Às minhas amigas mães antes de mim, desculpa.

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Eu sempre senti um puta medo de engravidar. Não a gestação e o parto em si - coisas das quais eu era bem curiosa sobre - mas todo o rolé depois disso. Chegava a ficar meio irritada papeando sobre a possibilidade, ia dando uma gastura sabe? Tinha em mente uma imagem bem careta - no sentido pejorativo da palavra mesmo - em relação a maternidade. Papo chato, vida chata, cheia de fru frus, rotinas e frescuras, tons pastéis, preocupações tediosas, fraldas cagadas, um desinteresse completo sobre o mundo lá fora, amigas - mães tão chatas quanto, uma vida sem tesão nenhum. Tava ali arraigado em mim o pensamento machistaço da mulher que gera se tornar apenas isso, uma máquina de fazer e pensar em bebês.


Nunca fui a tia com “jeitinho” com xs filhxs alheios, de estar ali pra qualquer parada, de oferecer uma mão, um ombro, um tempo pra lombar, um colo. Talvez criei inconscientemente uma distância das mulheres mães a minha volta por achar que elas optaram por viver esse pequeno mundinho maternal pentelho e que a minha “vida de mulher livre” era 100% desinteressante. Isso tudo sem nem as perguntar se era isso mesmo.

Babaca é meu sobrenome.


O significado real de parir, é deixar partir. É dolorido pacas a gente deixar pra trás uma mulher, que precisa morrer pra literalmente renascer. A parte mais difícil dessa história toda é você ter que se re-apaixonar por essa nova mulher, amá la, curtir viver ela agora. Muitas vezes vivemos esse luto por períodos extensos, trazendo diariamente aquela nostalgia da liberdade de outrora gerando uma infelicidade completa com a nova vida. Tudo tem um gosto de saudade e de invejinha alheia.




Hoje vivemos um momento cada vez mais forte em prol do empoderamento feminino, do feminismo tendo cada vez mais voz nas redes e nas ruas, mas me pego pensando que muita mana que veste o crachá de feminista, acaba escorregando na banana do Mário Kart da sororidade quando falamos de uma mulher - mãe. Não é questão de trocar fraldas manas, mas de trocar afeto, paciência, escuta e cuidado. 

Há quase um ano vivendo essa roda-roda Jequiti de perdas e ganhos, me peguei fazendo download dos episódios que já protagonizei no passado com amigas mães, dos que eu já passei e os que eu já ouvi que passaram. Hoje o meu pedido de desculpa é por mim e por vocês

Desculpa por não ter ligado.
Desculpa por sempre perguntar da cria e nunca de você.

Desculpa por ter dito que estava sem tempo pra ir até aí tendo tempo de sobra.

Desculpa por dizer que sumi porque estava “transando” demais.

Desculpa por te visitar e ficar mais no celular do que conversando com você.
Desculpa por achar que teu companheiro tá certo de achar você uma chata.
Desculpa por me afastar porque achei que você estava “vivendo seu momento”
Desculpa por não me interessar sobre as suas novidades.
Desculpa por falar incessantemente somente sobre a minha vida.

Desculpa por só encontrar sua cria nos aniversários delx.

Desculpa por não ter perguntado se você estava bem.

Desculpa por só te convidar pra programas com sua cria e nunca pra uma cerveja sozinha.

Desculpa por te excluir da viagem da galera.

Desculpa por dizer que “ pai não chega junto nunca porque homem é assim”.

Desculpa por falar que você tá relaxada com a aparência.

Desculpa por dizer que você só estava afastada de todos porque quis.
Desculpa por dizer que isso era “coisa pra sua família ajudar, não tenho nada com isso”.
Desculpe por achar que só mensagens esporádicas no Whatsapp supriam a presença necessária na sua vida.
Desculpa por ir na sua casa, fazer uma zona e não levar nem o copo que eu bebi água.
Desculpa por achar que bebês só servem para ser contemplados e fotografados.

Desculpa por nunca ter me oferecido pra trocar uma fralda ou dar um banho na cria pra te dar uns minutinhos.

Desculpa por nunca ter levado a sua cria pra dar um passeio pela rua nas terríveis manhãs do seu puerpério.

Desculpa por achar que o nosso afastamento era inevitável em vista da sua ~ escolha ~ em ter filhx e isso não ser compatível com a minha vida agitada.

Desculpa por achar que agora você não compreende nada da minha vida de solteira sem filhxs.


Desculpa por não ter parido antes e entender a sua angústia.


Tamo junta mana. <3


Tags feminismo puerpério sororidade maternidade-real
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Bruna Messina

Bruna Messina
Balzaquiana que não curte futebol mas joga nas 11: Redatora, Social Media, Editora de Conteúdo, Produtora Cultural e Mãe da Zoé. Estudos da Universidade de Massachusetts confirmam que tem um liquidificador no lugar da cabeça.

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