Expectativa x Realidade

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Foto: Dudu Mafra e  Clarisse Lissovsky

eu me considero um exemplo vivo de quem levou um estabaco da maternidade real.
antes de parir, acreditava que ia ter um parto natural orgásmico lindo, em casa e fluindo perfeitamente.
antes de parir, queria ter 5 crias.
antes de parir, idealizava a minha imagem de matriarca abundante, acolhedora, descontraída, firme na educação da cria, independente e bem realizada profissionalmente.
antes de parir, acreditava que amamentar ia ser um fenômeno da natureza fluindo perfeitamente.
antes de parir, acreditava que o pacote “mamãe consciente e alternativa” era uma bíblia incontestável.
antes de parir, acreditava que meu filho ia ser “o bebê que dorme a noite inteira”.
antes de parir, acreditava que não ia deixar a noia tomar conta, que ia ser uma mãe saudável, calma, com uma comunicação clara com as pessoas ao meu redor.
antes de parir, acreditava que não ia descontar raiva nas menores situações do dia a dia.
antes de parir, acreditava que ia ficar 1 ano sendo mãe “de boas”, proporcionando as melhores experiências do mundo pro meu filho.
antes de parir, acreditava que ia dar conta sozinha de tudo.
antes de parir, julgava as mães que não pensavam diferente do “padrão”.

pois bem, levei o famoso estabaco da maternidade real.

de parto em casa para cesariana em hospital público.
de mãe que queria 5 crias para uma mãe que não quer outra cria nem tão cedo.
de uma mãe saudável para uma mãe exausta.
de amamentação fluindo lindamente para muitas crises pedindo por independência.
de bebê dormindo a noite toda para bebê acordando de hora em hora.
de 1 ano só sendo mãe “de boas” para uma mãe pedindo deseperadamente para trabalhar.
de mãe que dá conta de tudo para mãe que não dá conta e aprende um pouco, a cada dia, a pedir ajuda.

maternidade tem sido, de longe, a maior transformação que já pude viver. tem sido ver as minhas expectativas e projeções caindo bem na minha frente e não ter escolha, a não ser lidar com o caminho tortuoso que eu mesma construí. e seguir em frente, catando cavaco.

e aí me falam: QUE HORROR! então, ser mãe pra você é uma grande bosta? e eu respondo: é. daquelas bostas que podem virar um adubo porreta e de onde podem nascer milhares e milhares de brotos e possibilidades. tento todo dia, com muita dificuldade, fazer da maternidade um adubo. cada dia é um dia. às vezes uns passinhos à frente, às vezes uns passinhos atrás. e é, em grande parte, graças à rede de apoio de pessoas ao meu redor, que eu consigo ultrapassar os desafios diários de ser mãe hoje.

mas, olha, maternidade real… eu te agradeço.
principalmente, pelo aprendizado imenso da empatia.
pela transformação de uma mãe que julga mãe para uma mãe que levou um belo de um estabaco e agora oferece apoio para outra mãe.
que sejamos cada vez mais apoio, ombro, coração, ouvido e colo para as mães.
Tags Relatos
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Padu Durso

Padu Durso
26 anos, arte educadora, escritora, palhaça, ilustradora e mãe de primeira viagem. desde que engravidei de Rudá, mergulhei de cabeça e me estabaquei no universo intenso da maternidade: criando, desenhando, escrevendo, ruminando, desabafando e vomitando tudo que envolva as dores e delícias, o caos e amor da maternagem.

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