Livre demanda: "livre" pra quem?

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Calma. Primeiro preciso deixar uma coisa clara pra quem só vai ler o primeiro parágrafo: sou a favor da livre demanda sim, até certo ponto. Meu filho mamou Leite Materno em Livre Demanda até 1 ano e 7 meses e foi ok pra mim, foi a nossa escolha. Acredito eu que não faria diferente. Porém, a maternidade é uma coisa que revira você inteira né?! Foi só eu piscar que já me vi em 345 grupos de mulheres-mães que debatem diariamente, fervorosamente, sobre como fazer pra sobreviver, quer dizer, pra criar às crias. Nesse mundo, me deparei diversas vezes com as seguintes descrições: “Fulana mama tanto que está sugando todas as minhas energias (1ano)”, “Cicrano não consegue ficar longe de mim por 2 minutos que grita de desespero, com 2 anos, porque não consegue ficar longe do mamá”, “não consigo vale-night há 3 anos porque a cria só dorme com peito”. Claro, são afirmações genéricas. Claro, existe um contexto muito maior para além da amamentação. Claro, isso pode acontecer com crianças que nem mamam no peito, só tô usando da questão da amamentação porque é o que me marca mais no meio que eu vivo.

Minha questão é: somos tão ativista contra a causa da criação de “bebês robôs”, cheios de regras rígidas que não levam em conta a singularidade das crias, que acabamos criando um radicalismo contrário, que também não leva em conta às nossas singularidades. Ser mãe é sacrificante? É. Dá um trabalho da porra? Dá. Seja a forma que você optar por seguir. Meu ponto é que não precisamos chegar no fundo do poço pra jogar eles lá em cima. A gente importa também, e muito.

Não estou dizendo que todas às mulheres do mundo tem que querer um vale-night pra ir pra boate, pra uma festa de arromba. Entendo que nem todas curtam isso e outras que necessitam de outros tipos de pausa. Mas ter um tempo pra si é essencial para a sanidade de qualquer uma. Lembrar o que te faz bem, além das crias, é providencial. Seja ir no cinema, tomar um longo banho e deitar na cama pra ler um livro ou fazer uma maratona de bares com a galera. Nossa felicidade não pode se resumir às crias, não é justo nem com eles nem com a gente. É muita pressão em cima de seres humaninhos tão pequenos. Dessa forma acabamos descontando toda nossa frustração neles também.

A minha percepção é que a livre demanda acaba nos “aprisionando” a eles. Acabamos sem conseguir fazer as coisas sozinhas porque acreditamos que eles não vão conseguir ficar sem a gente, sem o peito. Acabamos atrelando tudo possível ao mamá e, de certa forma, eles não conseguem ficar sem mesmo. Caiu? Mamá pra acalmar. Recebeu um “não”? Mamá. Fome? Mamá. Sede? Mamá. O mamá é isso tudo mesmo, tem essa potência de fazer tudo isso. É alimento, é água, é remédio, é aconchego e é calmante. Mas a partir do momento em que vira a única saída, acabamos sendo a única possibilidade de resposta para as pequenas crises das crias. E isso minha gente, não dá.

Existem os recém-nascidos, existem os bebês pequenos, e esses EU ACHO que precisam das mães mesmo mais tempo, rola um chorinho ali que não tem jeito. Mas precisamos aprender a nos desapegar, gradualmente, dessa dependência absoluta. Por eles e por nós.

O choro é a única possibilidade de comunicação do bebê e às vezes, precisamos conseguir sustentá-lo. Temos que entender que outras pessoas também querem (graças a deusa!) ser referência para as nossas crias, e precisamos permití-las, nem que isso renda uns minutos a mais de choro. Se meu filho tá chorando porque caiu e quer a mamãe, eu também tenho que entender (e fugir do raio de visão dele) que ele está com a vovó e que ela também é capaz de acalentá-lo.

E é lindo demais vê-lo confiando em outras pessoas, é tão importante. Porque além de ajudar no processo de desenvolvimento dele, ajuda no meu, porque me permite ir cada vez mais longe. Tendo a certeza de que quando eu voltar ele vai estar bem acolhido. E eu também. E vai chegar o dia que eu vou botar a bolsa e ele vai dizer “Tchau, mamãe”, e vai ficar feliz mesmo estando sem mim. E isso é libertador.

Tags maternidade-real amamentação empoderamento feminismo relatos
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Nicole Meireles

Nicole Meireles
Psicóloga, dançarina de rua e mãe do Tom. O que me move são os encontros das pessoas, dxs amigxs e da família. Do meu corpo com o corpo dx outrx. Do carinho, do amor e do afago. Da música, da fala e da praça. Do lar e do bar.

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