O dia em que fui agredida por ser mãe

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Ser mãe é se expor. Se expor de uma forma muito profunda. Mesmo quando você não quer, porque a sociedade faz questão dessa exposição, de acessar suas vulnerabilidades e te avaliar. Aliás nós mulheres aprendemos rápido que os indivíduos gostam de usar vulnerabilidade para sentir que têm poder, especialmente e principalmente homens. E sendo mulher AND mãe eu tive uma demonstração muito clara desses dois fenômenos no episódio que vou relatar.


Era um dia já com muitas coisas acontecendo. Havia acabado de me mudar, estava doente, estava sozinha com meu filho, que está com dois anos e meio, aquela fase crítica pra sanidade mental que a maioria de nós mães bem conhece. Precisava resolver pequenas pendências para a casa nova e lá fomos nós dois, mãe e filho, pela rua, de velotrol. Na loja a diversão do filho era pegar coisas, bater com o pé nos objetos, bater com os objetos no chão, correr, sumir de vista, o script de sempre. Depois de muitos "não pode isso e aquilo" "vai quebrar" "é perigoso" "vamo pra casa" obviamente veio a frustração da criança e, com ela, a crise de choro, gritos, debateção no chão.


Tentei aquele diálogo legal e apegado, como sempre, tentei distrair, etc, mas a fase atual é de uma crise bloqueadora e eterna. Como sempre, desisti, dei umas chamadas irritadas e fui embora, tentando não surtar. Saindo da loja, ele, em crise, saiu sozinho do velotrol e correu em direção à pista. Segurei, briguei, falei do perigo, a crise continuou no chão, como de costume. Eu não tinha mais tempo nem saúde para aquilo. EU NÃO TINHA MAIS CONDIÇÕES PRA NADA. Ele poderia ter morrido. Não dava mais pra tentar nada. Pus o menino no ombro como se põe uma toalha e o carreguei sem diálogo, bumbum pro alto, se debatendo, na outra mão o velotrol vazio. Doente, carga mental, estressada, frustrada. Segui. Ainda tentei distrair com brinquedos de um ambulante no caminho, tentei pedir calma. Nenhum resultado diferente. Continuei então da mesma forma. Era visível que eu estava transtornada e que vida tinha dado errado para nós naquela hora.


Eis que ao virar a esquina, onde havia muita gente sentada à mesa, do lado de fora de um restaurante, sinto um puxão no braço. Era um homem desconhecido, que olhou no meio da minha cara e falou "o que você tá fazendo? O que tá acontecendo? É pra eu chamar a polícia"? Lembro que fiz uma cara de dúvida, tentando reconhecer um possível amigo brincando comigo, mas não. Caiu a ficha. Senhoras e senhores, eu estava sendo fisicamente abordada, com grosseria e ameaça, diante de um público, por um homem. Eu, naquela situação de abalo físico e mental, com uma criança, que já não consigo conter no meu colo pelo peso e força, se debatendo.


Eu fui POSSUÍDA naquele momento por uma revolta tão grande que a possibilidade de diálogo simplesmente não existia. Eu senti o peso de tudo aquilo que a gente lê e escreve sobre machismo, sobre a falta de empatia real com mães. Toda aquela consciência decuplicou a gravidade daqueles segundos. Comecei um escândalo, todos na esquina observando atentos, alguns se levantando. Meu filho foi escorregando para o chão, onde continuou se debatendo.


O homem não tinha argumentos. Só apontava pra criança, dizia que todo mundo tava vendo "o que estava acontecendo" desde antes da esquina. Impossível registrar aqui tudo que eu falei, mas lembro de ter pedido muitas vezes para ele e outras pessoas realmente chamarem a polícia, pois ele teria que explicar por quê me agrediu na rua sem ter idéia de que meu filho quase se matou e de tudo que tinha nos acontecido a nós até então.  Ele foi se calando e se retirou e, não sei como, eu ainda consegui juntar algum raciocínio e dizer, aos gritos, para todos os espectadores ouvirem:


- Oferecer ajuda ninguém oferece! Você não sabe o que tá acontecendo aqui. Eu pari essa criança, eu lido com ele todo dia, não é nenhum macho que nem sabe lavar suas cuecas que vai pegar meu braço na rua e falar como lido com meu filho. E o próximo macho que vier aqui se meter vai pra delegacia agora comigo!


Eu acho que nunca berrei tão alto. Eu lembro que no fim dessa fala ele virou a esquina e minhas mãos sacudiam. Joguei o telefone no velotrol, meu filho na mesma crise, e comecei a chorar. Um choro de indignação, raiva, injustiça. Nessa hora se aproximaram umas mulheres e poucos homens, não lembro exatamente, mas fiquei rodeada de gente tentando acalmar e ajudar a mim e ao meu filho. Uma moça até pegou ele no colo e ficou com ele o tempo todo até que eu conseguisse caminhar pra casa. Quatro pessoas me acompanharam pela rua, me dando apoio e feedback positivo, enquanto eu desabafava. E isso me salvou naquele dia.


Eu não quero, com esse relato, invalidar a necessidade da sociedade proteger as crianças. Longe disso. Acho importante estarmos atentos a abusos de todas as ordens. Mas, se o que preocupava o jovem rapaz ignorante era o bem estar do meu filho, bastava ele se aproximar com calma e dizer:


- Senhora, desculpa me intrometer, mas estou vendo que nem você nem seu filho estão bem. A senhora quer sentar, quer uma ajuda pra acalma-lo? Vamo conversar, calma.


E assim descobrir do que se tratava afinal tudo aquilo. Poderia descobrir que eu era uma sequestradora? Poderia. Mas ele entenderia que era só uma mãe no seu limite. Um ser que, como uma criança, também está vulnerável a muitos tipos de abuso e opressão. No entanto o que presenciamos foi uma mistura dessa mesma opressão machista, que culminou na abordagem física invasiva (abordagem que certamente seria diferente ou inexistente se eu estivesse acompanhada de um macho) e de um comportamento doentio das pessoas em julgar, culpabilizar e agredir antes de entender. E isso tudo ocorreu tendo como foco a maternidade, que é enxergada pelas pessoas como se fosse a administração de uma cidade com uma única gestora, a mãe, onde todos se sentem no direito de opinar, julgar, culpabilizar e até exigir, sem ter a menor ideia do que ali acontece. Sem saberem que na grande maioria das vezes estamos testemunhando momentos que se repetem várias vezes ao dia junto com outras demandas emocionais, físicas, práticas que as mães não podem abandonar, e que a sociedade não nos permite abandonar, porque sempre recaem sobre os ombros das mulheres e delas é que sempre é cobrado. É das mulheres que se cobra comportamento recatado, é das mulheres que se cobra o funcionamento de uma casa, é pras mulheres que deixa a responsabilidade de cuidar do casamento, é das mulheres que se cobra que eduquem bem seus filhos, que os saiba alimentar e limpar, que tenham competências sobre-humanas para lidar com tudo.


Eu to cansada disso. Eu to cansada de ninguém saber o dia a dia e os incontáveis detalhes da rotina materna e de ser mulher nessa sociedade, mas ainda assim acharem correto agredir ao invés de compreender e ajudar. As mães precisam de ajuda, apoio e paz, porque são, por padrão, sobrecarregadas pela cobrança machista que a sociedade consolidou e, por isso, estão expostas muito mais ao estresse da carga mental e da rotina da criação. As pessoas PRECISAM entender isso de uma vez por todas. Porra, a gente só quer ser feliz também, igual a todos vocês. A gente só quer poder comprar uma cortina de box, não se preocupar a cada cinco segundos que o filho pode ser atropelado, machucar alguém, aprender algo errado, quebrar as coisas. A gente só quer poder ler um livro, sair pra relaxar, ser amada, ser valorizada, construir uma carreira que nos satisfaça, e tudo isso que todo mundo quer. E que se compreenda a condição específica de desvantagem da qual partimos pra tentar esses objetivos básicos.


Uma mulher grávida ou amamentando tem uma aura divina sim, pela beleza do vínculo que ali se estabelece. Mas mães não são semi-deusas e ninguém tem o direito de nos obrigar a ser. Nos poupem dessas expectativas doentias. Apenas nos permitam ser humanas, ter direitos e, de preferência, me ofereçam um colo e uma cerveja quando eu precisar.

Tags feminismo maternidade agressão opressão machismo comportamento
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Maíra Matos

Maíra Matos
Geógrafa, fotógrafa, mãe do Noah e casada num relacionamento aberto. Também é gayzista, abortista e wikifem. Nunca quis ter filhos, mas quando teve sabia que precisava tentar ser a melhor mãe que poderia. Ama discutir, comer, resolver e organizar, memes, karaokê e festa à fantasia.

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