Mais que um sobrenome e um post do Instagram

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Wellington tomou um tombaço de bike e eu tô com uma lesão séria no braço. Ambos lesionados, ele tem assumido cem por cento das funções que envolvem esforço em casa porque ele pode tomar anti inflamatório e eu não. Ele chama isso de bom senso e eu não pedi por isso, foi proposta dele no meio da emergência. Eu sei que ele tá sentindo muita dor mas disfarça a cara e faz tudo rindo pra eu não me apavorar. De noite antes de dormir eu vejo ele catando remédio pra dor sem me falar nada - quando eu flagro ele faz piada sobre a inveja que eu devo sentir de poder tomar um dorflex.

Hoje ele foi amarrar o Victor no pano pra eles saírem e, quando ele mostrou o wrap, o Victor dançou e falou "ÊEEEEE", gargalhando, e eu vi que naqueles segundos que rolou isso esse homem ganhou o mundo.

Tem pai que diz que não coloca filho pra dormir porque não tem teta, que não dá banho porque chegou cansado do trabalho, tem pai que não dá o jantar falando que não sabe o que o filho come, tem pai que não sabe trocar uma fralda, que não sabe nem onde fica a pediatra. 

Tem mulher exausta, tem mulher falando em divórcio em grupo de mãe o tempo todo porque tirar o marido que não ajuda de casa é ter um a menos pra cuidar na vida, tem mulher ficando literalmente doente porque o acúmulo é demais e vai bem além do suportável.

Ontem eu li um cara falando que pra ter Rodrigo Hilbert em casa tem que ter reciprocidade e ser uma Fernanda Lima, o que quer que isso signifique, e alegando que as mulheres hoje em dia tão oferecendo muito pouco, que os caras ficam até desmotivados a tentar ser mais empenhados em casa e com a família. Casa DELES, filhos DELES, família DELES, mas nós temos que ser mais Fernanda Lima e motivar homens adultos a cumprirem suas responsabilidades com o que deveria ser seu maior tesouro ou sobrará tudo pra nós porque não temos sido parceiras.

Eu tenho plena consciência que o que eu tenho em casa é sorte quando vivemos na sociedade em que vivemos, mas não porque o Malk vá além do que é justo e certo (ele não vai). Temos um relacionamento muito bacana porque aprendemos a construir sobre o diálogo, porque eu tenho espaço pra falar onde o calo dói e ele também, porque ambos aqui temos voz, acertos, combinados e nos vemos como igualmente valiosos pras vidas uns dos outros e das crianças. Mas principalmente porque a gente conseguiu acertar um ponto em que eu não preciso implorar, atualmente eu não tenho precisado nem pedir. Eu não sou mãe do meu marido.

Acho importante dizer que nem sempre foi assim, socialização existe e é uma caminhada. Mas acho importante saber que um cara que escolhe ser diferente disso, tendo a informação que temos hoje, que escolhe chegar em casa e ver os filhos saindo de controle, a casa saindo de controle e uma mulher que ele diz amar completamente exausta e não para pra se questionar... Esse cara está escolhendo a infelicidade do grupo de pessoas que ele diz serem mais importantes no mundo pra ele, isso pra mim é falta de caráter.

O Malk não sabia lavar louça quando casamos mas ele soube aprender a fazer isso assim como eu também não nasci sabendo. Sabíamos cuidar de um bebê um tanto quanto o outro e aprendemos juntos.

Nosso conceito de equidade envolve refletir sobre bom senso em situações extremas como estando os dois machucados - ele sabe que com dor eu não cuidarei bem das crianças e que eu tomar remédios faz mal pra elas então aguenta o tranco a mais por elas. Não é por mim, é pelo Victor e pela Amélia, é por esse negócio de ser família no qual somos sócios e parceiros, é pra que isso gere os melhores resultados. A minha sorte não é porque eu tenho algo a mais, porque eu tenho uma vida mais leve, mas exclusivamente relacionada ao fato de que eu poderia ter casado com um merda pra quem eu teria que explicar até desistir e divórcio parecer a única escolha suportável. 

Mas não consigo deixar de pensar: você, cara, que não faz nenhuma questão de se conectar com seu filho, quantas vezes o fato de saber que vai passar um tempo sozinho com você fez seu filho dançar de felicidade em vez de chorar de medo de ficar longe da mamãe? 

Eu vejo tanto homem falando em alienação parental e em mulher que não deixa chegar perto do filho... quando você tenta se aproximar do seu filho é pra colher ou pra plantar? Qual parte da educação e cuidado tá lhe cabendo? Como você tem tentado criar essa conexão?

Melhorem. 
É mais que um sobrenome, é bem mais que uma foto na carteira e um post no Instagram. E hoje percebi que estamos exaustas e gritando mas não é só por nós: é pelas crianças. 

Filho precisa de dois pra fazer e de pelo menos dois pra criar ou fica realmente muito difícil dar certo. Um salve pras mães que passam essa batalha sozinha pois, ao contrário do que eles tem, no nosso caso nunca é escolha. É a tal da sorte, né? >> Este texto foi publicado anteriormente no perfil pessoal da autora.

Tags maternidade-real relatos paternidade abandono
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Debora Camargo

Debora Camargo
Redatora web freelancer viciada em escrever, fotografar e compartilhar o que vê pelo mundo.

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