Fui realizar meu sonho e não levei minha filha na mochila

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O quanto dói abrir mão de um pedaço de você pra estar bem? Venho pensando nisso nas últimas 3 semanas em específico. Explico: deixei minha filha com a avó, no Rio de Janeiro, afim de vir pra São Paulo arrumar um trampo melhor, melhorar de vida, evoluir, melhorar psicologicamente, quiçá voltar a estudar e realizar meu sonho do curso de produção cultural. Nessas 3 semanas, não tem um dia em que eu não chore com saudades da minha filha, e embora minha família e muita gente (que mal me conhece a fundo) esteja me julgando horrores por isso, eu tenho total consciência de que, no momento, buscar essa mudança na minha vida tem sido importante não só pra mim, mas pra ela também, mesmo que posteriormente.

A culpa me consome diariamente, mesmo sabendo que ficar estagnada onde eu estava não me traria retorno nunca. A culpa vive me rondando mesmo sabendo que seria inviável trazê-la comigo num primeiro momento, pois vim sem estabilidade alguma, procurando recomeçar mesmo. Mesmo sabendo que ela está em segurança, bem cuidada, feliz, eu sinto culpa. Eu sentia culpa de não estar sendo o melhor pra ela, e eu sinto culpa por ter, temporariamente, aberto mão do convívio com ela a fim de melhorar em vários âmbitos da vida e, finalmente, poder ser o melhor que posso pra ela. Eu sinto medo dela me esquecer, medo do quanto vai demorar pra essa estabilidade chegar e eu finalmente poder trazê-la pra perto, medo de tanta coisa...Mas o fato é que cada escolha é uma renúncia, e eu tive que abdicar dessa convivência diária com a minha filha pra buscar novos horizontes que, no futuro, vão ser bem mais bonitos pra nós.

Essa culpa, minhas amigas, só acomete nós, mães. Porque quando um pai resolve ir atrás de crescer profissionalmente e pessoalmente ele está - e sempre estará - isento de pessoas apontando o dedo por ele ter abdicado do tempo em família. Eu, ao contrário, recebo mensagens carinhosas em redes sociais anônimas me xingando de f*lha da p*ta pra baixo, por ter tomado a difícil decisão de correr atrás de melhorias pra minha vida. Minha família nem tem falado muito comigo, aliás.

Eu me tornei egoísta por, vejam só, querer melhoras as coisas, mesmo que o preço disso seja estar temporariamente distante da cria.
Sinto culpa, sinto medo, sinto saudades, mas pra além disso eu sinto muito forte que um dia vai ter valido à pena. E é por isso que eu ainda to aqui, firme e forte. E é por essas e outras que mães passam a vida toda se anulando, por que quando resolvem se priorizar, mesmo quando isso significar melhorias pra vida da criança também, como no meu caso, são vistas como as piores pessoas do mundo.

Breaking news: não somos. Tá tudo bem.

Tags maternidade-real relatos viagem cobrança família machismo
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Lo Res

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Lorena, 22 anos. Preta, mãe e sapatão. Sou autônoma e escrevo nas horas vagas. Sobrevivendo ao caos desse mundo estranho, na missão de criar um ser humano que faça diferença.

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