Esse parasita a que chamam de pai

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Você é mãe. Isso significa, a priori, que você tem um filhote de humano sob sua responsabilidade, gerado ou não no seu ventre. Em geral, significa também que esse filhote é resultado da decisão de duas pessoas em tê-lo.

Mas você está sozinha. Aquela pessoa que participou da decisão, que pode ter ajudado a gerar ou a adotar, que pode, inclusive, ter dado o seu nome para a cria, simplesmente ignora a existência desse filho ou filha. E está lá, vivendo sua vida como se ele nunca tivesse existido. Na prática, isso representa sua exaustão física e emocional. Sim, filhos são lindos, são alegria e amor. Mas são seres com necessidades específicas, exigem cuidado, demandam dinheiro, tempo e disposição. Que deveriam ser supridas, por, no mínimo, duas pessoas. Aquelas duas que decidiram ter esse serzinho. Mas é apenas você que supre.

E ninguém procura saber como você faz para dar conta. A criança está limpa? Vai na escola? Saúde em dia? Alimentação, vestuário, necessidades emocionais, tudo ok? Ótimo! Parabéns! Você é foda! Não se esqueça daquele evento na aula de balé, as 11h da manhã de uma quarta-feira; ou da competição de natação as 8h de domingo. Não importa se seus patrões vão chiar, te assediar ou, quem sabe, até demitir. Nem que você planejava dormir até as 10h no domingo. Sua cria precisa do seu apoio, da sua presença. Você vai dar um jeito. Você sempre dá. Lógico que você também vai lutar pelo seu emprego, afinal, é dele que você tira o sustento da cria. Se acaso ela adoecer, você faltará ao trabalho, cuidará com todo o seu amor e dedicação e depois retornará, engolindo sapos bois de Itú, fazendo hora-extra e tentando mostrar que a maternidade não atrapalha seu desempenho profissional. Trate de não adoecer. Se cuide! Onde já se viu, sozinha com a cria e adoecer???

Pois é... você está sozinha, à beira da exaustão. Seu cabelo está sem brilho, seus dentes estragando, você não vê um filme com classificação acima de 12 anos no cinema há tempos. Show?! Há quanto tempo você não assiste a um show do seu cantor/cantora preferida? Faz tempo, né?

Eu vim te dizer que não. Você não tem que dar conta. Você não tem que estar sozinha nessa. Não é justo como muitos afirmam por aí. Você tem sim direito a um sono reparador, a um banho demorado, a ter dinheiro para escolher uma roupa bonita numa loja. Enquanto você está aí se matando, existe um sujeito livre, leve e solto jogando nas suas costas responsabilidades que são dele. E você não tem que dar conta das responsabilidades de outra pessoa. Não precisa achar que é assim mesmo que funciona e se sentir culpada pela sua exaustão. A culpa não é sua. A culpa é de quem se acovarda, de quem vive tranquilamente enquanto suga as suas forças, suas finanças e seu tempo: esse parasita a que chamam de pai.

Você é importante também. Sua vida importa, suas necessidades importam, seu bem-estar importa. Era só isso mesmo que eu queria que você soubesse.

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Shirley Oliveira

Shirley Oliveira
Mulher, negra, professora, mãe da Nicolle e da Isabel, ativista contra o racismo e uma lutadora incansável contra o lúpus. Essa sou eu!

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