Procuram - se bonecas negras

448

Imagina se existissem bonecas de vários tons de pele negra, tipos de corpos e cabelos diferentes? Imagina também se existissem bonecas personalizadas, feitas com as características das crianças que irão brincar com elas? Agora imagina mais e além: se existisse a fábrica dos sonhos, que fizesse toda essa imaginação virar realidade? Então, gente, isso está a poucos dias de rolar!

Jaciana Melquiades, Mãe do Matias, historiadora, educadora, empresária e militante do movimento negro é fundadora da Era Uma Vez O Mundo, uma empresa de brinquedos educativos e representativos que funciona desde 2008, e lançou uma campanha de financiamento coletivo na Benfeitoria para construírem essa fábrica dos sonhos na Baixada Fluminense e fazer com que mais crianças, em especial as negras, sintam-se representadas em seus brinquedos por todo o Brasil.                                                                                

Segundo o IBGE, os negros representam 53,6% da nossa população, mas essa diversidade está longe de estar representada nos brinquedos das nossas crias. A ONG Avante realizou uma pesquisa para a campanha “Cadê nossa boneca?” e constatou que a cada 100 bonecas no Brasil, apenas 3 são negras.  Uma passada de olhos nas lojas confirma isso, não é mesmo? 

Pensando nisso, a Era Uma Vez O Mundo criou, em 2016, a boneca Dandara, que fez com que a empresa ganhasse grande projeção no Brasil. Jaciana conta que Dandara é a representação de um sonho seu de infância: tornar-se boneca.


A coleção é inspirada em 22 mulheres negras reais, todas personalidades, com as mais diversas profissões, como a médica Ketleen e a rapper Preta Rara. No site, há a possibilidade também de encomendar uma boneca de pano personalizada, com as características que a pessoa desejar. A ideia é que as crianças entendam que elas podem ser o que elas quiserem, através de seus brinquedos e da criação de um espelho positivo, através da subjetividade e da representatividade.

De acordo com especialistas, a falta de representatividade é um problema, já que a autoidentificação é fundamental para a criança. Ou seja, se o brinquedo não se parece em nada com ela, se ela não se vê em bonecas e bonecos, a autoestima, desde a primeira idade, pode ficar comprometida. Além disso, a diversidade de bonecas também é importante para que todas as crianças convivam com as diferenças e aceitem os vários tipos físicos.

Mas para transformar tecidos em sonhos e fazer com que esses brinquedos cheguem às prateleiras de todo o Brasil, a Era Uma Vez O Mundo precisa passar por vários ajustes: precisam montar um espaço de trabalho, uma pequena fábrica em Belford Roxo, na Baixada Fluminense, empregando profissionais locais, que sejam capacitados para o trabalho artesanal e que recebam salários dignos por isso e, acima de tudo, que entendam também a importância social da fabricação desses brinquedos.  A formação cidadã é um dos pilares desse projeto. Para além disso, a empresa precisa de certificados e investir em testes que garantam a segurança das crianças ao brincarem com os produtos. 

Ficou interessadx em colaborar? Corre, gente! A campanha para tornar esse sonho realidade estárolando no Benfeitoria até o dia 17/06 e está funcionando no esquema “tudo ou nada”: se até a data limite não alcançar a meta, toda a grana arrecadada será devolvida para quem investiu. As recompensas estão irresistíveis: além de ganhar fofurices da Era Uma Vez O Mundo, quem colaborar acaba proporcionando também a distribuição de recompensas lúdicas e criativas para várias escolas públicas da Baixada Fluminense. Quanto maior for a arrecadação, mais escolas receberão livros e oficinas. Maneiro, né?

Nessa entrevista, Jaciana conta um pouco sobre a Era uma vez o Mundo, a maternidade e a importância do projeto e do financiamento coletivo para a realização dele:

NMCM - Jaciana, você é historiadora, né?  O que motivou a fundação da Era Uma Vez O Mundo?

Jaciana - Foi a falta total de possibilidades de comprar itens pro meu filho que se parecessem com ele. Em 2008 fazia bonecas em geral e quando engravidei senti falta de bonecas e bonecos nos quais ele se visse. E não só: personagens de camisetas, roupas de cama... Nada se parece com meu filho. Isso nos impulsionou a profissionalizar a Era uma vez o mundo

NMCM - Em 2016, você postou uma foto do seu filho Matias com o boneco Finn e o post teve tantos compartilhamentos que o John Boyega, ator que intrerpreta o personagem Finn, protagonista do filme “O despertar da força”, da saga Star Wars, também compartilhou a foto. O que você acha que fez com que essa foto viralizasse?

Jaciana - Acho que foi o desejo coletivo de ver representado nos espaços. A foto de um menino feliz tocou o ator também justamente por conta do racismo que atravessa a todos nós negros: este ator recebeu várias críticas só por ser negro, foi rechaçado pelo público que não aceitou um personagem negro, e ver uma criança tão feliz com o boneco acho que dá a sensação de que o trabalho dele vale a pena.

 

NMCM - Como a maternidade influencia o seu trabalho?

Jaciana - Influencia em tudo. A sensação de urgência é ainda maior por causa do Matias. Temos um livro, Erê, que está nas escolas públicas do Rio. Ele achou na escola dele e mostrou prós amigos muito orgulhoso dizendo que era dos pais, que o Erê era sabido igual a ele... Ele se vê. E ver ele crescer tão confiante, me faz ter a certeza que é disso que toda criança precisa.

Tags artesanato benfeitoria representatividade
SHARE

Carolina Bittencourt

Carolina Bittencourt
Mãe da Rosa, 34 anos de pista, carioca, tijucana que foi parar em Copacabana, socióloga que virou figurinista, feminista interseccional, bissexual, místico-espiritualista, ariana, treteira, lactante,na luta e cheia de amor no coração. Não sabe quase porra nenhuma da vida, mas corre atrás para diminuir o preju.

Comente

Studio na Colab55