Põe no rótulo - A união faz a força

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Me chamo Mariana, não me chamo mãe. Nem mãezinha. rs
Mas sou a mãe do Mateus, com o maior orgulho. Essa coisa de maternidade é um troço doido, um mergulho de amor: a barriga da gente cresce e abriga uma pessoa por quase um ano, a vida muda e a gente muda pra sempre com a nova vida, por mais que o cordão umbilical seja cortado no parto. Sempre soube que a maternidade me transformaria fortemente, só não sabia o tamanho dessa mudança... 

E eis que a mudança chegou chegando em outubro de 2009: Mateus nasceu comprido, 51cm, apesar de eu estar com 38 semanas de gravidez. Nasceu antes do previsto. Sim, foi cesariana. Sim, eu não sabia nada sobre parto natural. Sim, ele foi amamentado com fórmula no berçário e eu não tinha a menor ideia de que isso poderia favorecer o surgimento de uma alergia alimentar. 

E surgiu. 

Durante três meses, um "punkpério": meu bebê alternava sono, choros cortantes e cocôs na fralda. Eram muitas cólicas, terríveis. Eu, mãe de primeira viagem. "É assim mesmo, vai passar", me diziam. Quando ele fez um ano, depois de alguns sustos e de uma reação anafilática fortíssima, meu marido e eu fomos com o filhote a um alergista e tivemos certeza do diagnóstico da alergia alimentar à proteína do leite de vaca. A partir daí passei madrugadas lendo artigos e procurando outras famílias que também precisavam lidar com essa questão. 

Por mais que se preze uma alimentação saudável, os produtos industrializados são inevitáveis na correria do dia a dia. Arroz, feijão, pão, macarrão, molho de tomate
... Todos eles são industrializados. A partir da alergia do Mateus eu tive a real noção de como os rótulos eram surreais no Brasil. Foi nesse momento que a questão da rotulagem apareceu com mais força na minha - nossa - vida. 

Me transformei em uma "curiosa-de-informações-impressas-em-produtos-industrializados", mas percebi que não havia segurança nenhuma em relação ao direito à informação. Tem leite? Tem ovo? Tem soja? Tem castanha? Nada disso aparecia em destaque. Hoje a indicação da presença dos alergênicos nos rótulos no país avançou imensamente - e eu tenho muito orgulho de ter contribuído para esse processo.

Em fevereiro de 2014, ao lado de um grupo incrível de mulheres, criamos o Põe no Rótulo. A campanha tinha como objetivo principal conscientizar a sociedade sobre a importância da clareza da presença de alergênicos nos rótulos. Começamos timidamente no Facebook, mas em algumas semanas fizemos muito barulho com matérias na imprensa e conseguimos o apoio de formadores de opinião e pessoas públicas. A fanpage foi ganhando cada vez mais curtidores e a campanha foi ficando cada vez mais conhecida. Vale lembrar que eram todas mulheres, mães, algumas até amamentando. Tivemos até reuniões presenciais em São Paulo, sabe lá como conseguimos isso? Trabalhando voluntariamente pela causa, totalmente no amor, dormindo pouco, conciliando trabalho e vida doméstica, produzindo, produzindo produzindo. A gente realmente conseguiu se mobilizar. Criamos uma campanha de alcance nacional, apesar de estarmos em cidades diferentes: em São Paulo, no Rio, em Niterói, em Brasília, em Fortaleza, e por aí vai. Não foi fácil, mas foi incrível. E ah! Viva o Skype. rs


Com alguns meses de campanha ganhamos o respeito da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e da sociedade. Participamos da produção de uma Cartilha sobre Alergia Alimentar ao lado da Proteste (Associação Brasileirade Defesa do Consumidor). Mais do que mães, eram advogadas, jornalistas, publicitárias, administradoras que estavam ali, contribuindo com seus conhecimentos profissionais. Fomos convidadas para uma reunião na sede da agência, em Brasília, com a presença de várias associações de indústrias de alimentos, para discutir o que estava errado nos rótulos.

No final de 2014, a Anvisa abriu uma consulta pública em seu site sobre o tema da rotulagem. Divulgamos isso diariamente na fanpage da campanha e o resposta foi maravilhosa: a quantidade de participações foi recorde, quase 5 mil. Em abril de 2015, também em Brasília, encaramos (literalmente) representantes da indústria de alimentos. E tivemos que ouvir, em auditório lotado, que precisávamos "ter paciência" porque mudar os rótulos “não era fácil”. E cuidar de um filho com reação anafilática pela falta de clareza no rótulo por acaso é fácil, caros membors da indústria? No mesmo dia, tivemos o desprazer de sermos chamadas pejorativamente de “mãezinhas”, como se fôssemos exageradas. De repente as “mãezinhas” começaram, uma a uma, a se levantar e ir até o microfone daquele auditório enorme e gelado, para suas falas belíssimas, embasadas, consistentes, sólidas e muito, muito convincentes. Ou seja, mãezinhas nada, que mané mãezinhas o quê?! Éramos mulheres porreta falando naquele microfone, todas cheias de MUITA coragem! A indústria de alimentos queria que o prazo para a mudança nos rótulos fosse ampliado, pelo menos mais três anos de adequação (!). Não, não, não! Mostramos, com excelentes argumentos (modéstia à parte), como isso era inviável do ponto de vista da saúde de uma população. Era uma questão de saúde!

Pois bem: em junho de 2015, em
reunião histórica realizada em sua sede,a Anvisa aprovou - por unanimidade - a proposta de regulamentação da rotulagemde alergênicos. Três votos a zero. Uau! E o Põe no Rótulo novamente estava lá (com passagens custeadas por famílias de crianças com alergia alimentar de todo o Brasil, num movimento lindo), com lágrimas e sangue no zóio. As indústrias teriam um ano para adequação dos rótulos. Lindo, né? Mais ou menos. A um mês do fim desse prazo de um ano, uma bomba: as indústrias haviam pedido para adiar o prazo. Soubemos quase por acaso, mas principalmente porque temos advogadas muito incríveis na coordenação da campanha. E lá fomos nós de novo para Brasília para GRITAR para todos os presentes na Anvisa que a prorrogação do prazo (novamente pedido pelas indústrias) não fosse aprovada. Conseguimos. Desde 3 de julho de 2016, é obrigatório que os rótulos descrevam, com destaque, informações na presença de leite, ovo, soja, trigo, peixe, amendoim e outros alimentos. E continuamos de olho: se algum produto não está rotulado, a gente indica na fanpage (que hoje tem mais de 130 mil curtidores!) que as pessoas enviem e-mail para a ouvidoria da Anvisa. Quem não cumpre a norma estabelecida pela Anvisa tem que sofrer sanção e multa. Simples assim.



Aqui em casa
a mudança foi intensa, me apaixonei mesmo por este tema. Mudança tão intensa que decidi trabalhar com nutrição. Me formo no fim deste ano e quero cuidar de gestantes e crianças, principalmente crianças com alergia alimentar. E levo meu conhecimento e minha experiência com a comunicação para a nova carreira.

Me chamo Mariana, sou jornalista, escritora e estudante de nutrição.
E sou mãe. Sou uma Mariana muito, muito melhor do que há quase oito anos. Mais sensível, mais forte, mais humana, mais potente. Devo isso à maternidade, sem a menor dúvida. E um dia vou contar essa história com todos os detalhes pro Mateus.

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Mariana Claudino

Mariana Claudino
Mariana Claudino já plantou árvore, fez filho e escreveu livro: é mãe do Mateus e autora de best-seller (conhecem o “Almanaque anos 80”?). Carioca, rubro-negra, portelense, jornalista e às vésperas de se tornar nutricionista. É sincretista e áries com ascendente em peixes (ou seja, promove tretas com doçura). E tá só no começo da vida.

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