Cachê ou Creche

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Era sexta-feira de uma semana duríssima quando cheguei em casa e meu filho - de 5 meses - não me reconheceu. Nem sorriso, nem gritinho, nenhuma ação que denotasse alegria em me ver. Ele me olhou como quem olha a uma parede e virou para o outro lado, como nunca antes. Eu, que já estava na tortuosa estrada do empreendedorismo desde antes de engravidar, com a maternidade me tornava merecedora do emblemático selo de "empreendedorismo materno"

As boas vindas foram um processo pesadíssimo de 
amamentação: sem licença maternidade meu leite demorou a descer e com dias de puerpério me via ordenhando de hora em hora, chorando de 15 em 15 e respondendo e-mails de pessoas que não apenas não estavam importadas com minha situação fragilizada como, assim como meu filho, dependiam de mim para se alimentar.

O crescimento do empreendedorismo materno (única 
opção para muitas já que) é nada mais do que a afirmação de que o mercado de trabalho, liderado em ampla maioria por homens, não está nem longe de entender o processo de doação envolto na chegada de um novo ser ao mundo. Mas além de tudo, a romantização da mãe-lutadora- empreendedoraacaba sendo um tapinha nas costas (e não mais do que isso) no barco familiar que, por falta de equilíbrio, pende para um dos lados. O acúmulo de funções financeiro e emocional da mãe, isenta pais - mesmo os incríveis, batalhadores, participativos porque, sim, eles existem, mas o sistema os favorece.

Naquela sexta, diante da indiferença de meu filho acabei por ver mais uma parte minha morrendo, ou transmutando. Porque o coro de pessoas, sites e 
palestras que enfatizam que "sim, você pode" não te conta que você precisa, necessariamente, priorizar um dos lados. No momento em que optei por estar presente física e constantemente no dia a dia do meu filho, decepcionei uma menina ambiciosa e com brilho nos olhos que desde sempre suou e teve muito prazer em conquistas profissionais.

Empreendendorismo materno ainda é (pasmem!) empreendedorismo. Pura e simplesmente. Nível hard: sem data de pagamento, horário para sair e para entrar, plano de saúde. Das duas demandas, ao mesmo tempo, eu não daria conta mas ser mãe e empreender não era opcional, opcional era o quanto eu me doaria para a empresa que criei e com a qual sempre sonhei. Bifurcação complexa, na qual meu companheiro, pai, nunca se encontrou.

Em rápida pesquisa no Google com as palavras Empreender + Mãe + SEBRAE, o que mais me apareceram foram dicas para vender mais nesse fatídico dia (que inclusive esta chegando) e menos guias práticos de como acumular de forma realista tantas funções, sem cair na falsa esperança da salvação milagrosa. O processo é lento, duro e carente de discussão. Mas o fato é que precisamos de ajuda e isso não nos torna menos potentes. Pais, família, chefes, creches públicas de qualidade para poder encarar, da forma que nos parecer mais funcional, a gincana da vida real de dar amor e ganhar dinheiro. Priorizando a ordem que se aplicar melhor a nossas crenças pessoais, sem começar a corrida com três casas de desvantagem só porque carregamos nossos filhos nos braços.

Tags empreendedorismo-materno trabalho maternidade machismo mercado-de-trabalho sebrae
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Carolina Sciotti

Carolina Sciotti
Sudaca ítalo libanesa linha de frente. Paulistana de nascença, moro numa vila de pescadores do Ceará, onde trabalho pra cacete, faço topless sempre que posso e crio o Gaspar.

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