Maternidade e Depressão

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"Mamãe, leiteeee"

E agora que não tem leite? Nem em pó nem de caixinha? Que que eu faço?

Culpa.

Culpa culpa culpa.

"Eu devia ter visto isso antes, minha filha não deveria passar por isso, eu sou um fracasso." - pensei

Mais um dia em que ela me venceu: a depressão. A casa, um caos. A mente, mais ainda. Mal conseguia levantar da cama, choro o dia inteiro. Tristeza profunda, sentimento de inutilidade, insuficiência, de ser um peso, um fardo. 

"Ela merecia uma mãe melhor que eu, não consigo nem me cuidar." - isso ecoava na minha cabeça a cada 5 minutos.

Não consegui comer o dia inteiro, só de pensar em comer já me dava ânsia de vômito. Nessas horas o físico sempre responde pelo psicológico. Café café café, vários cigarros. Choro.

Pensei tanta coisa, pensei em sumir, em morrer, em dar a guarda dela pra avó, e ainda me senti egoísta por pensar que não conseguiria ficar longe dela, mas que deveria pois sou uma pessoa tóxica.  Lidar com a depressão tendo que se cuidar é muito difícil, imagine tendo que cuidar de um pequeno ser humano que depende de você pra tudo? É pesado. Dolorido. Ás vezes eu acho que não vou aguentar de verdade. 

Desde os 15 anos esse diagnóstico me acompanha, e por um tempo eu achei que poderia lidar com isso sozinha, sem acompanhamento nem tratamento algum. No momento ando pesquisando acompanhamento psicológico, depois de muito negar que precisava, depois de muitas pessoas queridas me dizerem que era melhor, depois de muito murro em ponta de faca. Melhorava, tava ótima, desmoronava, toda a evolução caía por terra. Voltava pro início do processo, remando contra a maré novamente, e quando eu finalmente conseguia me posicionar a favor da maré, levava um caixote daqueles. Me afogava em mágoas, tristezas, culpas. Um sentimento de que nunca nada daria certo, nunca melhoraria, parecia que eu iria estar sempre naquele ciclo infinito de estar razoavelmente bem e, num sopro, estar consideravelmente mal. 

Eu olhava a bagunça da minha casa e via o reflexo de como minha mente estava, e ao mesmo tempo que aquilo me incomodava eu não conseguia fazer nada a respeito. Chorava de novo. Chorava mais. Em algum momento, em meio aos vídeos da galinha pintadinha, minha filha reparou nas lágrimas, me abraçou e disse "para com isso, mamãe".

Não vou dizer que melhorei logo após isso, pq depressão não se esconde como por mágica, mas algo de bom acendeu naquele momento. Ainda chorei bastante, mas fui tentando me recompor. Peguei uma roupa no chão ali, guardei um sapato jogado do outro lado, e pelo menos um pouco daquele caos se desfez. O caos da minha cabeça também apaziguou, incrível como uma coisa reflete na outra. 

Ás vezes parece não ter saída, ás vezes parece que vai te engolir, mas uma hora ameniza, eu juro que ameniza!

Não passa, mas você consegue pelo menos pensar "bem, talvez eu mereça estar viva mesmo".

Depois de amenizar a bagunça da minha casa e a bagunça da minha mente, eu consigo olhar pra minha filha e pensar novamente que a gente se merece, ela merece sim me ter ao lado dela, e eu mereço a ter comigo também. São apenas altos e baixos, sabe? Mas em algum momento melhora. 

Você, mãe, que tem algum transtorno psicológico: não se culpe se as vezes você achar que não está apta pra lidar com o peso da maternidade, você só precisa de acolhimento. Eu sei que pesa, eu sei que dói, mas as vezes nosso maior fantasma é a nossa própria consciência, e ela minha amiga, é cruel. Tente, ao menos tente, não se deixar vencer por ela. 

Toda força pra nós!


Tags Saúde Relatos
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Lo Res

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Lorena, 22 anos. Preta, mãe e sapatão. Sou autônoma e escrevo nas horas vagas. Sobrevivendo ao caos desse mundo estranho, na missão de criar um ser humano que faça diferença.

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