Gente é como nuvem

2014

A gravidez é um processo. Gradativo. O parto é um ápice, uma explosão, um momento lindo e magnânimo (ou não). Mas e depois? Não queria falar aqui do que fazemos com aquela pequena criaturinha que acabou de nascer porque não é esse o objetivo. Queria aqui falar de nós, as mães. Voltamos nossa atenção toda pra esse pequeno ser que nasceu e nós, pra onde vamos? 

Winnicott diz que existe um primeiro momento da mãe que ela entra - nos casos em que está saudável - em um estado que poderia se comparar a uma psicose: as mães desenvolvem uma capacidade de identificação com o bebê que lhes possibilita satisfazer suas necessidades básicas, de uma forma que nenhuma outra pessoa pode supor, nem ensinar. Nesse olhar para o bebê esquecemos de olhar pra gente, que somos também tão importantes. Nosso corpo e nossos órgãos estão voltando para o lugar. Mas que retorno é esse? 

Esse corpo nunca mais será o mesmo, por ali passou uma vida, literalmente. Este é um corpo que carrega um bebê o dia inteiro pra cima e pra baixo. É um corpo que - na maioria dos casos, não dorme. Não descansa. Alimenta mas não tem tempo de se alimentar. É um corpo de mil e uma funções. E assim será, se tudo der certo, pra sempre.  As crias vão mudando suas demandas, vão se tornando mais independentes, gradativamente, e vamos assim mudando nossas funções. Mas elas nunca deixarão de existir. Minha mãe inclusive é a prova viva disso, que está lá agora exercendo sua mais nova função: a de ser avó.

Como já diria Heráclito, ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio. O rio muda, a gente muda. Tanta coisa acontece no corpo da mulher. Nada mais justo dele não ser mais o mesmo. 

Não queria entrar aqui tampouco em questões estéticas. Sei que elas existem e também devemos lhe dar o devido valor (quando requisitadas) mas gostaria de falar sobre uma transformação muito mais profunda, que é de dentro pra fora.

Alguns meses depois do nascimento do meu filho encontrei um grupo de amigas para ensaiarmos para um evento no qual íamos nos apresentar. Não sou dançarina profissional, graduada, nem nada disso, sou só alguém que sempre gostou muito de dançar e num dado momento, fui chamada para fazer parte desse grupo. Acontece que não foi tão fácil quanto parecia. Pra começar, eu não tinha com quem deixar a cria e ele teve que me acompanhar em todos os ensaios. Porém existe uma pequena diferença entre dançar sozinha e dançar com uma criança. Chegado o dia do show, consegui finalmente ensaiar sozinha. Foi um desastre. Sai da passagem de som aos prantos porque eu simplesmente não conseguia acompanhar a coreografia. Eu falava pro meu corpo fazer X e ele fazia Y. Simples assim. Culpei a mim pelo erro, acreditei que aquilo estava acontecendo pela falta de ensaios. Voltei, participei do show. Foi tudo lindo, mas alguma coisa estava errada.

Pouco depois eu encontrei um novo espaço que eu pudesse pensar sobre meu corpo. Na primeira aula eu já pude perceber qual era a minha grande questão. Eu não me movia mais da mesma forma. O meu corpo não se movia mais da mesma forma. Minha postura não é mais a mesma. As minhas dores mudaram. Minha fala mudou. Tudo mudou. De dentro, pra fora. Todas as grandes transformações mudam a gente e não seria a maternidade uma das maiores? Aquela remexida de aumentar útero/diminuir útero, gerar vida/cuidar da vida, muda tudo

Não é uma tarefa fácil conhecer esse novo corpo, conhecer suas novas necessidades. Ele aparece pra você assim, do nada, sem você nem perceber. Você não percebe porque está com outro foco, com os olhos voltados para um outro corpo. Provavelmente sem tempo de tomar um banho direito ou de olhar no espelho. Porém, quando você menos espera, ele surge. Te escancara a porta e diz “Oi, eu tô aqui também”. E é aí que a gente tem que correr atrás dele, pra não dar TILT. Como podemos sustentar uma pequena vida se não conseguimos sustentar a nós mesmas?