Minha mãe é gorda

1956

Eu tenho muitas recordações da infância relacionadas ao fato de eu ser uma criança gorda e da minha mãe ser uma mulher gorda. Se não bastassem os apelidos e piadinhas que eu escutava diariamente sobre o meu corpo infantil, que nunca foi magro, eu escutava com frequência piadinhas sobre a minha mãe. Isso, obviamente, me incomodava tanto quanto os comentários dirigidos a mim.

Eu sempre tive essa lembrança que ser gorda era um dos pontos altos de zoação das crianças da escola. Com uma filha magra, eu imaginava que ia chegar o dia que a gordura da mãe (a pessoa que vos escreve) iria ser motivo de constrangimento para ela. Inclusive, em minhas inúmeras tentativas de emagrecer, esse sempre foi um dos motivos da minha lista TOP 5.

Fora essa situação específica com minhas filhas, eu já ouvi vários comentários de outras crianças sobre o fato de ser gorda. A grande questão que quando eu escutei esses questionamentos, a gordura era um tabu. Ser gorda era algo da qual eu me envergonhava então, nunca soube como lidar com a aversão ao corpo que surge desde cedo nas crianças. Aversão essa que começa em ver as pessoas queridas odiando seu próprio corpo e fazendo dietas malucas, que começa na falta de representatividade nos desenhos, na TV e nos brinquedos. Quando finalmente há um personagem gordo, ele sempre é apresentado de forma caricata.

Meu papo com a minha filha sobre gordos já começou há uns dois anos e tem evoluído junto com empoderamento que vai me fortalecendo. Até que chegou o dia que eu sabia que seria inevitável: o comentário que sua mãe era gorda. Mesmo com todo o processo de aceitação que eu venho buscando e do enriquecimento que sim, corpos são diferentes, é um baque ver a filha com medo de entristecer você porque as amigas chamaram a mãe de gorda logo depois que a conheceram.

Eu soube no fim do dia, quando estávamos deitadas juntas na cama, ela disse que duas coleguinhas falaram que a mãe dela era gorda. Não houve piadas, só o apontamento e acreditem, meus amigos, uma sugestão de entrar numa academia (você imagina como isso surge na cabeça de uma menina de 6 anos? Dá pra imaginar, certo?). Nossa conversa girou no fato que sim, sua mãe é gorda, minha filha. Como é difícil tirar toda a carga negativa que por anos as pessoas colocam na palavra gorda! Discutimos sobre a diferença dos corpos, sobre como as pessoas são diferentes uma das outras e como ser gordo não reduz ou incapacita uma pessoa.

Conversamos sobre emagrecer, sobre escolhas, sobre as habilidades da pessoa gorda. Finalizamos sobre como era importante respeitar o próximo e as diferenças. As crianças precisam cada vez mais ouvir sobre as diferenças e sobre respeito, em especial em um momento em que no mundo cresce o ódio gratuito ao outro. Ela que começou o papo com “Mãe, quero te falar uma coisa mas não quero que você fique triste”, adormeceu com a certeza (pelo menos por hoje) que gorda não é palavrão e que cada corpo, indiferente do seu formato, é capaz de fazer e viver maravilhas. E eu? Sai fortalecida, agraciada e feliz como se tivesse feito as pazes com a menina que eu fui.

Tags feminismo empoderamento gordofobia representatividade educação respeito
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Marcela Brazao

Marcela Brazao
Farmacêutica apaixonada pelas letras. Feminista, 33 anos, mãe solo da Maria Eduarda e da Juliana, que acredita que viver é uma evolução. Uma mulher que se redescobriu após a maternidade e que escreve para desabafar, refletir e divertir ou sempre que as palavras brotam na cabeça e no coração.

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