Lugar de mãe é na balada

1968

foto: Gataria Photography

Uma das coisas que eu renovei na minha vida após minha separação foram as saídas, as idas para as baladas. O encontro com os amigos, o vestido colado, o rebolar até o chão, a música alta e as risadas, sim, muitas risadas. Descobrir que apesar de sempre me enquadrarem no perfil “caseira”, esses momentos são muito do que eu sou, sempre fui, e que gostaria de continuar sendo no futuro.

Parte do meu processo de reconstrução, parte da minha vivência em primeira e única pessoa envolve em conhecer novos amigos, frequentar lugares novos. Parte de descobrir que eu posso ser o que desejar. Viver tudo isso mais madura, mãe, é parte do meu empoderamento diário.

Cada vez que eu saio a noite sendo só eu, Marcela, é mais uma vitória. É mais um dia que o pai está exercendo mais plenamente sua paternidade, é mais um dia de conexão pai e filhas, é mais um ensino que mulheres mães precisam ser verdadeiramente livres para escolher seus caminhos, é mais uma confirmação que eu sou muito mais que MÃE. Na pista, eu não sou “mãezinha”, não sou “ a mãe da fulana”, não sou “ aquela mãe solteira do segundo andar”.

Minha filha me questionou recentemente que eu estava muito festeira. Sim, é uma mudança e tanto para ela também. Além disso, que outra mãe que ela conhece está saindo, está dançando? Várias das minhas conversas com ela atualmente são sobre ser “dona de si”, decidir nosso próprio caminho, nossos próprios gostos. Explicar a ela que nós podemos sim, tudo que desejarmos. Que mamãe não é nem heroína e nem santa. Que é bom ser festeira, que é bom ter amigos, que é bom se divertir.

Parte da minha fala tem mostrado aos amigos, uma mulher que vai muito além do ser mãe. Uma mulher que fala sacanagem, que vai pra rua, que faz piada, que não está aceitando ser enquadrada numa caixinha. Pelo contrário, lembra daquela serpente que sai do baú com o toque da música? Eu só comecei minha dança rebolativa para fora daquele baú. As perguntas de como você faz com as crianças ou aonde estão as crianças, eu abomino. Quantos pais são questionados sobre com quem está seus filhos quando passa o dia na rua? Quantos pais são questionados se ele não precisa voltar para casa para dar janta, colocar pra dormir? Quantos pais perdem uma saída com amigos porque o filho está com febre? Um dia eu vou olhar no bolso da calça para ver se as limitações que querem nos impor como mãe estão perdidas por lá, bem no fundo.

Deixem as mães em paz! Mães são mulheres que merecem brindar, paquerar, rir, dançar, cantar, falar besteira. É de pequena que a gente ensina as filhas que lugar de mãe é no trabalho, é na escola, é em casa, é na rua, é na balada, é aonde ela quiser. Os rótulos que nos enfiam pela garganta, a gente joga no lixo e desfaz porque o bonito da vida é descobrir que muitas coisas te completam, que mais coisas ainda te empoderam. A gente pode ser uma hoje e outra amanhã porque está faltando muito para quem tentar nos definir.

Tags feminismo empoderamento maternidade
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Marcela Brazao

Marcela Brazao
Farmacêutica apaixonada pelas letras. Feminista, 33 anos, mãe solo da Maria Eduarda e da Juliana, que acredita que viver é uma evolução. Uma mulher que se redescobriu após a maternidade e que escreve para desabafar, refletir e divertir ou sempre que as palavras brotam na cabeça e no coração.

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