Eu, que não padeço no Paraíso

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O desejo de não ser mãe é algo que começa cedo. Pelo menos comigo foi assim. Cedo também entendi que esse não era o assunto mais atraente pra abordar durante uma paquera e, como sempre gostei de sexo, procurava dar aquela omitida básica nas minhas convicções. Claro que às vezes eu expressava o que sentia e, invariavelmente, o clima pesava. Imagina a cena. Você chegando pro boy e dizendo:

“querido, segundo o IBGE, 14% das mulheres brasileiras não se rendem à ideia da maternidade compulsória e, caso você não esteja interessado nessa que vos fala, ainda há 86% de fêmeas residentes em território nacional para entrarem na estatística de receptáculo de seus genes.”.

Complicado meter essa. Ainda mais quando habitamos um mundo onde nossos úteros são sempre assunto de terceiros. Nossos ovários, então, nem se fala. Imagina se metade desses lances acontecesse com os homens. Outro dia fiquei pensando nisso. Se vivêssemos numa sociedade onde o potencial reprodutor dos machos fosse a todo tempo fiscalizado ia ser um tal de “olha fulano sentado numa cadeira de metal nesse sol, vai fritar os ovos!” ou “ih, amiga, aquele ali fuma muita maconha, o esperma fica preguiçoso.” ou ainda “ele teve caxumba na infância, e se desceu pro saco?”. Mas a gente sabe que não é bem assim que a banda toca e, por mais que a fertilidade seja um assunto aflitivo em alguns momentos na vida dos homens, nada se compara à novela em torno de nossas entranhas. Eu achava que essa vigília uma hora acabaria e, quanto mais velha eu fosse ficando, mais o povo ia deixar minha boceta em paz. Ledo engano. Perto dos 40 eu passava vários perrengues com rapazes que não levavam fé no meu posicionamento e tinham medo de algum tipo de armadilha. Por nunca ter tomado pílula e ser adepta da camisinha, a desconfiança só aumentava. O subtexto dessa bagaça é bem claro, né? Como pode uma mulher de 39 anos, ao encontrar um varão de porte, ter outra coisa na cabeça a não ser agarrar com unhas e dentes a última chance de engravidar? Mas a coisa não para por aí. Se você nunca quis filhos e gosta de crianças, pronto, fodeu. Se volta e meia você faz parte da rede de apoio de amigas, nossa, que tipo de frustrada é você, que não é mãe e se dispõe a ajudar na lida de crias que não te pertencem? Patriarcado dá conta disso não, fica bugado. Como se não querer parir fosse uma atitude de ódio aos pequenos, quando se trata exatamente do contrário. A maternidade deve ser uma escolha amorosa. De forma análoga, a negação dela também o deve. Pra quê ter filho se você não tem esse desejo? Pra mostrar pras pessoas que você pode? Ou pra mostrar pras pessoas que você p(h)ode?

 

Ano passado fui a um ginecologista e ele me disse que a retirada de dois pólipos deveria ser feita com o rebaixamento de meu útero, numa intervenção definitiva, feita em mulheres que não mais podiam procriar. A justificativa era que após uma cirurgia de curetagem (a mais comum nesses casos) os pólipos podiam voltar. Perguntei se isso não teria impacto na minha libido. Ele deu um risinho blasé, como se minha pergunta não tivesse a menor importância e, olhando apenas pra tela do computador, começou a elencar, passo a passo, seu currículo de cirurgião de alta performance. Argumentei que, fora meus pólipos, muita gente podia voltar. Jesus era um. O filho pródigo, outro. A democracia, outra. A lista era grande e meu tempo, curto. Na saída, já empoderada pela cara de tacho do dotô, sugeri que se fosse pra aplacar o desejo de rebaixar coisas ele que pegasse o motor do próprio carro e fosse feliz. Hoje, aos 46, ainda escuto perguntas sobre tratamentos in vitro e adoção. Fico cansada não só de respondê-las mas, também, de saber que estamos longe do dia em que nossas escolhas estarão fora da mira da curiosidade alheia. Fico imaginando também que se toda a energia gasta em fiscalizar úteros e ovários fosse direcionada pro esforço no bom manuseio de um clitóris a vida sexual de muita gente estaria bem melhor.

 

Era isso que eu tinha pra falar com vocês. No mais, nunca se esqueçam da camisinha. Segundo meu ginecologista - arrumei um maravilhoso agora - “a sífilis não é pochete, mas voltou com força total.” 

Tags maternidade-compulsória patricarcado ginecologista feminismo liberdade
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Poliana Paiva

Poliana Paiva
Roteirista, escritora, atriz, poeta e mestranda em Artes da Cena (Eco/Ufrj), Poliana Paiva está em esquetes dos canais Porta dos Fundos, Parafernalha, Anões em Chamas, Me dá um minutinho e Tudo sobre Jasmine. Escreve poesias e tirinhas em sua página Romanticuzinhos (Instagram e Facebook), com xs quais participa de diversos slams pela cidade. Integra o coletivo Clube da Leitura, tendo sido foi publicada em algumas coletâneas, tanto de poesia quanto de prosa. Foi redatora dos programas Esquenta (Globo), Papo de Mallandro (Multishshow) e País do Cinema (Canal Brasil), das webséries Batidão (Netflix), #mochilãoBR e Toilette Zone e da série Contos do Rádio (EBC), além de ter sido redatora publicitária do Canal Futura. Dirigiu 4 curtas, entre ele Muito além do chuveiro (Prêmio Aquisição Canal Brasil). Acaba de ter a série de sua autoria, Mulhas, selecionada no edital Prodav 05, de desenvolvimento de roteiro para séries de TV.

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