Bilhetinhos da Escola

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Se tem uma coisa que me tira do sério, mais do que o moço da esquina que me acha uma malvada por não deixar ele dar um pirulito pro meu filho de 1 ano, é bilhetinho da escola endereçado APENAS a mãe. “Mãe, o lenço umedecido acabou”, “Mãe, você esqueceu de colocar a pomada hoje”. Minha deusa do céu, me sobe uma raiva que nem sei! Quando será que essa nossa sociedade vai entender que a criança não é APENAS responsabilidade da mãe? A dinâmica da creche na nossa casa é 50/50. Um dia um leva e o outro busca, no outro fazemos o contrário. Elas não estão escrevendo esse bilhetinho porque nunca viram o pai do meu filho porque elas veem, tanto quanto a mim. Todo dia o cara tá lá levando ou buscando a criança. Por que elas presumem que quem esqueceu a maldita pomada fui euzinha aqui? Lhes respondo: porque elas partem do pressuposto que essa é uma tarefa da mãe e somente dela. E o que faz dele um ser tão magnânimo que não pode nem arrumar a mochila da escola do filho? De tarefas meus amores, a mamãe aqui está cheia, assim como imagino que elas também, já que são todas mulheres.

Não me entendam mal, eu sei que elas são uns amores e só estão cuidando da saúde e do bem-estar dele. Mas elas estão ali exercendo o papel de educadoras, essenciais para a formação deles. Se elas escrevem na agenda coisas do tipo, o que será que não falam diariamente? As palavras das pessoas que confiamos tem muito peso e valor, independente da idade de quem as escuta. Se ensinamos a eles que certas tarefas são da mamãe e outras são do papai, já tá tudo errado. As tarefas são de todes, são compartilhadas. Arrumar a mochila de uma criança vai muito além da atividade mecânica de separar 4 fraldas e 3 mudas de roupas. Assim como assinar a agenda, fazer a comida, lavar a louça e arrumar a casa. São tarefas que envolvem carinho e preocupação. São formas de cuidado. PRECISAMOS estimular nossas crianças, nosses amigues, nosses companheires, nossos familiares a cuidarem uns dos outros. Pelo bem de todos nós.

Não é por um único bilhetinho, é por uma questão de sobrecarga materna que cansa demais. Pra que possamos fazer as coisas com amor, elas precisam ser leves. Não quero bilhetinhos pra mim, quero ver a escola chamar geral pra chegar junto. Quero que estimulem esses hômi a participar. Porque, queridas, se falarmos juntas nossas vozes vão muito mais longe.

E digo mais: se mandar de novo, mando outro textão de volta.

Tags maternidade-real relatos escola
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Nicole Meireles

Nicole Meireles
Psicóloga, dançarina de rua e mãe do Tom. O que me move são os encontros das pessoas, dxs amigxs e da família. Do meu corpo com o corpo dx outrx. Do carinho, do amor e do afago. Da música, da fala e da praça. Do lar e do bar.

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