Re-descobrir-se, é disso que o desejo trata

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Eu queria casar com o pai da minha filha. Quase lhe pedi de joelhos a sua mão em casamento, e ele me explica de formas legíveis e ininteligíveis, que a nossa relação acabaria se concretizássemos o ritual. Ele dizia que não acreditava em casamentos, que podíamos fazer uma festa, mas que deveria se chamar o anti-casamento. De forma contraditória afirmava também que já éramos casados, afinal morávamos há 4 anos juntos e ele me considerava a sua mulher. 


Eu nunca consegui chama-lo de marido, por mais que a nossa relação fosse estável e formal e aos olhos de muitos éramos sim um casal instituído na categoria de casados, mas sempre me foi estranha essa denominação. Lembro, no entanto, que quando começamos a nos relacionar, há 5 anos atrás, falamos sobre essas denominações e eu lhe disse que achava muito curioso que ao nos referirmos a um casal heterossexual, a mulher é sempre a mulher do homem (y é a mulher de x), enquanto que o homem sofre diferentes determinações (x é namorado, marido, paquera de y). Notei naquele momento e naquela conversa que ser a mulher era sempre em referência a uma outra instância dentro de um casal. Lhe disse ali enfaticamente que eu era então, no contexto em que estávamos, a sua mulher, ao olhar do Outro mundano. Não sabia eu, que consequências essa afirmação traria no imaginário daquele homem. Ingenuamente, no meu imaginário, se fez um ideal belo e harmonioso. Desde então formulamos o que fomos, uma união avassaladora, construímos muita coisa juntos, nos mantivemos sempre monogâmicos e desejantes, até que resolvemos materializar o nosso desejo em forma de bebê. E aí, tudo aconteceu.


Em algum momento, depois do nascimento da nossa filha e justamente por ter sido bem perrengue e solitário o meu puerpério, a minha gravidez e o meu parto, eu comecei a perceber o peso de ser mulher no contexto família nuclear nos moldes heteronormativos. Ou o não lugar da mulher, consumido pelo lugar da mãe. Os meus sogros e família estendida só forçavam e reforçavam o determinismo materno “pariu-toma-que-é-tua”, só pegavam no colo para tirar fotos e comprar roupinha engraçadinha. Cansei de tentar incluir, chamar para a aula de natação de bebês, tentar marcar um café, um lanche, buscando um aconchego, um cuidado, um abraço, mas era sempre tão desconfortável que se tornava mais insuportável do que possível. Pedi posicionamentos do pai para chamar mais para junto a sua família, mas não aconteceu. A minha família mora toda fora do país, eu sou estrangeira, e tenho muitos amigos, mas poucos que sabem o que é lidar com bebês. Tentei muito criar rede de pais vizinhos, de bebês na pracinha e nos arredores, mas morava em botafogo e o museu do índio fechou, o café com leite fechou, as ruas começaram a ficar mais tensas e eu fui me recolhendo dentro de casa com aquela bebê delícia sugando todo o meu líquido vital.


Foi aí que a ideia de casamento surgiu, como tentativa de que ali, mesmo que fosse só uma festa, eu pudesse novamente me sentir uma mulher. Vestida de branco, de azul, de vermelho, não importava, mas que os olhares fossem voltados para mim. E que solta na minha festa pudesse dançar enquanto alguém se ocupasse da minha filha, porque afinal seria a minha noite. Esse era o sonho que eu quis buscar.


Finalmente ele se satisfez em me dar um anel e eu aceitei. Em uma das visitas da minha mãe ela disse que ela se ocuparia da nossa filha e que poderíamos sair sem nos preocupar. Fomos no bar da esquina e ele me deu o anel, sem muitas palavras, respondendo a minha demanda. Foi importante e gostei. No dia seguinte também saímos para uma festa de arromba, dancei a noite inteira, queria ficar sozinha e ele ficou com raiva e disse “Não entendo porque você quer dançar com todo mundo e não comigo”“Eu quero dançar sozinha!” respondi. Não nos demoramos nessa conversa, mas já se fez sentir esse gosto de desejo solto.


Enfim, decidi desmamar, chamar o cabra pra conversar e falar que se ele não chamava ninguém pra chegar junto e nem ele mesmo chegava mais, eu é que iria me retirar. Precisava do meu espaço sozinha. Aquela situação estava me sufocando e eu não aguentava mais. E saí, viajei, sozinha, me apaixonei, sozinha. E falei então que precisávamos abrir o relacionamento, ali naquela tríade (mãe-pai-bebê) não estava conseguindo circular o meu desejo que havia se imposto para mim de forma abrupta e disruptiva. Ele disse que aquilo ele não aceitaria, os seus limites eram muito rigidamente estabelecidos e ele só estava comigo na condição de ser o meu único amante e eu responder enquanto sua mulher, não enquanto mulher ao meu desejo. 


Curiosamente a minha paixão fulminante foi por uma outra mulher. E somos ambas mulheres, uma para a outra e para o Olhar mundano também. A minha filha é mulher e somos ambas mulheres, uma para a outra e para o Olhar mundano também.


Pois bem, me separei, por aquela restrição que se expôs ali de forma nítida, anteriormente velada, aquele machismo que marca o comportamento dos nossos corpos em relação aos nossos desejos. Que marca os homens e as mulheres de forma castradora, restritiva e opressora. O falocentrismo é intrínseco em nosso laço social. 


Preciado, no Manifesto Contrasexual (2001) dirá que o pênis se fez passar pelo objeto privilegiado de desejo, e a partir dali toda a hierarquia de homens sobre as mulheres se colocou. Dirá também que a relação sexual entre mulheres evidencia a falsa suposta potência masculina. E que o uso do dildo evidencia a plasticidade do objeto de desejo. Os homens também sofrem por não corresponderem àquele ideal-pênis. Por pretenderem sustentar qualquer coisa, limitar qualquer outra para dar conta da sua impotência fálica, colocada desde sempre. Precisam de uma mulher que lhes diga que são eles os detentores do falo. Mas, o falo não existe!


“O falo é o significante da falta” dizem alguns psicanalistas, “O falo pode circular”, mas esta falta incita respostas agressivas, é disso que o machismo se trata. E sim, mulheres também podem ser machistas, e são! Quando a questão do desejo é em torno da falta, ela pretende ser preenchida. O falo se torna assim significante de poder, quem tem ou não tem, quem tampona então a falta? E o poder é necessariamente opressor para todxs. Ao invés de enxergar a falta como possibilidade de desejo, gosto de pensar em abertura, furo, rasgo, que movimenta o desejo, desfaz nosso imaginário de Unidade e nos faz ir em busca de um Outro corpo. Isso é desejo. Não se trata de falo.


Depois de tanto, ainda tive que escutar que estava sendo pouco cuidadosa, com ele, com a nossa filha, por estar abertamente me relacionando com uma mulher. Feria o seu lugar fálico, o seu lugar de homem-pai, detentor de uma imagem, detentor de um falo, que se construiu muito em torno do que eu ajudei a sustentar, em algum lugar eu também acreditei e me envolvi no falocentrismo. Entendo que a separação é difícil, e acreditem que para mim tem sido, difícil demais desde antes até! No entanto, estou conseguindo sair do falo, queria que ele também pudesse enxergar além-falo, se posicionar fora dele. Não estou me relacionando com outra pessoa para destituí-lo de lugar algum. Estou só querendo gozar, sentir o meu corpo ser redescoberto pós-maternidade. Sentir os meus novos peitos, minha nova vagina, minha nova barriga, minhas novas marcas. 

Re-descobrir-se, é disso que o desejo trata.

Tags maternidade-real feminismo falocentrismo empoderamento sexo
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