Se eu pudesse os enterraria dentro do meu ventre

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Um corpo em plena potência de afecções, seguindo o fluxo de sua natureza, personificando o arquétipo através da cena enquanto cerimônia e produzindo novas possibilidades simbólicas. Uma Medea que dança com seus próprios mitos espirituais, perigosos, impossíveis e inapreensíveis. Uma nova Luciana, que sofre múltiplas transformações, em distúrbio e delírio orgânicos, exaltando suas energias. Diria Artaud ser um corpo falho, e falho enquanto essência e desenraizamento, falho enquanto unidade de integração.

Assistindo o espetáculo "Um Berço de Pedra" com a dramaturgia de Newton Moreno não haveria outro preâmbulo senão por Medea.  O arquétipo da mulher tenebrosa, da inquietude violenta, da vingança pela paixão, ela reina na expansão desértica. A Medea de Luciana Lyra amamentou com o seu leite morto e pariu seus filhos para dentro da terra. Um texto que cava, perfura, esburaca, esmaga, soca-nos na cara toda a dor do mulherio que subverte o ventre e cria tempestades internas por desviar o caminho que lhe foi imposto.

Nesse labirinto de afeto e jorro, de parto e escárnio, de vida e morte, e em reverso: estupro e nascimento. Aquele que nasce carrega um reinício, a grávida pariu sua dor de amor. Depois de cinco textos sobre a maternidade, mães a procurar os restos mortais de seus filhos assassinados em chuva árida, sob a iluminação ritualística de Miló Martins. Os homens-espectadores sentiram-se órfãos, eles pedem colo. Colo de quê? A direção de William Pereira nos sugere habitar no colo de nossos silêncios, nos espaços outros, nos vácuos do Ser.



Já na extensa fila do banheiro, ouvindo as percepções daquelas mães-espectadoras, a alusão nos remete às mulheres em guerra e indagamo-nos onde estão essas guerras. Aqui no Rio de Janeiro, em tempo de rebentos queimados vivos na Favela da Rocinha, em tempo de extermínio dos filhos incultos, em tempo de petrificar os corações. Débora Duboc que metaforicamente representa a narrativa da morte, aponta-nos uma nova travessia: “Faz com que os homens engravidem. Estufai-os de fetos. Fazei-os parir em praça pública, nus e ensanguentados, sujos de placenta, com os peritos a doer mostrando-se as crias."



“Um Berço de Pedra” estreou no Centro Cultural São Paulo na primavera de 2016 e perdurou por quatro semanas lá. Em abril deste ano, pairou na TUSP - Teatro da Universidade de São Paulo e partilhou por outro bloco de apresentações. Em setembro deste ano, navegou nas águas cariocas para outra temporada no Sesc Ginástico. Luciana Lyra, a Medea, apresentará seu solo em recorte no “IV Encontros Arcanos Dinâmicas de Poder e Cura dos Masculinos” na Universidade do Estado de Santa Catarina entre os dias 22 e 24 de novembro. Luciana, que, além de atriz, é dramaturga, diretora e professora phD na área das Artes, nos cedeu uma entrevista sobre seu processo medéico:

NMCM - . Pode nos contar em suma como foi a travessia de criação em Medea?

Luciana Lyra - Em 2014 fui chamada para a primeira leitura dramática de 'Um berço de pedra', de Newton Moreno, no projeto leituras em cena, do MASP, em São Paulo.  Em 2015, repetimos a leitura, no teatro NET São Paulo, exatamente quando  conseguimos o prêmio de montagem do Programa de Ação Cultural da Secretaria do Estado da Cultura de São Paulo. Em fins de agosto de 2016, começamos o processo de criação e no caminho trabalhei muitas referências de minhas próprias pesquisas com mulheres, minhas experiências pessoais de migração e de maternidade, as indicações do texto de Newton Moreno e também outras referências cinematográficas, como: Lars Von Tries,  Pasolini. Enfim, foi um campo de impulsos de criação que acabaram por fomentar uma trilha para construção desta minha MEDEA.

NMCM -  De que forma você poderia tramar Medea & Luciana?

Luciana Lyra - A origem da palavra Medea é 'aquela que sabe' ou 'a do bom conselho'. Medea, a envenenadora, a bruxa, com a caldeira mágica, que induziu as filhas de Pélias a esquartejar e cozinhar o pai; Medea, a infanticida, é a antecessora dessas vítimas de uma paranoia coletiva, que se nutria do temor que os homens tinham do poder escuro das mulheres. Tocar este mito é tocar esse poder obscuro, que acredito, tenho como mulher. Assim como Medea sou uma migrante, venho do Nordeste, como a figura mítica tomada por Newton. Assim como Medea, o ato de migrar também vem significando para mim um sacrifício de minha vida pessoal, minha opção pela maternidade. Tenho procurado, assim como Medea, viver na trama com a imagem da mulher que age, mobiliza coisas e é capaz de provocar mudanças a partir de sua própria força.

NMCM - Qual é a contribuição do arquétipo Medea para o matriarcado contemporâneo em sua visão?

Luciana Lyra - A meu ver a “voz” de Medea soa alto em contrapartida à imagem monstruosa que a caracteriza, determinando um “lugar-de-fala” das mulheres a partir do rompimento com o espaço doméstico de confinação daquela que, historicamente, é sujeita às falas e às penas masculinas que guiam o espaço público, político e, neste caso, inclui-se também o narrativo. A Medea, de Newton Moreno que acabo por dar vida em cena, coloca no centro do palco uma mãe assassina de crianças e sua recusa em se conformar aos modos, patriarcalmente determinados, de comportamento. Entendo que o teatro tem representado Medea e seu ato de infanticídio repetidamente. O teatro libera uma voz feminina que não só se sente profundamente injustiçada, mas que também recusa o confinamento ao espaço doméstico das mulheres. Medea é altamente crítica do comportamento masculino e da institucionalização de seu poder, ancorada, totalmente, na linguagem da retórica e da argumentação preservada para os homens. Enfim, não sei se podemos pensar num 'matriarcado' contemporâneo, mas talvez uma linha matrilinear, que este mito nos ajuda a ver, traços interpretativos úteis aos feminismos que incorporam o mito em sua afirmação política e a crítica ao comportamento falocêntrico.


NMCM - Pode nos narrar um trecho de seu solo como amplificação para o final da entrevista?


'Enquanto eu caminhava até meus filhos, os animais saíam do meu caminho.

Cães, pássaros, bois, todos sabiam o tamanho da vingança que eu carregava comigo.

Respeitaram o vento gélido que me empurrava até lá.

Viam que minha sombra trazia outros exércitos.

Meus filhos.                                                                     

Eles estavam ali, aninhados na sua ignorância.

No berço deles, que seria sepultura, no sono que em breve seria eterno, e acordaram com o ranger de meus dentes, com o relinchar do meu peito, com os gemidos abafados de meu pranto. Pranto que evaporava rápido ao encontrar meu rosto febril.

Eles olharam doces, como quem sabe que era uma despedida. Uma flor saiu de suas bocas e eles me entregaram. E ainda assim eu os sufoquei. Com mãos de abutre, sangrando lágrimas, eu expulsei todo o ar de seus pulmões, desisti seus corações, espremi a sua seiva. Deixei-os flácidos como postas de carne abatida. Frutos ressecados quando a ave sugou-lhe a essência. Eram livros de páginas em branco...em vermelho...vazias. Se pudesse os enterraria em meu ventre. E foi assim que eu os pari para dentro da terra. E foi assim que viva presenciei o dia de minha própria morte. Foi assim viva que eu morri'. (texto de Newton Moreno).

Tags maternidade teatro medea arte
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Adriana Rolin

Adriana Rolin
Adriana Rolin se tornou atriz de teatro para viver outras vidas, é jornalista só de kaô, é poeta porque gosta de transportar o céu para o chão. Mãe de um guerreiro esplêndido chamado Zabir, fruto de um matrimônio afrocentrado. Também é arteterapeuta junguiana e mestranda em Artes. Ah, claro, tem insônia e reverte a ansiedade comendo doces vez ou outra.

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