Não quero ser um Mulherão da Porra

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"Mulherão da porra", "fodástica", "me representa", "guerreira"...Quantas vezes você falou esses termos ou equivalentes? Quantas vezes ouviu? Normalmente, quem ouve é alguma mulher que vivenciou ou vivencia alguma situação difícil, ou que se encontra vulnerável por alguma condição, seja ela física, emocional ou patrimonial. Ou outra qualquer.

Pode ser uma mãe solo, que de tanto ser chamada de guerreira, começa a acreditar que sim, de fato, ela dá conta de tudo sozinha. Só que ela não dá. Isso é humanamente impossível. Mas ela vai se cobrar, vai ter medo de decepcionar as expectativas e vai chegar à beira da exaustão e da loucura para conseguir.

Pode ser uma mulher negra que, em seu cotidiano, tem que pautar o racismo para seguir vivendo. E que não quer representar ninguém, ela não faz isso porque é maravilhosa, grelo duro ou coisa parecida. Ela faz porque não tem paz para viver, faz porque sua permanência na Terra depende dessa resistência.

Pode ser uma mulher enferma. Que sente dor como qualquer outra, mas que é convencida diuturnamente de que é um mulherão da porra e, por isso, muitas vezes, silencia suas dores, seu desânimo, sua profunda tristeza por não ter saúde, para ser o que dizem que ela é.

Pode ser uma mulher que viveu um relacionamento abusivo, que foi agredida ou estuprada ou que perdeu um filho para a violência. Ela não é fodástica por ter vivido isso. Ela é uma vítima!

Pode ser uma criança. Sim, uma criança! Que por ser crítica, assertiva, descolada e antenada, tem seu choro silenciado ou causa estranhamento ao solicitar a interferência de um adulto numa situação de conflito com (pasmem!) outra criança.

Quem diz normalmente são pessoas envolvidas em movimentos sociais de combate às opressões. Pessoas bem intencionadas, que não percebem que esses termos, muitas vezes, legitimam as opressões que combatem. Mulheres em situação de vulnerabilidade que lutam para se manter de pé não querem representar ninguém. Querem sossego. Querem aconchego. Querem uma vida que seja mais fácil de viver, sem precisar lutar tanto, mas tanto, só para seguir vivendo.

Uma mãe que perdeu seu filho num tiroteio abdicaria fácil do "título" de guerreira, em troca da vida do filho.

Uma mulher que apanhou do marido trocaria o "rótulo" de mulherão da porra por um relacionamento saudável, afetuoso e onde ela se sentisse segura.

Mulheres negras. Ah, mulheres negras só queriam viver em paz, sem precisar pautar o racismo a toda hora. Queriam mesmo é que não houvesse racismo. Crianças só querem ser crianças...

A vida não é fácil. Para ninguém. Mas fica mais difícil quando expectativas são jogadas sobre os ombros umas das outras. Afinal, mulheres fortes também querem colo, também choram, também cometem erros, podem ser inclusive chatas e insuportáveis em diversos momentos, como todo ser humano.

Que tal trocar os títulos pelo acolhimento e pelo aconchego? Que tal refletir sobre o peso desses títulos? É preciso desconstruir. Talvez seja incômodo e doloroso, mas é preciso!

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