A mulher, Ser, que abriga a mãe

1806

Nunca quis ser mãe. Não tinha planejado isso, nem em pensamento ainda. Era o tipo de coisa que eu só imaginava para mim daqui há muitos anos. A não ser quando fazia alguma "merda" que poderia resultar numa gravidez. Com 27 anos, vida profissional intensa, grana para respirar tranquila, feliz da vida com meu corpo e um convite sonho para trabalhar num longa em New York, me descobri grávida.

O pai do meu filho e eu tínhamos encontros esporádicos, tudo estava no começo e não tínhamos a menor vontade de um relacionamento. Ele tinha um relacionamento e eu pegava quem queria e estava feliz assim. Até que passamos três dias seguidos juntos, num meio de semana paixonite. Quando estávamos nos despedindo comentei que iria na farmácia comprar uma pílula do dia seguinte, pois estava noiada com uma escapulida da camisinha e aquelas brincadeirinhas de "esquenta" e prontamente ele me respondeu que não podia ter filhos; que era estéril.

E daí começou um verdadeiro inferno na minha antes confortável vida. De bem sucedida e independente, era o tempo todo colocada na posição de aspirante a esposa do pai do meu filho, do lar e ex profissional. "Calma, ele vai ficar com vocês." "Ele vai ficar com você". "Dê tempo a ele". “Homem é assim mesmo”. Porra! Não queria casar, não queria marido, não queria filho,  queria matar o cara que me disse que era estéril, mas me engravidou. 

As pessoas me perguntavam, com uma naturalidade enlouquecedora, coisas tão íntimas e que antes não eram da conta de ninguém. "E o que você ganha vai dar pros dois?". "Como vai fazer para trabalhar agora?". "Mas, vocês não usaram camisinha?". "E quanto você ganha?". "Ele vai assumir?". “Se vocês não tinham um relacionamento porque não se cuidaram?" E outras bizarrices. Minha vontade sincera era responder: "Isso é da porra da sua conta?" Para todo mundo. Quem disse para pessoas que vida de grávida é de domínio público? E quem disse que se a mãe não está "casadinha" é de domínio público ainda maior? Era só o começo do fim do direito à dignidade, opinião própria e intimidade.

Com 1 mês de gravidez comecei um relacionamento. Aí o mundo todo caiu na minha cabeça de vez.  "Mas e o pai?". Sumiu, respondia irônica. "Você está grávida e arrumou um namorado como?".  "Ah você deve estar emotiva demais, tem que tomar cuidado". "Mas o pai tem que estar presente também". "Está querendo substituir o pai?". Defendiam todos os direitos do pai. Mas e eu? Eu que esperasse como uma grávida recatada e decente. Era enlouquecedor!!!

Como profissional, trabalho com direção de audiovisual, era desenganada todo o tempo! "Nossa e você trabalhava tão bem".  "Uma pena ter que parar". "Não vai poder mais viajar tanto". "Não vai poder mais trabalhar tantas horas". "Já pensou no que vai fazer agora?". Fui afundada em preconceitos por ser mulher, negra e assumidamente livre sexualmente.

As pessoas me enfiavam goela abaixo o livro da maternidade cor de rosa e eu fui vencendo e fazendo do meu jeito. Tudo me incomodava. A hiper exposição, a falta de senso alheia, o estigma de que maternidade e sucesso profissional não combinam.Toda essa caretice que não era eu. Eu fumo, bebo, falo palavrão, amo meu trabalho, viajar e sair para me divertir. E tudo isso era pesadamente questionado, como se num passe de mágica tudo o que eu sou ou gosto na vida tivesse que ser diferentes, tivesse que estar no guia politicamente correto da maternidade. (Peguei até bem leve na gravidez). 

Eu sofri e ainda sofro por conduzir a minha maternidade da forma que acho melhor e principalmente respeitando a mulher, o Ser, que abriga a mãe. Hoje, 3 anos depois dessa porrada da vida, é muita coisa para escrever aqui, mas, mais do que voltar pro mercado de tabalho, abri minha empresa. Estou morando com o pai do meu filho e estamos indo bem. Reconheço que sou uma pessoa melhor. Meu filho é maravilhoso, mesmo achando que educar seja um saco e trabalhoso para caramba! E aprende que não é que não ame minha família, apenas me relaciono bem e preciso de umas doses de solidão de Ser apenas eu.

Então, resolvi me dar um presente: ir para a Tomorrowland Brasil, festival de música eletrônica, em SP, e curtir a vida e a solidão deliciosa de Ser só eu, de novo. O momento era super delicado, iniciando a quarta tentativa de desmame, que eu não aguentava mais. Teve muita auto-sabotagem, teve culpa, só contei pro companheiro no momento certo, teve arrependimento de gastar tanto dinheiro só comigo, mas eu sobrevivi e consegui ir! Bebi de ficar bêbada, de verdade! Dancei até o dia clarear. Tomei droguinhas, sim! Flertei como já não me lembrava. Tomei café da manhã de hotel! Almocei e jantei tudo quentinho, escolhendo o que queria, sem criança pulando em cima de mim, me sujando e me fazendo perder o apetite. Fiquei deitada na cama de preguiça olhando para o teto. 4 dias sem ouvir falar em desenho animado. Me maquiei. Escolhi meus looks com calma. Tirei zilhões de fotos onde estava linda, passada e limpa. 

Fui tão feliz que nem de emoção chorei. Fui eu, só que muito melhor porque agora eu sou mãe e sei ainda mais o valor dessas pequenas felicidades da vida.