Ser mãe em yorubá

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Uma coletânea de poesias, relatos e contos, fotos e artigos do período de fecundação, gestação, parto e puerpério da poeta, atriz, arteterapeuta, jornalista e mestranda em artes, Adriana Rolin se transformaram em livro, o Cria Jubal. Foi a partir desses relatos amorosos, um verdadeiro convite para os leitores fruíssem dessa experiência junto com ela, que começa a ser gestada também a performance “Ei Mulher”.

Os poemas do livro Cria Jubal percorriam toda a vivência do tornar-se mãe sob a ótica da mulher-mãe-negra-periférica. Sua transposição  poética somada à pesquisa sobre a cultura afro-brasileira e suas matrizes estéticas e filosóficas fez surgir a performance de rua. A mulher negra e periférica tem um recorte sintomático no espaço político e artístico. É de necessidade pública ressignificar o protagonismo feminino e referendar a identidade cultural do matriarcado negro, com seus ritos e cantos, instrumentos e turbantes, suas deidades e poesias, danças e artes. Aqui, Adriana Rolin conta sobre as suas mil e uma criações: do livro, passando por seu filho, até a coletiva Agbara Obinirin.

1 - Você primeiro escreveu um livro durante a gestação e paralelamente criou a performance, certo? Conta essa história pra gente.

Bem, tudo começou na gravidez, nesse momento fecundo. Engravidar é um grande portal... meu processo criativo tomou a forma de livro, eu trabalhava como arteterapeuta para uma instituição e a cada intervalo no setting terapêutico, era uma poesia escrita. Escrevi compulsivamente. Cheguei a sonhar com os versos e acordava já inspirada... E quase sempre publicava esses escritos no facebook com fotografias do casal jubas contentes. Ah sim! Jubas! Eu fui seduzida pelo meu marido através de seu cabelo crespo, longo e cheio. Nos conhecemos numa escola de artes, ele professor de educação ambiental e eu professora de artes cênicas. Quando o vi, não resisti, dei em cima. Trocamos telefones e marcamos de assistir uma peça juntos. Surgiu o primeiro beijo ainda no teatro e logo depois, eu o pedi em namoro. Na semana seguinte, a primeira transa foi na minha casa, pois eu morava sozinha, e durante a transa, ele me pediu em casamento, feito dramaturgia mesmo. Começamos a dividir o mesmo lar 2 meses depois e mais 10 meses nos casamos efetivamente, com direito à cerimônia, festa e novo sobrenome... Adoro lembrar de nossa história! Isso era 2011, a gravidez foi em 2014. Pari em outubro, um libriano de 42 semanas, depois de 32 horas de trabalho de parto. Sim, fui militante do parto ativo e da mulher enquanto sujeito e não objeto de seu corpo e de seu parto. Inclusive escrevi artigo sob o título "A Indústria do Parto" para um jornal socialista, eu escrevo artigos porque também sou jornalista. Mas... o parto foi cesária!! Me frustrei, me fechei. Sim, sofri violências obstétricas, apesar de... ainda é difícil falar disso. Tive um puerpério bem complexo, chorei todos os dias durante 2 meses seguidos, amamentar era um tormento. Mas ainda assim, eu continuava a escrever poesias e a publicar nas redes. Penso hoje que escrever foi o meu caminho de transcendência. A partir dos comentários de meus seguidores, tive o impulso de enviar minhas poesias para as editoras e enfim meu livro Cria Jubal nasceu!! Zabir, meu menino de nome africano, estava com 1 aninho no dia do lançamento. Convidei muitos amigos artistas e alguns deles criaram performances com base em meus poemas, foi lindo! Mas foi o poema Ei,Mulher que ecoou naquele dia!! Uma amiga criou uma dança africana para este poema e levou um percussionista para tocar ao vivo, e me pediu - na hora - para recitar simultaneamente. Fui pega de surpresa e recitei com a sensação que reverberava em mim. Foi um grito, fui tomada. Foi um "Ei,Mulheeeeeeer" saindo de minhas entranhas. Foi ali que eu voltei para o mundo. Senti que a missão era maior que eu, senti uma conexão com minhas ancestrais e percebi o quanto que o matriarcado negro é forte, potente, profundo e ferido... No mesmo dia, uma outra artista veio até mim e disse que o poema Ei,Mulher precisava ser alargado, que precisávamos criar uma performance de uma coletiva de mulheres negras e eu é que precisava tocar o tambor. Lembro de me sentir incapaz. Fiquei feliz por perceber como ela me via e triste por ter "esquecido" da mulher que eu poderia me tornar. Senti medo, mas fui. E assim, foi surgindo... a fricção de uma poeta, artista, mãe, negra. Combinamos uma reunião e conversamos sobre as deusas da mitologia yorubana. Fiquei encantada, mesmo negra e militante, confesso que não conhecia a fundo sobre os mitos africanos. Convidamos mais 4 mulheres e eu segui o chamado... Compus 3 músicas em yorubá, treinei percussão sozinha vendo vídeos no YouTube e nas próximas reuniões já tinha um roteiro do que poderia vir a ser a performance...



2 - Há quanto tempo a coletiva Agbara Obinrin existe? Onde a performance já foi apresentada?

A coletiva existe desde esse processo de construção da performance. O nome da coletiva Agbara Obinrin, foi dado por conta da música de mesmo nome que eu compus e apresentei-as. São duas palavras em yorubá que significam Força Mulher. Hoje nós temos 16 meses de união e ainda somos as mesmas mulheres desde a estreia. Somos todas deusas da mitologia yorubana: Obá, Oxum, Yemanjá, Nanã, Iansã e Ewá. Cada uma representa um elemento da natureza e um arquétipo do feminino. Obá é a deusa do poder e da guerra; Oxum é a deusa das águas doces e do ventre da mulher; Yemanjá é a deusa do mar e da maternidade; Nanã é a deusa das águas paradas e dos saberes; Iansã é a deusa dos ventos e das tempestades e Ewá é a deusa da virgindade e das matas virgens. A concepção vem da corporalidade do feminino negro com base na dança das orixás, revisitando e ressignificando a tradição de nossa cultura, bem como os solos foram construídos na travessia de orixá-mulher, ou seja, o mito foi oxigenado com as nossas histórias pessoais, ai isso é tão lindo né... Amo essas mulheres dessa coletiva! Ah como elas me impulsionam, me transformam. Ah e vale frisar que tudo, sim, tudo, desde produção, texto, criação musical, direção e tal, tudo foi feito por nós seis. A nossa estreia foi dia 31 de julho de 2016 na Marcha das Mulheres Negras, com uma performance de 12 minutos de duração. De lá pra cá, já apresentamos em diversos lugares, tais como: ONU Mulheres, Casa do Jongo da Serrinha, Ateliê de Pesquisa do Ator no Sesc Paraty, Sarau Carolina Maria de Jesus, Griotagem na UERJ, Marcha Crespa, Mulheres de Pedra, Projeto Caboclinhas, Sarau Preto, Semana de Teatro da UniRio e etc, o que nos fez aumentar para 20 minutos de duração acrescentando um prólogo narrativo, outras canções em yorubá e outro poema chamado Óh Folhagens de África de minha autoria também. Recentemente participamos do Festival Sesc de Inverno, o nosso primeiro contrato efetivo enquanto profissionais. Lá apresentamos o espetáculo de cena-ritual-curativa e as vivências com base nos arquétipos de nossas orixás. Para mim em particular, é bem emocionante, perceber que aquele chamado que eu ouvi lá trás, está dando flor. Estamos crescendo sabe e disseminando o mulherio negro no lugar de rainha e não num lugar subjugado... “somos todas deusas, e uma vez deusa, para sempre deusa.” é uma frase de Tatiana Henrique, da coletiva, amo essa frase, nossa! Mas não para por aí, até o final do ano, teremos 18 apresentações já marcadas! Peita mano! Amor demais!




3 - O livro está a venda em algum local?

Poxa vida... não está, não. Acabou! Eu até poderia lançar uma segunda edição né. Mas é uma vida dura essa de vender livros, vou te contar... Atualmente eu estou escrevendo meu segundo livro, já tenho umas 30 poesias, provavelmente vai se chamar “Devir-Mulher-Poesia” mas estou em dúvida, também gosto do nome “Devir-Mulher-Mãe-Negra”. Ano que vem vocês saberão! Pode ser até que seja antes, acabei de passar no mestrado e estou inspirada, voltei a escrever compulsivamente, como na gravidez. Tenho escrito umas 3 poesias por dia... Aliás, sabe sobre o que vou pesquisar em minha dissertação? É muita luz, minha mãe, ai meu coração!

4 – Me diga! Já estava no roteiro da entrevista perguntar sobre seu mestrado... Como foi esse processo? E quem é Obá?


Olha! Em minhas andanças como atriz, conheci este teatro que prioriza o corpo sensível em 2009 no Amok Teatro e de lá as oficinas de aprofundamento se tornaram rotina até em 2014 ser convidada para compor como atriz-pesquisadora do Ateliê de Pesquisa do Ator regido pelo Sesc Paraty, coordenado por Stephane Brodt e por Carlos Simioni. Simultaneamente, desenvolvi uma pesquisa solo em minha monografia da pós-graduação intitulada de Lapso Falho, Processos de Criação e a Experiência do Sagrado no Teatro da Crueldade, o que levou a adentrar nas travessias arquetípicas do imaginário no Museu de Imagens do Inconsciente durante todo o ano de 2016. Aí, no ano passado tentei o mestrado na UERJ, mas o pré-projeto era outro, basicamente Antonin Artaud e APA. Não passei, mas fui convidada a compor o grupo de pesquisa chamado MOTIM - Mito, Rito e Cartografias Femininas nas Artes coordenado pela phD Luciana Lyra que me apresentou os conceitos de Mitodologia em Arte e Artista de F(r)icção. E aí minha amiga, fodeu! Vou descobrir o que tem lá no fundo de meu Hades, porque f(r)icção cunhado por ela é o entre-lugar do artista e da persona, eu e Obá. Essa Luciana é maravilhosa demais! Essa semana estou lendo teses de outras mulheres orientadas por ela, sobre seus mitos pessoais, e olha, é fortalecedor, eu estou de um jeito que queria que o mulherio inteiro bebesse dessa água... Obá é a orixá considerada rainha das águas revoltas, o lugar das quedas é de seu domínio. Fundadora da sociedade de Elekô que cultua a ancestralidade feminina, onde o rito só participam mulheres. Senhora do rio Obá, é enérgica e temida. Considerada mais forte que alguns deuses masculinos, tendo inclusive os derrotado. Ela pune os homens que maltratam as mulheres, pois é a Deusa protetora do poder feminino. Também é considerada o arquétipo do feminino ferido, pois foi traída por Oxum, outra deusa feminina que lhe enganou com uma receita de um cozido para seduzir seu marido Xangô usando sua própria orelha, o que foi um fracasso arruinador. Obá está ligada às cheias do rios, às enchentes, às inundações, pois rege às desilusões amorosas, as revoltas e os transbordamentos causados pelas frustações e desesperanças. Ela é a força oriunda da vingança de uma traição. Assim como um rio que enche porque não suporta mais a água, Obá explode por não suportar seus sentimentos. Para mim, Obá é a raiva transformada em potência, é a sabedoria da ressignificação.


5 - No que a maternidade te influenciou como artista?

Nossa!! Muita coisa! Sou atriz de teatro há 16 anos e sempre me vi potente, porém insegura. Com capacidade de ocupar o centro da cena, mas sem coragem para tal! Às vezes me enxergavam arrogante até. Sim, arrogante porque quando não me sentia pertencente ao ambiente, ao grupo ou espetáculo, eu precisava fazer o movimento contrário, o movimento da defesa-ataque. Eu atacava antes de pensar que eu poderia ser atracada ou me sentir atacada. Sou uma mulher negra de complexo de inferioridade, difícil encontrar alguém da população negra sem esse complexo mediante ao nosso contexto histórico e o que fizeram com a nossa saúde mental, enfim... Faço terapia e também sou terapeuta, o que me faz ter uma auto-análise um tanto mais profunda. E... parir me tornou inteira!!! Hoje conheço o meu valor e digo isso em lágrimas, você vê. Parir foi curativo em vários sentidos. Mas sobretudo no sentido artístico, me fez ser mais leve, mais segura, mais potente e automaticamente mais protagonista também.


6 - Sobre ser mãe e negra:

Poxa... um processo grande e árduo. Bem, meu processo de empretecimento começou quando meu pai faleceu, eu tinha 17 anos. Sou filha de um casamento inter-racial, mãe branca e pai negro, nasci de pele clara, cabelo crespo e fenótipos negros. Minha mãe era católica de classe média e meu pai era candomblecista de classe baixa. Eles se conheceram na universidade, pois a família de minha mãe, proprietária de uma confecção de bolsas, havia falido e meu pai era o único de sua família a sair da favela de Acarí e prosseguir no 3o grau. Note que além de um casamento inter-racial, havia também uma divisão de classes. E eu, filha única, era o centro desse conflito. Com o embranquecimento social, me tornei católica, alisava o cabelo e não visitava meus parentes paternos, também por alienação parental. Mas com a morte de meu pai, de câncer, tive um despertar. Me tornei rebelde e me voltei contra minha mãe num primeiro momento... Nessa época, eu namorava um rapaz branco, perdi a virgindade com ele. Esse namoro foi um tanto conturbado, pois eu estava me redescobrindo nesta fase. Ainda assim, durou 6 anos, de idas e vindas. No término deste relacionamento, eu tinha 22 anos, cortei meu longo cabelo, cortei bem curtinho e deixei surgir minha verdadeira eu. Muitas lágrimas aqui, ai ai! Esse ano completo 9 anos de cabelo natural, mas ainda assim, eu sempre pintava de cobre meio aloirado, e recentemente, tem 4 meses, pintei com a cor original de meu cabelo, castanho escuro. Ou seja, eu todinha!!! Bem preta! Depois de aceitar minha cultura, de beber na fonte da mitologia yorubana, de me tornar feminista negra e militante, e sobretudo depois de me tornar mãe é que sofri meus primeiros relatos de racismo. O primeiro foi na minha própria família, parentes maternos, eu estava grávida e o comentário fora sobre meu filho ser um coitado por provavelmente nascer negro, tendo em vista que eu casei com um negro e não com o branco que eu namorei antes. O segundo foi numa feira aqui perto de casa, hoje moro no apê que eu e meu marido compramos, no Grajaú. Eu estava com meu filho na garupa da bicicleta e tentava comprar uma tapioca. Mas fui julgada pelo feirante como ladra, ele foi bem agressivo e eu mal conseguia retrucar, tamanha perplexidade. Ele pegou meus 20 reais e não me deu o troco. Eu pedi o troco e ele revidou dizendo que eu lhe havia dado 10 reais e emendou me chamando de ladra de barraca. Doeu muito e ainda dói! E o terceiro foi aqui no meu condomínio. Eu estava ensaiando a performance Ei,Mulher, num local estritamente reservado, estava no horário comercial, num dia de semana. Estávamos todas de turbantes e saias rodadas. E somente isso foi o suficiente para diversos vizinhos julgarem e comentarem com mais de 700 mensagens no grupo do whatsApp sobre mim, a proprietária macumbeira do 801 que precisava ser banida. Mas neste caso, eu reivindiquei, com o auxílio de meu marido, de outros professores, de outros artistas amigos meus, e até de advogados. Criamos uma carta de desagravado ressaltando o regimento interno, ressaltando que não infringimos nenhuma regra e que portanto ensaiaria tantas outras vezes eu assim quisesse. (pausa) Acho que fugi um pouco de sua pergunta né? Mas ser mãe negra, em resumo, é um ato político por simplesmente ser!


Tags literatura dança arte matriarcado-negro mulher periférica arteterapia
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Bruna Messina

Bruna Messina
Balzaquiana que não curte futebol mas joga nas 11: Redatora, Social Media, Editora de Conteúdo, Produtora Cultural e Mãe da Zoé. Estudos da Universidade de Massachusetts confirmam que tem um liquidificador no lugar da cabeça.

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