Desconstruídx ou não construídx?

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Meu feminismo começou antes da maternidade, por isso já tinha uma ideia bem definida do que esperava das crianças da próxima geração. Não necessariamente minhas crianças, já que nunca foi um desejo real ter filhos. Faço parte da estatística da mistura de antibiótico e anticoncepcional.

Show, beleza, superação, nasceu. Primeira filha e aquele pensamento de toda mãe feminista: “aê porra! Uma menina pra eu ensinar a rachar macho desde pequena”. Já vou dar um spoiler aqui: na prática a teoria é outra.

A principal questão para mim sempre foi dela saber que podia tudo, que não tem essa de não poder, por que se tem uma coisa que ela pode: é poder. Então obviamente a questão de gênero, racismo estrutural e luta contra o capacitismo estavam nas minhas prioridades. Ensinar que não existem coisas de menino e de menina e que esse conceito binário estava muito ultrapassado, que roupa é só roupa, que não devemos usar termos capacitistas como “idiota”. Enfim, tudo era maravilhoso na minha linda bolha feminista interseccional.

Até que a criança foi pra escola. Coloquei ela o mais tarde que pude, com quase 4 anos. Numa escola pública perto da minha casa e super bem recomendada, esqueci de mencionar que eu sou pedagoga, o que traz um peso maior para essa questão da escola e como eu desejava dar instrumentos para que ela se tornasse um ser humano irado.

E eu tive que bancar tudo que eu acreditava, tive que bancar toda a consequência de uma educação desconstruída. Você deve estar se perguntando, “mas gente o que rolou?

O que rolou foi que a educação desconstruída é a única salvação para deixarmos pessoas maneiras nesse mundo, todo mundo da nossa bolha concorda com isso, pratica disciplina positiva, comunicação não violenta e tudo mais, mas olhe ao seu redor, quantas pessoas tem essa mesma educação que você dá para o seu filho? 

Quantas pessoas acham normal uma menina se vestir com roupas de menino e vice-versa? Quantas pessoas viveram isso com uma criança de 4 anos?

A minha filha entrou num modo de rejeição total ao que era dito “de menina”. Isso significa que ela começou a buscar elementos da performance masculina para se legitimar, de usar bermuda a querer ter pinto para jogar futebol. Ela começou um processo aos 4 anos que a maioria das meninas fazem na pré adolescência, querer se “masculinizar” para... Olha, sinceramente não sei para que. Para aceitação? Para andar com a galera? Para ser reconhecida? Ser diferenciada? No fim, tudo se resume ao famoso “auto-ódio ao corpo” que é nutrido na gente desde a mais tenra idade, no qual uma mãe feminista não a blindou, por sinal.

Não me culpo disso, por que sei que a culpa é da sociedade. Mas eu estou criando uma criança para viver em sociedade, né? Como posso fazer com que ela saiba que ela não está errada, que como ela se sente é legítimo? Do alto dos seus quase 5 anos ela consegue elaborar que uma roupa não a faz menino, uma brincadeira não a faz menino, e vem a questão que estou até agora tentando elaborar para poder responder a ela: “Mãe, por que as pessoas não conseguem entender que isso não muda nada?” Me seguro muito para não dizer que as pessoas são burras.

Não é ela quem deve mudar, não sou eu quem deve deixar de acreditar em uma outra realidade possível, mas sou eu que preciso re-instrumentalizar a mente dela, para ela elaborar, argumentar e responder o mundo.

Mas não agora, ela só tem (quase) 5 anos e eu realmente só quero que ela seja, se sinta confortável com quem ela é e não com quem ela pode vir a ser. Ela está em processo de ressignificação e eu também. Nada conclusivo, só consigo sentir que ela está mais leve e mais alegre, não está mais carregando esse peso da incompreensão alheia.

Ela como potencialidade não está me interessando agora e o que eu quero falar com vocês é que precisamos romper com essa visão da criança como potência, com o que pode vir a ser, não estou falando do pensamento tradicional com relação a vida do filho, se vai ser médico, se vai ser isso ou aquilo, mas sim com a necessidade extrema que temos de criar pessoas melhores para um futuro e esquecemos de criar crianças felizes e sem neuras no presente.

Mães feministas de todo mundo, uni-vos para consolidarmos autoestima na nossa criança. A partir daí nada mais vai importar, por que ela mesma vai saber como se posicionar utilizando os instrumentos que construiu.

Tags feminismo empoderamento maternidade gênero
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Raquel Petersen

Raquel Petersen
28 anos, pedagoga, feminista, mãe de duas. Acredita em papai noel, coelho da páscoa e que seria fácil criar uma criança feminista, mas viu que o buraco é mais embaixo depois que a criança passa dos 3 anos.

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