Carta de mais uma mãe solo

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Era um sábado à noite, eu estava na casa de uns amigos, havia uma leve suspeita de gravidez, mas como todas as outras inúmeras suspeitas que tive antes dessa, pra mim seria só mais uma. A madrugada já invadia, o teste de farmácia estava na bolsa, e um misto de ansiedade e desespero me convidava a uma dança: a dança da morte.

Na minha vida dentre muitos planos, sempre existiu o da maternidade. Na verdade mais que isso, era um sonho. No imaginário traçava-me com giz de cera colorido o projeto de “mamãe, papai e eu!”. O “eu” seria a criança mais linda da face da terra, criada por uma única perspectiva familiar por mim projetada até aquele sábado à noite. Não havia como recusar o convite. E lá estava eu dentro do banheiro, num duo com aqueles dois traços. Eles não eram de giz, muito menos coloridos, eram vermelhos, cor de sangue. A música não tocou, e eu dava naquele momento o meu primeiro adeus. Algo em mim acabara de morrer, porque algo em mim acabara de nascer.

Eu estava formada há um mês, já atuava profissionalmente na área há cinco anos, morava sozinha, era financeiramente independente há alguns anos e a gravidez só estava vindo fora da nova ordem. Após o término de um relacionamento abusivo de três anos, ser mãe havia cedido seu posto de prioridade para o mestrado. Achei que gestaria uma dissertação e não um bebê. Saí do banheiro atônita. Uma pequena parte em mim estava feliz, até porque eu estava vivendo o meu “sonho”, mas todo o resto era medo, angústia e julgamento. Não era preciso visitar as memórias de infância para ter a certeza de que jamais um dia supus que o pai do meu filho seria alguém que eu conheceria a pouco mais de um mês, nem posso dizer que estava apaixonada. Mas foi inevitável não recorrer às memórias de umas semanas atrás, em que eu me recusei a tomar a pílula pela segunda vez (no intervalo de uma semana), porque o macho “não aguentou segurar o tesão e não deu tempo de colocar a camisinha”.

O macho, em questão, reclamava do uso do preservativo, que era incomodo, machucava, mas que sabia da importância. Mas ele se importava mesmo era com o seu prazer, disso ele não se privaria. O macho tão pouco se importou quando eu tomei a pílula da primeira vez, com os efeitos violentos dela no meu corpo, e mesmo eu tendo comprado a camisinha mais cara e confortável para o macho, o macho mais uma vez preocupou-se consigo e seu prazer até o fim, ignorando qualquer acordo ou cuidado. Ele não a usou. Carrego comigo essa culpa da permissividade. Eu não quis me expor, novamente, a bomba hormonal de remédio, então topamos o risco. Até aqui eu ainda estava conjugando no plural.

A noite do sábado parecia não ter fim. Chorei, conversei com os amigos, liguei para o macho, chorei mais ainda e terminei de fumar o último cigarro, da minha última noite antes de acordar mãe (?!)

Hoje não tenho tempo para esquecer que sou.

Confesso que naquele sábado à noite e algumas noites de outros dias eu pensei no aborto, pensei em pular fora do barco, só que no caso o barco era eu. Não havia como fugir das conseqüências de qualquer uma das escolhas. Abortar não é uma decisão “fácil”, tão pouco o ato, assim como seguir com uma gestação fruto de uma relação que ainda nem existia direito. Mal o conhecia. Qualquer rota me parecia um grande naufrágio, mas era chegada a hora de mergulhos profundos, de perder o ar... “Navegar é preciso, viver não é preciso”. E quisera eu que a vida fosse somente poesia, mas sei que essa vida não existe e por isso a poesia não morre, sobrevive como eu também sobreviveria...

O sábado se foi, e o dia amanheceu com aquela remela de esperança, com a vontade de fazer com que as coisas dessem certo, que o caminho que parecia torto assumisse aquelas formas únicas e deslumbrantes quase perfeitas como a natureza. Mas a natureza de alguns homens, nem mesmo a poesia se presta a dizer. A boca amargava aquele gosto ruim do rastro que a paz deixa quando se vai, largando a porta aberta para o caos entrar. Fui para um papo franco com o macho, olhei nos seus olhos e disse que não ia interromper a gravidez. Minha mãe, emocionada e feliz, me incentivava a seguir, pois estaria me apoiando em tudo. Meu pai apenas arrematou dizendo: “antes de qualquer coisa esse filho é teu!”.  E mal eu sabia que essa seria uma verdade absoluta na minha vida, meu filho seria só meu. O macho disse que não teria coragem de pedir que eu abortasse, mas que não estava pronto para esse passo na vida (Quem estava?). Com todas as cartas na mesa, a pouca grana e tempo dos dois, decidimos que a nossa relação não era mais o foco, e sim a responsabilidade de receber esta criança. Estas palavras eram mais minhas do que dele. Ele alternava o desvio de olhar com algumas pausas preenchidas de silêncio. Silêncio esse que ele viria a se esconder até desaparecer e sumir. Nem todas as cartas estavam na mesa.

O vento que batia na janela naquela amanhã, após o sábado à noite, que trouxe o golpe de positividade com a vida, passou rápido demais e foi-se antes que eu pudesse ter tempo de colocar uma música bonita pra tocar e fazer planos de casa no campo, viagens em família, ou mesmo pensar num nome para o meu bebê. E eu me via ali, sozinha, tendo que arriscar uns passos sem graça, tendo como companhia uma culpa irremediável e olhos inundados. O macho, pseudo-ativista-negro-militante-do-hiphop-popular-em-rede-social-e-pseudo-rastafari-e-dono-de-projeto-social-na-favela, sumiu por quase um mês após nossa conversa. Depois ele apareceu e contou mentiras escabrosas a fim de me torturar psicologicamente para encobrir a sua covardia e me fazer sentir culpada. Ele acreditava tanto no projeto de homem que inventou pra si, que mesmo assim pediu para conversar com meus pais, onde discursou com a tranqüilidade e frieza de um político, essas figuras públicas que vivem da mentira e jamais olharão em seus olhos. À minha família ainda restava o direito à ilusão. Mas a mim não. Não mais. A manhã passou e quando se viu já era noite, e já era dia novamente, e já era noite... Muitos dias seguiram-se sem nome, sem cor, sem sabor... Desejei algumas vezes perder o bebê para poupá-lo dessa mulher que mesmo tendo passado a vida desejando ser mãe, era agora também assombrada por isso.

O Macho NUNCA foi a uma consulta médica. NUNCA foi a uma ultra. NUNCA ajudou com nada material ou imaterial. A única coisa que o macho fez, mesmo não sendo consultado, foi sugerir um nome para a criança. E isso me feriu profundamente. Como pode esse sujeito depois de demonstrar todo esse desinteresse pelo filho querer dar um nome a ele? Passei boa parte da gestação tentando que ele se interessasse por ela. Mandava fotos, avisava das consultas e ingenuamente resumia o parecer médico de como estávamos indo (eu e o bebê) porque achava que no fundo ele devia se preocupar. Foi difícil admitir pra mim mesma o abandono. Mas esse dia chegou e com ele uma avalanche na alma. Veio também um hipotireoidismo e diabetes gestacional, veio insulina, vieram picadas de agulhas três vezes ao dia. Veio uma dor enorme, uma sensação de frustração e fragilidade, que lutava pra dar cabo não por mim somente, mas também por quem no meu ventre a tudo sentia e ouvia.

Por esse ser que me escolheu pra ser sua mãe. Era ele quem precisava de mim, e certamente eu muito mais dele.

Quando se sabe para onde quer ir, tudo clareia. E eu só queria chegar ao meu parto da melhor maneira possível. Era esse cuidado que o tempo, que as horas de todas as manhãs, tardes e noites me exigiam. Faça a música tocar, e se não tocar cante! Banhe-se de sol, de chuva e até mesmo de lua! Dance essa morte de tudo que não é mais, para celebrar a vida de tudo que está por vir! Chore! Chore mais! Mas não se esqueça de gargalhar até com a buceta quando a felicidade invadir! E não se apegue em nada, absolutamente nada. Apenas deixe-se escorrer como água de cachoeira, aproveite a queda e se permita ser rio. E lembre-se que as pedras podem demorar a ser moverem, mas nada pode negar o encontro com o mar, “com o sem fim”.

Foram 38 semanas e cinco dias, algumas cartelas de remédio, muitas dezenas de seringas, alguns tubos de insulina. Foi muito mais que isso, foi uma vida inteira até aquele domingo à noite. Lá fora chovia. Eu uivava a cada golpe de dor pra lua que não dava para ser vista, mas sabia que estava lá testemunhando a minha mudança de fase. Ela que silenciosa me foi confidente de todas as minhas inseguranças, estava ali a me ver parir. Pari!!!Ao Lado da minha mãe, de minha comadre, de todos os orixás, de todas as falanges, de pretos velhos a exu, eu dei a luz a tudo que nem imaginava que eu podia ser. Eu não me sentia nenhum pouco sozinha, e fora o desconforto dos pontos que ganhei após a passagem do meu menino pelas minhas entranhas, havia aquele mal estar inevitável a cada pergunta sobre o “pai” que faziam as outras recém mães como eu ali em recuperação e por toda a equipe médica. “Pai?” Me perguntava também.

O macho nem sonhara com que se passava naquele domingo à noite. Com toda certeza devia estar muito ocupado em assegurar sua fatia do bolo nesse patriarcado violento, abusivo, omisso, covarde e opressor que ainda é socialmente alimentado. Mesmo a contra gosto eu o avisei do nascimento e ele, que só pegou o filho no colo uma vez por uma breve fração de tempo, só apareceu para virar as costas na porta do cartório do hospital e não registrá-lo. Motivo: não aceitou não ser autorizado a colocar o nome de sua escolha.  Fez questão de um nome e não do filho!

Naquele sábado à noite, se eu tivesse dormido, acho que não ia sonhar, mas nem de longe poderia supor um pesadelo a essa altura: eu, tendo recebido alta há poucos minutos, com todas as dores possíveis de alguém que ficou mais de nove horas em trabalho de parto, em resguardo, tendo que praticamente implorar ao homem que me fez um filho, registrá-lo. Não! “Vai pra puta que pariu e some!” E entrei e registrei o meu filho. E aqui, por enquanto se encerra a participação desse sujeito nessa história, na minha vida. E não tem um dia sequer que eu não pense em como vai ser quando a pergunta desconfortável sobre o pai vier do meu filho.

É difícil usar o termo “mãe solo” às vezes, porque a rede de apoio que tenho me fortalece muito. É uma legião de pessoas incríveis. Familiares e amigos que nos abraçaram e toparam caminhar conosco. Pessoas que despertaram para viver em comunidade, e entenderam que é mais que estar no mesmo metro quadrado. A educação de uma criança e o exercício da sua potência no mundo diz respeito sim às ações de uma sociedade inteira, dessa aldeia chamada mundo. Mas eu por sorte tenho esse privilégio. Não é nem de longe uma realidade a todas as mulheres que se vêem tendo que criar seus filhos sem a presença do cara lá que devia fazer seu papel de pai. Aliás, essas mulheres passam quase invisíveis, porque é muito mais valorado o pai (quando existe) que paga em dia a pensão (quando existe) e é o “paizão” quando dá.

Viveria aquele sábado à noite de novo, só pra ver chegar esse domingo à noite que me trouxe o choro rasgado, as covinhas nas bochechas, as pequeninas mãos... Desde esse dia eu tenho renascido de novo, de novo e de novo, e respira, e de novo... Travando batalhas comigo mesma toda vez que olho para o passado, para as minhas escolhas até aqui. Há muitas dores, peitos feridos, noites de sono perdidas e irrecuperáveis, vários nós da garganta quando penso no futuro, há muitas feridas ainda expostas e outras que vão me aparecendo pelo caminho, mas há também o sublime que é estar com o meu filho, que tem me ensinado muito mais sobre o amor nesses cinco meses do que pude aprender em vinte e oito anos de vida.

A dança segue seu descompasso mais que perfeito, nem sempre se pode cantar aquela música preferida, mas hoje os dias requerem mais silêncio do que antes. Das muitas certezas que não existem, sobre uma se pode dizer: todo dia eu me olho no espelho, não fujo e não perco uma chance sequer de me enxergar, de olhar lá pra dentro, para o que sou e o que estou me tornando. Nem todo mundo pode ou é capaz disso. Estou deixando a água correr, lavar os caminhos. Não me atrevo a desenhar a vida numa linha reta, muito menos justificar a existência das curvas. Eu quero é viver o tempo que me é permitido em plenitude e é essa abundância que me interessa nesse novo mundo chamado maternidade.

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