Mãe como significante

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Eu não acredito na família nuclear burguesa. Eu não acredito em casamento. Eu não acredito na mãe nem no pai. Eu não acredito nem no homem e na mulher. Fui vivendo a minha vida assim, desconstruindo com dor, a realidade desse mundo, para conseguir enfim entender que tudo é construção mesmo e poder construir assim a minha vida possível frente às certezas do incerto.


Quando me vi num relacionamento monogâmico, heterossexual, que os outros forçosamente chamavam de casamento simplesmente pelo fato de morarmos juntos, já me causava uma estranheza. Logo depois fiquei grávida, e fui atrás do “parto humanizado” para sentir realmente do que se tratava aquela gestação, aquela vida que nascia de mim, sentir isso que há de mais humano em nós. Nasceu menina. Nasceu da minha dor. Em seguida, é claro, como em instantes, veio o amor.


Fui entendendo que a vida dela realmente precisava da minha. Era comigo, justamente porque eu já sabia de tudo isso que não está lá, que era comigo que ela iria construir alguma coisa. E os outros foram me chamando de mãe, também de “restaurante”, também de louca puérpera, também de forte, também de guerreira, também de boa cuidadora, boa criadora, também de “mãe é mãe”, “só as mães sabem”, sabem o que mesmo? Eu tinha muita clareza de que nada nunca soube e nada sabia. Estava e ainda estou ali construindo uma vida, sem saber, justamente no incerto da construção.


Não sou mãe, não sei o que é ser mãe. Sou Alejandra, a minha filha é Maitê, ela já é ela, construímos juntas, amparei seu desamparo para surgir dali a pureza do próprio devir.

Não vou engolir essa cachaça de graça. Não engulo o significante mãe. Não engulo qualquer significante que tente dizer. Quero e preciso criar daquele buraco onde não há nada. No nascimento, o berro. E é tudo à partir dali.


Tags maternidade-real feminismo empoderamento
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Não me chamo Mãe

Não me chamo Mãe
O conteúdo do Não me chamo Mãe é feito coletivamente juntando um pedacinho da vivência de cada uma de nós, os gritos engasgados, as ideias borbulhantes e o amor desenfreado.

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