosto aparecem. Conforme avança, passamos a andar feito patas, nossos sapatos e roupas não nos servem mais, inchamos, temos tanta azia que parece que vamos cuspir fogo, o sono mortal se converte em insônia, sentimos cólicas, o ciático dói, a respiração fica difícil e nos cansamos facilmente. Acham que é moleza fabricar gente?

Ao lidar com tantas mudanças abruptas no nosso corpo em um espaço tão curto de tempo, tudo junto e misturado, perdemos a referência de quem somos, pois além disso tudo o prazo está correndo e vamos criar uma pessoa. UMA PESSOA, caceta, sob sua responsabilidade! Não é uma planta, um tamagoshi, um animal, será uma pessoa mesmo. Isso dá medo, insegurança, nos abre as mais profundas reflexões - mesmo que não percebemos conscientemente - abrindo uma verdadeira caixa de pandora interna.

Somado à tantas pressões externas e midiáticas a todo esse início é bem enlouquecedor e é assim que o vírus da “culpa materna” é implantado. Passamos a nos preocupar com o futuro, passamos a nos cobrar uma perfeição. Nos questionamos sobre quem somos e tentamos nos convencer que “agora sou mãe”, mas que bicho de sete cabeças será isso? Nesse período que nos apegamos à referências, ou senso comum ou contra-corrente - tanto faz - moldamos um personagem segundo essas referências, à gosto de qualquer freguês. Tem molde para todos os gostos, precisamos de referências, afinal nosso EU está em coma, num limbo.


A “Filha” morre aos poucos, agonizando durante 9 meses para dar lugar à Mãe que irá nascer. O momento “P”, tão esperado, aguardado, é um misto de ansiedade para ver o rostinho daquele serzinho, de olhar nos olhos daquela criatura que fabricamos no meio de nossas entranhas, de cair a ficha de “caraca realmente tinha uma pessoa aqui dentro”! E de terror, pois é o anúncio da morte de quem éramos e nunca mais voltaremos a ser. O trabalho de parto é um processo de vida e morte, e no exato momento que aquela pessoa sai de dentro de nós, quem éramos morre subitamente e é enterrado à sete palmos. No nascimento de um filho, seja pela via que for, empreendemos algo inimaginável até então. Seja por colocar uma pessoa inteira para fora de si com a força de seus músculos, ou por passar por uma cirurgia de grande porte, onde sete camadas de tecidos seus são cortados. Nasce um bebê, nasce uma mãe e RENASCE uma mulher. Pois mesmo nascendo como mães, ser reduzido à apenas mãe, nunca jamais nos definirá.

Tão recém nascido quanto o pequeno ser que está nesse momento em nossos braços, estamos nós, nossa psiquê, como quando Neo é desplugado da Matrix. Somos “resetadas” e temos que praticamente reaprender a SER, com o plus de criar outro ser, totalmente dependente de nós nesse momento e sob nossa responsabilidade para sempre. As cobranças, fardos de responsabilidades da gestação passam por um upgrade e em que até ontem quando éramos tratadas com infantilização abruptamente se transforma em um super poder, onde nos cobram sermos guerreiras, leoas, abnegadas e óbvio, imaculadas. A incubadora dá lugar à formiguinha, que é transferida da redoma pro front e perde o direito de ser alguém além de Mãe e passa a ser única total e completamente ~culpada~ responsável por tudo. Isso tudo com força, à seco e com areia. Esqueceu que isso não importa? O que “importa é o neném”! É como ser transferido da pré-escola para um doutorado, onde todos e qualquer um se comportam como se fossem a banca julgadora.

Pelo menos é isso de que tentam nos convencer. Querem que nos moldar, encaixar e rotular, como numa linha de produção, nesse lucrativo produto chamado Mãe. Produto esse muito valioso para o sistema e que também colabora com a ordem, moral e bons costumes da sociedade. Tentam nos convencer que estar sob o rótulo Mãe é honra e privilégio, quando na verdade é um poderoso sistema de controle, fanaticamente defendido - muitas vezes por muitas mães - como numa Síndrome de Estocolmo.


Os “Não pode” do período da gestação para proteger o feto que nos habitava, se multiplicam e mesclam-se com infinitas munições: “Tem que dar conta”, “Não pode se queixar, jamais” “Não seja ingrata, é uma honra/privilégio/milagre/benção…”, “Quem pariu mateus que embale”, “na hora de virar ‘zóin’ não reclamou”, “Você tem que ser uma leoa”, “Não pode…”, “Você tem que…” “Agradeça..” “Culpada” “Abaixe a cabeça” “Não deve…” “Não Convém” “Fica feio”


Enquanto rola esse bombardeio com um ser 100% dependente em nossos braços, no nosso corpo, os órgãos e ossos estão tentando se reposicionar e os hormônios à mil. A incubadora fábrica de gente passa a produzir leite, nossos cabelos caem, nossos seios racham, nossos cheiros mudam, em muitos casos pontos cicatrizam, sangramos. Lidamos com mais essa metamorfose em total privação de sono,afetando nossa memória e nosso humor. Até nós mesmas e os que mais nos amam, acabam ignorando totalmente nossas necessidades individuais e até fisiológicas. O puerpério é Caos. As emoções, sentimentos e transformações mais profundas em ebulição, estão agora todas juntas! Choro, riso, amor, explosões de raiva, alegria, medo, felicidade, dor.

Emocionalmente estamos vulneráveis, e sós. Podemos ter quantas pessoas forem à nossa volta nos ajudando e apoiando, que estaremos nos sentindo sós. Podemos ser ricas, ter desejado muito a maternidade, ter nos planejado, ter lido tudo sobre, nos informado, participado de grupos presenciais, virtuais, sabermos tudo na teoria que não fará diferença. Nossa referência de quem éramos morreu, foi enterrada e sequer podemos chorar esse luto. Estamos recém-renascidas. É tudo novo, muito íntimo e individual. Sequer podemos ser honestas e assumir esse vazio. Muitas vezes aceitamos romanticamente os rótulos e normas que nos enfiam goela abaixo nos definindo e moldando. Nos apegamos à referências e em como fomos ensinadas, pois estamos reaprendendo, descobrindo um novo mundo.

Nosso EU recém nascido, também se desenvolve, queiramos ou não, e realmente é muito cômodo permanecer sob o rótulo e molde que nos foi dado, calando a personalidade em desenvolvimento dessa nova mulher, reduzindo a um fantasma ou alucinação associando a um espectro da mulher que fomos, mantendo-a totalmente morta, restando apenas à nostalgia, e aceitando feliz grata ser reduzida, definida à apenas, Mãe.

Todo esse caos, por muitas vezes acaba nos tornando fortes, não como um super poder, mas por não haver outra opção. Ou se torna forte ou não sobrevivemos para darmos conta de tanta cobrança. Ou rompemos com o rótulo e normas, ou enlouquecemos e adoecemos. Quando rompemos, vem o insight. Nos fica claro que estávamos enganadas! Aquela mulher anterior, que foi enterrada, não estava morta, era semente! Nos lembramos do momento em que colocamos aquele ser pra fora, o quanto isso é mágico e incrível! Se podemos isso, podemos qualquer coisa. Quando permitimos ela se desenvolver, é como uma nova vida. Tem momentos que podemos comparar à um bebê, criança, adolescente e à maturidade. Esse processo também é individual, muitas permanecem num limbo, ou estacionam em cada fase. Crescer dói e esse crescimento da nossa individualidade quanto nova mulher, é de enfrentamento, uma verdadeira guerra, com toda sorte de munições, estaremos sós, nós por nós no front, contra todo o senso-comum. “Nada causa mais horror à ordem do que mulheres que lutam e sonham”

Quando conseguimos ultrapassar todas essas barreiras, e mesmo sob bombardeio,
chega um momento que nos tornamos imunes às pequenas acusações. Muito nos abalamos, pois os ataques tornam-se maciços e acabamos dando espaço pro já comentado “vírus da culpa materna” se proliferar. Depois de certos infernos, não é qualquer demônio que nos queima. Quando conseguimos olhar para nossa individualidade com amor, mesmo que um pouquinho, é um antídoto para esse vírus, e voltamos a ser fortes. Não é fácil, é todo dia, e essa nova mulher não pode ficar em segundo plano. É o princípio da máscara de oxigênio. Precisamos estar fortes, pois ainda tem aquele serzinho que foi fabricado dentro de nós, que também está se desenvolvendo e temos responsabilidades sobre eles.

Para criarmos uma pessoa inteira, precisamos estar inteiras.

Eles nos tiram da ordem, nos põe de volta, nos fazem refletir, nos revolucionam. Nos ensinam a crescer, mudar paradigmas, enfrentar, desapegar, nos doar. E se conseguirmos extrair algum proveito desse turbilhão, não nos tornamos apenas mães, mas indivíduas, pessoas, mulheres melhores do que éramos antes.

Após toda essa metamorfose, toda nossa visão de mundo muda. Ideais, ideologias, certezas, expectativas amorosas e profissionais. O que acreditávamos e idealizávamos sobre maternidade não nos servem mais e incrivelmente descobrimos que nunca nos perderemos totalmente de quem fomos, só aprimoramos, uma verdadeira lapidação.

Mesmo com um corpo diferente, com expectativas diferentes, um milhão de culpas, sufocos e responsabilidades em todas as esferas que compreendem criar uma pessoa, ainda amaremos o que amávamos antes, seja botequim ou biblioteca, all star ou batom vermelho, de samba, rock ou forró, de fazer sexo, de balada ou maratona de filmes. Se agregam aí também novos gostos, quando trocamos o maiô pelo fio dental, o renda e rosinha discreto por vermelho. Afinal, depois de sobreviver ao bombardeio no front da culpabilização, ~cagamos~ ignoramos o que possam a vir pensar sobre nós, pois de qualquer modo, por maior que seja o esforço, mesmo a mais moldada, enquadrada e rotulada sob o rótulo do Produto Mãe, será apontada. Então gasta-se menos energia em manter um personagem, e tanto faz sermos quem queremos ser, não há muita diferença entre os pesos. Por mais que tentem nos convencer que é feio, subversivo, errado, pecado ou qualquer nome que queiram utilizar, para tentar nos infectar, não sobreviveremos com metades pois “depois que um corpo comporta outro corpo, nenhum coração suporta o pouco”, então que sejamos plenas.

Ah, já ia me esquecendo, e é importante compartilhar, o que posso afirmar diante da minha vivência, esse processo acontece não apenas na primeira gestação/parto/puerpério/filho, mas em todas que uma mulher vier a ter e é cada vez mais forte, intenso e profundo. Morri, Renasci, Rompi e estou brotando, pela sétima vez.

PS. Não estou grávida pela sétima vez, eu conto a perda gestacional que sofri em 2014, como parte do processo, e conto como filho esse ser que passou pelo meu ventre.

Tags maternidade-real feminismo empoderamento gravidez
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Maria Antonieta

Maria Antonieta
"Bela, Empreendedora e do Bar", quase futura Filósofa, CEO da [:koshtech], idealizadora do [:batepronto], workaholic, mãe de seis, "mãe" de Pet, de alma e <3 suburbanos. É Portelense e selvática. Vive na corda bamba que é (sobre)viver com Lúpus. Já viu a cara da morte algumas vezes, por isso tem sede de vida.

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