O meu amor também é válido

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Como seria possível você amar mais que tudo uma pessoa e não ter algo bom a passar pra ela justamente pela forma que você ama?

Eu me questionei muito quanto a isso antes de ter coragem de me assumir com uma criança de menos de um ano nos braços. E foi difícil pensar no quanto o mundo poderia ser cruel com ela por conta da minha forma de amar. Por agora, aos 2 anos e meio, ela ainda não sente o peso de ser filha de uma mulher lésbica, mas e daqui a mais 2, 3 anos?

Toda vez que vejo alguém falar que um casal homoafetivo não vai ser bom exemplo pra uma criança eu me questiono o que exatamente é ser exemploEu moro sozinha com a minha filha, cuido dela, dos gatos, trabalho, dou amor, carinho, atenção, mesmo com os erros normais de todo ser humano, nós somos felizes. No que poderia interferir o fato de eu amar uma mulher?

Mesmo sabendo que não muda nada,  já me culpei, mas tive que botar a mão na consciência e pensar: se eu me reprimir, não vou ser feliz, que tipo de coisa boa vou passar pra minha filha vivendo uma vida amargurada em prol de estar dentro de um padrão heteronormativo só pra me encaixar? E ai eu vi, enxerguei claramente que não teria jeito, ou eu vivia minha lesbianidade e era feliz ou eu nem sei...

Eu tenho certeza que minha filha vai ser feliz, aliás ela já é. Ela convive com minhas amigas, já conviveu com companheiras minhas, e pra ela nunca houve estranhamento. Claro, ela está se acostumando desde cedo e isso pode facilitar, mas o mundo do meu portão pra fora é cruel. Eu sei que ainda vou chorar muitas noites quando ela chegar da escola falando que estavam chamando a mãe dela de "maria macho", ou que estavam dizendo que a família dela era nojenta. Porque eu sei que vai acontecer, sempre acontece. Meu papel vai ser, diariamente, relembrar ela do quanto somos felizes, completas, de todo amor que sinto por ela e que minha felicidade na área afetiva vem através do amor, companheirismo, cumplicidade de outras mulheres. Ela vai entender, tenho certeza.

A gente vai matar um leão por dia, mas eu não vou deixar ela achar que eu ou ela estamos erradas, tendo uma família errada, vivendo uma vida errada. Não vai ter pessoa no mundo que nos diga que nossa família não é uma família.

Nós somos amor, carinho, união, resistência e sim, uma família.

Dedico esse post à Luana Barbosa, mulher negra, lésbica e mãe morta pela polícia em Ribeirão PretoLuana Barbosa, PRESENTE!

 

Tags feminismo empoderamento relacionamento lesbofobia
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Lo Res

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Lorena, 22 anos. Preta, mãe e sapatão. Sou autônoma e escrevo nas horas vagas. Sobrevivendo ao caos desse mundo estranho, na missão de criar um ser humano que faça diferença.

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