A minha prisão na maternidade consciente

34392

foto: Danielle Fantis Photography


Todo mundo já ouviu que mãe fica exausta. Mãe fica exausta da vida, do cotidiano, da rotina. EXAUSTA. Eu deveria escrever, a principio, sobre sexo, sobre sexo depois do casamento, dos filhos, sobre sexo depois dessa maternidade, mas eu não quero. Eu quero falar do tempo. Das vontades. Quero falar da culpa, da inveja, da raiva que nasceram junto com essa maternidade. Falar que eu quero ser livre e fazer coisas que vão beneficiar a mim e somente a mim.


Mãe sente inveja das mulheres não mães. Dessas mulheres que tem seus horários próprios, sua cama própria, sua casa, seu armário. Essas mulheres que chegam e saem a hora que bem entendem, que acordam na hora e no seu próprio tempo, que tomam banho na hora que querem (e precisam) com a duração que querem (e precisam), que não sentem culpa quando não estão em casa. Que não tem ninguém esperando para almoçar, que almoçam a hora que querem e que saem e bebem e fumam no dia que sentem vontade. Mãe sente inveja dessas mulheres que deixam a xícara de café na pia e quando voltam do trabalho a xícara ainda está no mesmo lugar, intocada. Eu sinto inveja, e não é invejinha não, é INVEJA mesmo.


Eu não sei vocês, mas eu estou cansada dessa onda hashtag gratidão que a maternagem da internet propaga por aí. Ser mãe é bom? Às vezes. E isso não tem nada a ver com a qualidade do meu amor pelos meus filhos. (a frase foi escrita sob o peso das crianças lerem esse texto em algum momento no futuro e pensarem que eu amo pouco elas. A frase que fala do amor, foi motivada pela culpa.)


Falando de mim, eu sou uma mãe com uma estrutura bem boa. Tenho um marido/pai com a mesma intimidade na rotina das crianças que eu. Nem mais, nem menos. As vezes mais, as vezes menos. É um pai de verdade. Tenho ajudante e tenho duas avós que ficam esperando eu jogar criança na boleira. Aquelas do tipo que se ficar muito com uma a outra reclama. Falo de um lugar privilegiado, eu sei. E mesmo assim tenho pouco tempo para mim. E mesmo assim, eu sinto culpa, inveja, raiva e solidão. Parece que a gente desse grupo não pode reclamar de nada, não pode sentir nada, não pode falar de nada. Mas deixa eu contar uma coisa pra vocês. A gente pode sim! A gente sente tudo isso aí também. Sabe porque? Porque a gente também se angustia quando sai pra trabalhar simplesmente porque a gente quer, porque a gente pode, porque vai beneficiar só a gente. Também sentimos culpa de sair de casa, mesmo deixando as crias com toda estrutura e com todo amor do mundo. A gente também deixa as crias, sabiam? Meu marido pode passar uma semana só fazendo as refeições com as crianças e ele jamais vai se sentir culpado por isso. Mas se eu não chegar em casa para dar banho e colocar elas para dormir, com a musiquinha e o beijinho clássico de boa noite por dois dias seguidos, uma angústia toma conta de todo o meu ser e eu passo noites em claro pensando em como sou ausente, como isso vai marcar a vida deles para TODO O SEMPRE, em como eu deveria pensar mais neles do que em mim.


Dedicar tempo para o meu trabalho, voltar a minha energia para isso porque me faz bem, porque me dá prazer é conviver cotidianamente com uma certa culpa. E sabem o que essa ausência me faz fazer? Qualquer minutinho que sobra eu PRECISO dedicar aos meus filhos, porque né? Como eu não vou ficar com as crianças, eles estão com saudades, eles sentem falta, eles vão crescer sem a mãe e isso vai rasgar a história de amor na vida deles.


A coisa é mais ou menos assim: quando estou no trabalho penso que as crianças estão sentindo minha falta, quando estou com as crianças, penso que deveria estar trabalhando porque é isso que queria estar fazendo nesse momento da minha vida. E aí a gente convive com essa questão interna. Mas eu não quero só trabalhar e ficar só com as crianças nos minutinhos que sobra. Eu quero trabalhar, quero fazer ginastica, quero sair pra beber, quero um monte de outras coisas. Quero dedicar o MEU tempo só pra MIM. Acontece que o meu tempo já não é mais só meu. E isso dá raiva. Vamos falar da raiva? Isso dá muita raiva. Dá raiva de mim e muitas vezes dá raiva das crianças – que eu sei que não têm nada com isso. – (explicação motivada pela?). E aí a gente tem crianças lindas, saudáveis, que fazem a gente rir, que fazem a gente liberar ocitocina diariamente, que são deliciosas, mas que tomam o nosso tempo, e que por isso, pelo simples fato de existirem, geram raiva. Mas a gente não pode (?) falar isso. Não podemos ficar com raiva porque, né? Maternagem ativa, parto humanizado, o caralho a quatro, a gente tem que ir pra onda do hashtag gratidão. Gratidão universo, gratidão essa ocitocina toda, gratidão essa vida que veio através de mim, gratidão crias saudáveis, gratidão, gratidão, gratidão! Gratidão é o caraleo! Eu quero a minha vida e o meu tempo só pra mim!


Esse movimento da maternagem ativa pode aprisionar ainda mais a gente. Sinceramente! O seu tempo não é só seu e o tempo que sobra você precisa gastar com seus filhos. “Você deve isso a eles”. Deve? A gente está sempre devendo nessa porra toda! E o marido? E a transa? E o jantar romântico, o vinho, a relação? E você? No meio disso tudo tem você! Nesse raciocínio atual do que é ser uma boa mãe, você está laaaaa trás. E isso não deveria ser assim. Antes da vida dos outros tem a sua e antes do tempo do outro tem o seu. E isso não tem nada a ver com dedicação, com amor. Isso tem a ver com legitimar os seus próprios desejos e deixar fluir quem você é e o que você quer. Se você quer e é feliz fazendo e vivendo por eles, mergulhe nessa onda, mas se isso tem um peso e você quer deixar a licença maternidade para voltar ao trabalho, faça isso! Você não é pior porque o seu trabalho diz mais sobre você do que a maternidade. Isso não tem nada a ver com amor. Na verdade, tem! Tem a ver com amor próprio! A relação com seus filhos não pode ser uma relação abusiva. A sua casa não deveria ter espaço pra isso, não deveria ser morada de nenhum gaslithing. E pensem se nesse caso, não é você abusando de você mesma. Pense se não é você deslegitimando os seus desejos. Se perdoe, se ame e liberte-se! Quando você se legitima, você está ensinando eles a se legitimarem, quando você se liberta você está ensinando eles a se libertarem. A melhor herança para as suas crias é ser você e é ser feliz. Que a maternidade seja só um pedacinho de mim. Amém!  

Tags maternidade-real relatos empoderamento rede-de-apoio amamentação maternidade-consciente
SHARE

Luiza Miguel G

Luiza Miguel G
Atriz, psicóloga e doula. Mãe do Joaquim e da Anabel. Aquariana com áries e lua em escorpião. Tenho a capacidade de te mandar pra merda e chorar o abandono que eu mesma provoquei num intervalo de 30 segundos

Comente

Studio na Colab55