Me deixa gozar

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Antes do meu filho nascer eu estava numa levada sexual sensacional. Eu e meu parceiro estávamos numa vibe “o céu é o limite”. Daí, nasceu meu primogênito, uma pérola, o serzinho mais precioso e delicado que eu jamais tinha visto e sentido e o que aconteceu? Eu comecei a me reprimir em relação às posições, em relação aos sons, em relação a um monte de coisas. Foi um período curto, mas isso aconteceu e eu fiquei com uma pergunta pulsando em mim “será que isso acontece (em outros níveis e qualidades) com outras mulheres também?”


No puerpério da segunda gestação a coisa foi ainda mais intensa. Eu não tinha vontade nem de tirar a calçola pós-parto. Transei pouquíssimas vezes antes do meu ciclo voltar ao normal porque era satisfação garantida, mas a energia libidinal não estava nem perto de onde eu gostaria. Então, depois dessa eu resolvi entender onde está, onde começa e onde termina toda essa repressão interna. Porque uma coisa era clara pra mim: por mais livre que eu fosse, existia uma força maior que me reprimia e eu estava decidida a me encontrar com ela e entender porque ela estava ali.


A gestação é para muitas mulheres um momento de êxtase, plenitude e libertação, mas também tem a capacidade de nos levar a lugares escuros e opressores. Quando exibimos nossas barrigas nos libertamos do peso social da virgindade. Nossas barrigas são a prova viva de que SIM, NÓS TRANSAMOS e essa dúvida já não existe mais para o nosso pai, para o nosso tio, para essa sociedade patriarcal.


Não somos mais virgens. Acontece que isso se perde quando somos inundadas por essa imagem arquetípica linda e encantada: A Virgem Maria. Aquela que é mãe, que tem barriga, que teoricamente não transou com o José (ahã, sei...). Que continua virgem e pura. E que carrega em seu ventre o ser mais iluminado, o divisor de águas do mundo ocidental. A coisa é tão forte que alguns parceirxs deixam de nos desejar (ou simplesmente mudam esse desejo de lugar), porque a virgem-pura-mãe está carregando a pequena luz em seu ventre e sentir tesão por isso é um pecado mortal. E nós vestimos o manto sagrado. A força dessa imagem arquetípica nos come pelas beiradas, perdemos o rumo, o prumo. A gente se perde de nós mesmas. Mas onde (e quando) será que tudo isso começou? 


Toda criança gosta de se aventurar, explorar, experimentar, descobrir. Crianças falam alto, iniciam conversas espontaneamente no meio da padaria, no meio da fila do banco, dançam enquanto o sinal está fechado, perguntam perguntas difíceis de responder, falam sem parar. Crianças ainda não vestiram o sobretudo da censura. E é aí que a coisa pega para nós mulheres... Foi aí que tudo começou. Quando a gente perguntou e mandaram a gente parar de perguntar, quando a gente dançou e mandaram a gente sentar, quando a gente levantou o vestido, subiu na árvore, mostrou a calcinha, quis tirar a blusa no calor, mas não deixaram porque os peitos iam ficar de fora? Foi quando a gente se tocou, sentiu nossas vaginas e viu que ali era bom, e levamos uma bronca que nos envergonhou a ponto de prometermos internamente nunca mais tocar ali. Sentimos vergonha de sentir prazer. Essa é a censura mais poderosa que pode existir. Sentir vergonha é a maior extinção de comportamento, a que mais funciona. E a vergonha vem sempre com uma sensação de estarmos sendo observadas. E foi isso que fizeram e fazem com a gente. 


Fizeram com que sentíssemos vergonha dos nossos impulsos, da nossa energia libidinal, do nosso prazer, das nossas conquistas. Estamos sempre na mira, tá todo mundo na nossa cola, olhando a dança, o canto, o toque, o gemido. Precisamos libertar essa menina. Precisamos deixar ela crescer e se tocar sem medo. Precisamos e queremos nos inundar dessa força orgásmica interna. Nós estamos no foco, então que usemos o foco a nosso favor e nos libertemos de toda essa vergonha que nos foi plantada sem nossa permissão.

Tags feminismo empoderamento sexo maternidade
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Luiza Miguel G

Luiza Miguel G
Atriz, psicóloga e doula. Mãe do Joaquim e da Anabel. Aquariana com áries e lua em escorpião. Tenho a capacidade de te mandar pra merda e chorar o abandono que eu mesma provoquei num intervalo de 30 segundos

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