Quando a treta virou luta

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Engravidar, gestar, parir, amamentar.
Cuidar, carregar, limpar, alimentar, educar.
Pensar, projetar, planejar, lutar.
Lutar.

 

Muitos verbos foram ressignificados com a gestação e a chegada de Rosa, mas nenhum deles ganhou tanta força como o verbo lutar. Há um ano e nove meses botei mais uma mulher no mundo e todo o caminho até a chegada dela já foi de luta.

 

Para começar, tive que enfrentar o medo de não conseguir engravidar. Tinha o diagnóstico de endometriose, nada grave comparado a de tantas mulheres que conheço. Não precisei passar por uma cirurgia, por exemplo. O tratamento consistia em parar de menstruar, o que significava parar de ovular, deixar de conhecer o funcionamento natural do meu corpo. A única coisa que eu consegui absorver da explicação do médico é que talvez não conseguisse engravidar. Era provável que tivesse que fazer uma inseminação artificial, mas cheguei até a projetar a ideia de uma adoção. Decidi que tentaria engravidar logo e encurtar o tempo da angústia da dúvida. Para minha surpresa, no segundo mês de tentativa eu consegui.

 

Foi uma alegria, uma catarse. Meu corpo era capaz! Mas, logo em seguida, já comecei a batalha pelo parto. Meu corpo era capaz também de parir naturalmente? Onde eu ia ter o tão sonhado parto normal respeitoso? Existia no plano de saúde algum obstetra que pudesse acompanhar muitas horas de trabalho de parto? Se um médico indicasse uma cesárea, como eu saberia que ela era mesmo necessária?

 

Todas essas dúvidas foram sanadas com o auxílio de uma doula, mas que privilégio esse o meu, né? Acesso a informação e grana para pagar uma doula não é para todas as mulheres e essa constatação me incomodou muito, isso não era justo.

 

Entre pagar 10 mil golpes a uma equipe humanizada ou entrar na faca sem necessidade pelo plano de saúde, acabei indo por um terceiro caminho: parir no SUS. Mas não qualquer SUS: na única maternidade pública da cidade do Rio de Janeiro que acompanha partos humanizados, que respeita a hora de mãe e bebê. Mais uma vez, coisa de quem tem o privilégio da informação ou a “sorte” de ser encaminhada para lá. Eu tinha meios de fazer essa escolha.

 

Daí veio o suado parto desejado, consegui botar minha filha no mundo de forma respeitosa. Tive direito a seis meses de licença maternidade, maravilha. Mas meu companheiro só pôde ficar ao meu lado por cinco dias corridos. A menina nasceu na quarta, segunda-feira seguinte ele já estava de volta ao trabalho como se nada tivesse acontecido. Não por culpa ou escolha dele, mas essa era a realidade da nossa lei trabalhista, fazer o quê. O puerpério veio com força, a tristeza vinha não sabia de onde e ele não estava ali pra segurar a barra que era gostar daquele bebê desconhecido, que só sabia mamar, cagar e mamar novamente, pendurada no meu peito dia e noite. Dormir era luxo. Eu me sentia naquelas cenas de filme de guerra, em que um soldado escora o outro com arma em punho, alerta 24 horas por dia. Sentia inveja dos braços livres do meu marido, era uma coisa enlouquecedora não ter meu corpo livre para sair porta afora quando desse na telha. Ali eu senti a desproporção entre os papéis de pai e mãe para a sociedade. O homem sai para trabalhar e a mulher segura a onda da porra toda.

 

É bem verdade que os serviços domésticos não eram feitos por mim. Tive o privilégio de poder pagar a uma diarista duas vezes por semana para lavar, passar, arrumar a casa e cozinhar pra gente. Sentia alívio e culpa. Eu não deveria ter outra mulher fazendo aquilo que deveria ser feito por nós. Ao mesmo tempo, me via sem tempo de nem fazer cocô ou tomar um banho decente, eu não me sentia capaz de fazer qualquer outra coisa que não fosse ficar com a minha filha o dia todo no colo. Como as mães que não têm rede de apoio fazem, minha deusa? – eu me perguntava. A real é que elas se viram. Porque quem não tem privilégio, mana, não tem escolha a não ser dar conta. Para quem não tem opção, a filosofia da criação com apego não passa nem perto. Foi então que me dei conta de que tudo aquilo que a minha bolha chamava de “maternagem consciente” era só uma forma elitista de ser mãe, desconsiderando todos os outros contextos de outras mulheres.

 

“Mãe é mãe. Forte por natureza. Guerreira. Dá conta”. Tem isso, né? As pessoas realmente acham que a gente tem que dar conta do luto da mulher fomos, do renascimento de uma mulher que a gente nem sacou ainda qual é, daquele ser desconhecido no colo, da privação do sono, do peito esguichando leite (ou a falta dele e as feridas nos mamilos) e ainda tem que dar conta de tarefas domésticas e de ômi “cansado do dia de trabalho” que não quer fazer porra nenhuma quando chega em casa, incluindo os cuidados com o bebê. Ou, pior, acham que a gente tem que enfrentar isso tudo sozinha porque o camarada que fez o filho meteu o pé “porque não estava preparado para ser pai”. Pode crer, tem isso de pai abandonar, né? Acabei prestando mais atenção nos relatos de mães solo, aquelas que muitas pessoas chamam de “mães solteiras”, como se estado civil tivesse alguma coisa a ver com a responsabilidade paterna, como se ao cara fosse facultativa a paternidade, por motivos de “despreparo emocional”.

 

Aliás, quem está preparada para ser mãe?

 

Essa foi uma pergunta que me fiz naquelas dias solitários do puerpério. Eu era uma mulher de mais de 30 anos, casada, branca, classe média da zona sul carioca, empregada, exercendo meu direito a seis meses de licença maternidade, não precisava dar conta de tarefas domésticas e minha filha foi planejada, desejada, tive o parto que planejei e, mesmo diante de todos esses privilégios, não me sentia plenamente preparada para ser mãe. Fiquei pensando nas mulheres que tem uma gravidez indesejada, nas mães periféricas, nas mães jovens e percebi que temos um caminho longo pela frente na conquista de direitos. Não somos donas dos nossos próprios corpos, não temos o direito de escolha sobre nossos úteros, sobre nossas vaginas, nossos partos, nossas crias, sobre nossos destinos.  Ao homem que abandona filhos vivos: o mundo. À mulher que aborta: a cadeia, as leis divinas, o estigma, o julgamento eterno.

 

Pensei na minha filha. Mais uma mulher nesse mundo, mais uma para ser oprimida. E, olha, que a bicha é branca, classe média da zona sul...aquela categoria que faço parte que falei anteriormente. É privilegiada e, ainda assim, também está exposta a toda sorte de opressões, silenciamentos, culpabilizações pelo simples fato de ter nascido com uma xoxota no meio das pernas.

 

E daí, ainda ali no meu puerpério, veio a movimentação das mulheres contra o Eduardo Cunha. O pulha estava querendo aprovar um projeto de lei que tornava crime auxiliar uma gestante a abortar. Na prática, a ideia do cara era dificultar a realização de aborto em caso de estupro. A vítima teria que passar por um exame de corpo de delito antes de fazer a denúncia, para comprovar a violência sexual. Nojento demais aquilo. 

 

Eu olhava pra minha filha e me arrepiava toda, eu tinha que fazer alguma coisa, essa lei não poderia ser aprovada, não é possível. Mas minha filha tinha só dois meses e meio, eu estava com a minha vida toda voltada exclusivamente para ela, o que eu poderia fazer naquele momento?

 

Lembro que fiquei em casa lendo as notícias e ouvindo música. Alternava o álbum Selvática, da Karina Buhr e o álbum A Mulher do Fim do Mundo, da Elza Soares, enquanto lia outras mães que, assim como eu, estavam indignadas mas não sabiam muito bem o que fazer.

 

Alguém teve uma ideia: “e se fôssemos todas juntas, com nossos filhos no colo, para engrossar o coro das mulheres nas ruas?”

 

Achei incrível, corajoso, mas perigoso. Nunca me engajei em nenhuma causa de forma tão visceral a ponto de me colocar em risco (será que tinha risco?), ainda mais com filha recém nascida no colo...Será? Botei mais uma vez a música “Dragão”, da Karina Buhr:

 

“Enfrentar leões, enfrentar
Passar por cima de uma coisa que tá no lugar da outra”

 

Era a força que faltava. Peguei a bolsa, botei umas fraldas e um pano de boca dentro, botei Rosa no sling, catei meu cartão do metrô e fui. Fui com medo mesmo. Não tive coragem de acompanhar a marcha, mas fiquei aguardando a dispersão na Cinelândia. Foi lindo demais ouvir tantas vozes femininas, gritando com tanta firmeza e potência, que estavam ali pela vida das mulheres, por todas nós. Meu coração batia acelerado. Algo muito forte me tocou, me senti representada e também parte daquilo. Outras mulheres-mães também ficaram tocadas. Encorajadas, empoderadas, grandes, potentes. Vimos que juntas somos fortes.


A manifestação teve muita força, os gritos daquelas mulheres ecoaram, o paredão de mães causou impacto na mídia. Dela, surgiu um movimento espontâneo de mães a que chamamos de “Mães e Crias Contra Cunha”. A derrocada do cara começou, ele caiu e viramos “Mães e Crias na Luta”.

 

De lá para cá, muitas águas rolaram. Num ambiente considerado seguro, afinal éramos todas mulheres e mães, aparentemente com os mesmos propósitos, nos deparamos com um caso de racismo. Sim, ali na minha frente, vi mulheres negras sofrendo o que cotidianamente já sofrem pelo simples fato de existir, sofrendo uma violência que vinha de outras mulheres num espaço até então considerado seguro. Foi duro, foi cruel. As brancas acusadas alegaram ideologia, forma de falar e formas de ver o mundo, apelaram para o clássico “meus amigos negros disseram que não é racismo”. Rachamos, sangramos. Levamos muito tempo para elaborar o que aconteceu, sobretudo as manas pretas, mas em determinado momento catamos os cacos, demos as mãos e decidimos que o movimento deveria seguir forte, bonito, cheio de afeto e com muito grelo duro de quem acreditava que não bastava sermos apenas feministas, era preciso o entendimento da nossa pluralidade e que a luta deveria ser também antirracista.

 

Conheci mulheres maravilhosas, cada uma com uma história, uma trajetória, dores, traumas, experiências, demandas, esperanças e resistências. Os filhos, as rotinas, as duplas ou triplas jornadas e as dificuldades da vida muitas vezes atrapalham mas seguimos todas juntas, unindo forças para o combate, porque não tem outro caminho para um mundo mais justo para nós, mulheres, e nossas crias que não seja esse: o de luta.

 

Ando afastada do movimento, não tenho dado conta de ir a todos os encontros como eu gostaria. A minha vida profissional precisa de atenção e vida de mãe, sabe cumé, é equilibrar pratos todos os dias. Tenho uma admiração enorme por quem consegue conciliar tudo, sobretudo aquelas que não tem opção a não ser conciliar vida e luta. É fácil falar que não se tem tempo quando a vida não é tão dura, né? Para algumas mulheres existir já é resistir. Sigo fazendo o que posso, na medida que posso. O engajamento, no meu caso, vem conforme as muitas realidades me dão tapa na cara todo dia.

 

O que vejo nesse rolê todo até agora é que se ser mulher já é ser ativista por nascimento, ser mãe multiplicou esse papel de luta para mim. Calma, não tô fazendo olimpíada para dizer qual é a  mulher que mais luta ou qual luta é mais legítima, ou qualquer coisa que faça parecer que apenas a mulher que é mãe sabe o que é luta. Pelo amor da Deusa, hein, gente. Estou dizendo que, pra mim, Carol, o despertar que fez ver a treta toda virar luta foi através da maternidade. Lutamos por nós, por nossas crias, pelas mulheres que não devem ter a maternidade como algo compulsório, pelos filhos que queremos vivos. É pela vida de todas as mulheres, é pelos nossos corpos, é por um mundo mais justo ou menos filho de um puto com a gente.

 
“Leite nas tetas, sangue nas veias e amor no coração.”
Tags Feminismo
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Carolina Bittencourt

Carolina Bittencourt
Mãe da Rosa, 34 anos de pista, carioca, tijucana que foi parar em Copacabana, socióloga que virou figurinista, feminista interseccional, bissexual, místico-espiritualista, ariana, treteira, lactante,na luta e cheia de amor no coração. Não sabe quase porra nenhuma da vida, mas corre atrás para diminuir o preju.

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