O que eu aprendi com a não-monogamia

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Eu e meu companheiro Raoni somos não-monogâmicos desde o início do nosso relacionamento. Isso significa que a gente tem regras próprias e não segue uma cartilha pronta. Pra gente, significa entre outras coisas, que podemos sair, ficar, transar ou nos relacionar com outras pessoas que não sejam nós dois. Não estou aqui pedindo opinião de ninguém sobre isso, veja bem. Estou fazendo uma introdução para apresentar as reflexões que quero trazer mais pra frente. Como escolhemos nos relacionar desde o dia que estamos juntos, e seguimos felizes assim, é problema nosso e só nosso.

Entendemos que nosso amor, nosso companheirismo e nossa cumplicidade são medidos pela forma como nos tratamos, cuidamos e conduzimos o nosso dia a dia, e que se interessar por um terceiro não quer dizer de forma alguma que nossa atração sexual ou amor pelo outro seja menor. Ficar ou se relacionar com outra pessoa também não diz nada. Acreditamos que ninguém tem o poder de "completar" outra pessoa e, que bom, porque somos completos e nos bastamos. Mas escolhemos caminhar juntos e construir coisas juntos, mas também escolhemos não abrir mão de outras pessoas ou experiências pra isso. Essa é uma escolha exclusivamente do casal, não interessa a mais ninguém.

É verdade que a maioria nem chega a poder fazer essa escolha porque a não-monogamia não é nem um pouco falada ou ensinada, não é apresentada como opção. Em volta da ideia da não-monogamia, existe uma nuvem de preconceito que faz com que as pessoas a enxerguem como promiscuidade e sem profundidade. As pessoas não fazem ideia de como pode ser natural muitas vezes e que, sim, é uma opção.

Temos nossos acordos que parecem firmes e perfeitos (que são pessoais, e não cabem ser falados aqui), mas é importante dizer que eles são extremamente fluidos e que demoramos 4 anos para chegar neles, em constante mudança. A cada nova experiência, fazemos alguma adaptação nova, testamos e vemos como lidamos com aquilo. Como não temos nenhuma referência de não-monogamia no cotidiano (faltam livros, filmes, séries etc), a gente só consegue descobrir o que funciona pro casal na prática mesmo. E não tenho nem esperança de parar de mudar os acordos, como disse, são fluidos. Aprendi que a única certeza que temos é de que eles podem mudar e tudo bem.


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Muito dos nossos acordos e reflexões sobre esse modo de se relacionar trazem a questão do papel da mulher e do homem no relacionamento. Ao homem foi aceito trair e até ter mais de uma família ao longo dos séculos. E ainda hoje a sociedade perdoa e aceita (de modo geral) o homem que trai. "Homem é tudo assim mesmo". As mulheres são incentivadas a perdoarem traições. Mas, se uma mulher trai, ela é estigmatizada pra sempre. Pra sempre vão olhar pra ela como aquela que não cuidou da família, como a piranha. É muito importante quebrarmos esse padrão da monogamia nesse outro modelo de relacionamento.

Aprendi que só faz sentido um novo modelo se ele for para empoderar - afetiva e sexualmente - a mulher, que sempre foi castrada e julgada pelas suas condutas. O homem sempre teve, e continua tendo, sua liberdade. Agora é hora da mulher ter. A ela cabe cuidar do lar, das crianças, percebam: fica presa em casa, não há liberdade na forma como se enxerga o papel da mulher hoje em dia (e antigamente). É esse padrão que queremos romper. O que estamos construindo é o meu empoderamento afetivo e sexual, o que eu luto (e nós lutamos) é pela minha liberdade negada socialmente.

É claro que isso permite também ao Raoni se beneficiar de experiência incríveis, de forma livre, que ele não teria da mesma forma na monogamia. E é claro que nossos acordos são feitos de modo a respeitar as necessidades e sentimentos de cada um. Mas nosso foco tem que ser claro, sob o risco de repetimos o padrão da monogamia: dar a liberdade a mulher que ela não tem.

Dito isso, quero apresentar uma questão que reparei nesses últimos anos: parece existir uma preocupação coletiva muito grande com o bem-estar do Raoni quando estou com outra pessoa, mas essa mesma preocupação não é tão comum quando é ele que está com outra pessoa. Na verdade, são raras as pessoas que em algum momento se preocuparam em como eu estava lidando com o fato dele estar com alguém (amo vocês, bando de lindo!). Eu digo preocupação genuína, e não julgamento disfarçado de preocupação, do tipo "nossa, como assim? Eu morreria de ciúmes, jamais permitiria". Quando a mulher fica com outra pessoa, há uma preocupação constante para que ela não destrua o relacionamento, não deixe o parceiro de lado, não abandone a família ou o diabo que o seja. Mas quando o homem fica,ah, deixa ele, né, se eles combinaram o relacionamento assim, tá tudo bem. Só o homem interessa, só o prazer do homem.

Sabe o que é isso? Mais do mesmo machismo e controle sob a mulher de sempre. Além de colocar a responsabilidade do bem-estar da família apenas nas costas da mulher, como se a família toda dependesse disso. A sexualidade da mulher incomoda. A liberdade da mulher incomoda. Não há novidade, só disfarce de preocupação. Eu procuro ter paciência com a desconstrução alheia, tenho consciência de que por vezes as pessoas ficam perdidas naquilo que nunca ouviram falar. Mas uma coisa é curiosidade, interesse, outra muito diferente é julgamento disfarçado de preocupação. Esse eu dispenso. Cabe a nós dois (e só) julgar os nossos limites, aceitar nossos combinados ou refazê-los. Somos adultos e temos total capacidade de decidir juntos o que achamos melhor pra nós. A todo o resto da humanidade, cabe aceitar nossas escolhas e, principalmente, respeitar.

Outra coisa curiosa é que todas as pessoas pressupõem que pra uma relação assim existir, não pode existir ciúmes. Então, trago novidades. Ele existe muitas vezes e tá tudo bem. Quando entendemos que as pessoas não são nossas propriedades, que elas estão livres para serem o que são, gostarem de quem gostam, que não somos uma metade, as coisas ficam bem mais fáceis, sabe? E quando você sabe que a pessoa não precisa te esconder nada porque vocês tem a liberdade pra ficar, gostar,amar outras pessoas fica mais fácil ainda de lidar. Podemos gostar de outras pessoas e continuarmos nos amando, juntos, simplesmente porque escolhemos ficar juntos. E isso é lindo. Não precisa existir competição, você passa a entender que as mulheres com quem seu parceiro fica não precisam ser rivais, mas mais que isso, podem ser suas amigas.

Num relacionamento monogâmico, quando o casal tem um desentendimento, é possível que um deles busque uma terceira pessoa, ou por raiva, ou por se sentir desamparado. É comum que se use a traição como uma forma de retaliação, mesmo que o outro nunca saiba, mesmo que seja pra tapar buraco. No relacionamento livre, não existe esse clima de disputa, de retaliação. Não é isso que construímos. O clima é de compartilhamento, é de amizade. Resolvemos nossos problemas e as pessoas que surgirem no nosso caminho são pra somar.

Aprendemos que o relacionamento livre e não-monogâmico não é uma competição de quem está com mais gente, mas é sobre se sentir livre para, inclusive, não estar com ninguém, se não quiser. Eu não tenho que ficar com alguém só porque ele ficou ou o contrário. A única coisa que eu tenho é que ficar a vontade pra ser eu mesma, pra fazer o que eu quiser. Aprender isso é libertador. Vivenciar isso é ótimo. Aprendi também que, eventualmente, vai rolar um prazer lindo em pensar no meu companheiro tendo momentos bacanas com outra pessoa. Aprendi que sentir isso é um modo lindo de amar o outro. Mas aprendi também a não me cobrar essa sensação, às vezes não rola e tudo bem.

Na não-monogamia, pela quantidade de vezes que precisamos conversar e readaptar acabamos conhecendo muito sobre nós mesmos, nossos desejos e limites e sobre construir algo muito único e singular com o outro. Nos despimos de todos os medos e olhamos para o outro nu também, damos as mãos e vamos procurar um caminho que sirva para os dois, até não servir mais.

Tags feminismo empoderamento relacionamento
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Camila Medeiros

Camila Medeiros
Camila Medeiros, 28 anos, advogada, mãe de dois meninos, bissexual, feminista, anarquista, não-monogâmica, pisciana. Esses são alguns rótulos que carrego com muito orgulho, mas pra além deles, sou doce, muito determinada, corajosa, faladeira e amo escrever.

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