Meu primeiro filho pós aborto

1956

O cenário era a rua e na foto uma mulher jovem e grávida segurava um cartaz pró aborto. Pronto. A imagem virou post indignado em redes sociais. Era impossível aceitar que alguém, gerando, pudesse ser a favor do aborto. Mas ser a favor da descriminalização do aborto não é, de forma alguma, banaliza -lo. Até porque é difícil passar por um aborto sem baques emocionais. A luta não é pela banalização, mas pelo direito de mulheres, de todas as classes sociais, terem em suas mãos as rédeas de suas vidas, acolhidas por um sistema laico e digno, para bancarem suas escolhas. Porque, sabemos, o ônus é quase que exclusivamente materno.


Meu primeiro filho nasceu ano passado, de gestação deliciosa num corpo e alma, por fim, muito bem resolvidos. Foi minha segunda gestão, mas a primeira que desejei. Meu aborto (um, único) fiz aos recém completos 20 anos quando a ideia de abrir mão de todos os meus sonhos e dúvidas para arcar com a responsabilidade de ser tutora de alguém em tempo integral nem passava pela minha cabeça. Minha primeira gravidez foi, desde o positivo, certeza de aborto: eu amava meu então companheiro, sabia que um dia seria mãe, mas aquele não era o momento. E foi tudo muito rápido. Não frio: rápido. A prioridade de minha vida seria eu mesma.


Em um consultório muito bem decorado num bairro nobre da maior metrópole do Brasil, o médico (homem, branco arrogante) me examinou e marcou a data da cirurgia, que seria paga in cash. Toda a economia de meus três primeiros anos de trabalho e a garantia, importante pontuar, exclusiva da elite, de que o procedimento não traria nenhum dano a meu corpo nem ao meu psicológico: uma picada e quando eu acordasse já estaria tudo resolvido. Mas está muito longe de ser esse o cenário para as mais de 850 mil conterrâneas que abortam em nosso país tropical a cada ano. E ainda assim, de alguma forma ou de outra, a discussão sobre a legalização do aborto no Brasil esbarra em ideologias conservadoras e fundamentalistas, em projetos de leis propostos por (claro!) homens.




O iminente referendo sobre aborto, a ser votado ainda em 2018 na Irlanda, traz novamente à tona a discussão e as redes sociais e novas formas de economia já aparecem como pontos de luz no processo. Como a campanha #HometoVote, ainda na Irlanda, que convoca irlandeses que residem em outros países da Europa e do mundo, a voltarem à terra natal só para votarem, junto com plataformas de financiamento coletivo, na qual ativistas se comprometem a ajudar no pagamento de passagens. Assim como a iniciativa de ONGs como a Women on Web que enviam, por correios ou drones, muitas vezes sem custos, pílulas para mulheres que precisam fazer abortos em áreas proibidas. Porque tem isso também: apesar das indicações da OMS (Organização Mundial da Saúde) abortos não cirúrgicos (viabilizados por pílulas, por exemplo) permanecem ilegais na maioria dos países, apesar de comprovadamente eficazes. E informações, inclusive sobre avanços da indústria farmacêutica nesse âmbito, são limitadas por tabus quase que medievais, quando o corpo da mulher é tão pouco considerado quanto o processo complexo (e, digamos, duradouro) que prossegue à gestação e o parto: a criação de um ser. Enquanto todos os processos forem relativizados empacaremos, com receio de nos posicionar ou com culpa, sempre ela, ao contarmos que, sim, já passamos por um aborto.


* A imagem que ilustra este texto é da artista argentina Miru Brugmann. A Argentina já apresenta o projeto de lei pela legalização do aborto pela sétima vez e em 2018 é a primeira vez que entra no congresso e finalmente entra em debate. O lenço usado na ilustração na cor verde, é um símbolo de luta e resistência inspirado no lenço branco usado pelas Mães da Plaza de Mayo, grupo de mulheres que se reúnem na Praça de Maio em Buenos Aires, para exigirem notícias de seus filhos desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina.

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Carolina Sciotti

Carolina Sciotti
Sudaca ítalo libanesa linha de frente. Paulistana de nascença, moro numa vila de pescadores do Ceará, onde trabalho pra cacete, faço topless sempre que posso e crio o Gaspar.

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