Os pais unicórnios e a carga mental materna: Uma conta que não zera

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Interessante que quando fizemos a publicação de dia dos pais ilustrando o que seria o real papel de pai, apareceu muito unicórnio que vestiu a roupa de super pai, deu check em cada imagem e mostrou pra toda sua rede social que eram pais presentes, aqueles acima da média. Ficamos surpresas com a quantidade de "parabéns" no post, reconhecemos esses unicórnios em alguns de nossos companheiros também e seguimos baile. 

Passado 1 mês da nossa campanha que foi bem fofa, pois o objetivo era ser didática e atrair mais homens pro bonde "seja pai de de verdade e não seja um pai de selfie", nos deparamos novamente com nossas angústias. O problema é que a conta nunca fecha. Pois mulheres-mães estão sempre sobrecarregadas e ultrapassando limites de suas mentes e corpos. Há muitos relatos de mulheres adoecidas, que se sentem estagnadas profissionalmente, que abrem mão de oportunidades melhores de trabalho por não conseguir encaixar a rotina da família, mulheres que se tornaram mães profissionais e não conseguem sair do ciclo eterno que é cuidar de uma criança... 

E se fosse "só" cuidar da criança a gente estava bem. Mas temos que dar conta da lâmpada que queimou no banheiro, da comida que tem que descongelar para ter almoço, da introdução alimentar saudável pros filhos e filhas, se o uniforme está lavado, precisamos nos preocupar em passar valores e instruir o filho em situações de opressão, se o pai vai realmente pegar o filho no fim de semana e criar um plano "b" caso ele fure o compromisso com o próprio filho, se o trabalho está em ordem, no meu caso especificamente, se as provas estão corrigidas, as notas lançadas e o plano de aula preparado. Vamos dormir pensando em todo o serviço a ser feito no dia seguinte. Isso por que eu já saí daquele período que até o sono de seis horas seguidas é um fator de luxo. 

É desesperador perceber que isso não é um problema exclusivo meu, ou de um grupo de amigas. Vejo que a sobrecarga mental e física por causa de organização da família continua sendo naturalizado na vida das mulheres. Continua sendo responsabilidade principal de mulheres. Com níveis de estresse e problemas diferentes o que percebemos são mulheres cansadas, estafadas, adoecidas, que querem jogar tudo pro alto. E ainda carregamos a culpa por acharmos que não estamos dando conta, por querermos sumir pra ver no que vai dar. Mas nem sempre temos coragem de ir contra à construção social do "instinto materno", que nos obriga a ficar e cuidar de tudo. 

Após enxergar essa conjuntura ainda temos que ser lúcidas o suficiente para explicar com toda a calma de uma mãe (no sentido santificado que a palavra carrega) o quão perverso é essa lógica e como ela se perpetua mesmo após tanto embate e exposição sobre o feminismo. 

Mas é preciso continuar a luta, mesmo com todo cansaço, pela minha sanidade, pela saúde das mulheres que são minhas amigas e das que não são, pelas mulheres negras periféricas que tem a sobrecarga mais pesada dessa sociedade racista que vivemos, pela minha mãe que dedicou toda uma vida para a família e foi impedida de sonhar seus próprios sonhos, por nossas filhas e filhos. 

Quanto aos homens, esses que se identificaram como unicórnios, continuem sempre revendo seus privilégios, não passa de suas obrigações para atingirmos um nível saudável de sociedade. Pois temos um mundo inteiro de "brotheragem "e de privilégios masculinos para enfrentar. Precisamos fechar essa conta que mesmo em lares ditos desconstruídos ainda não está nem perto de zerar.

Tags mater
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Gabriela Maia

Gabriela Maia
Professora de geografia, confrontando diariamente o sistema escolar. Viajandona da mente, viajante somente nas férias. Mãe do Gael, há 4 anos aprendendo na marra o que é maternidade nesse mundo machista e lutando muito pra não criar um.

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