A maternidade solo que não deixa a gente beijar na boca

3075
foto: Fernando Souza

A gente fala muito por aí que a maternidade é solitária. Muitas vezes deixamos várias facetas de nós mesmas para escanteio. Deixamos passar oportunidades, amores, vivências. 
Quando a gente é mãe solo, muitas vezes a faceta mulher fica ainda mais de lado. Nossos desejos, nossa procura, nosso tesão, nossa curtição feminina ficam para quando der.

Escutamos relatos de mulheres que se separaram dos seus companheiros e passam meses, anos sem sair com ninguém, sem beijar, sem transar com ninguém
Obviamente que a vivência do luto e da dor é muito particular e cada mulher tem seu tempo para deixar tudo para trás e redescobrir a si mesma. Respeitar esse momento interno é muito importante e essencial para o passo a seguir.

A tendência geral de uma mãe solo que não está hoje num relacionamento é praticamente viver no celibato, meio que escondida do mundo, engolida pela pressão de ter que dar conta de tudo tanto emocionalmente como financeiramente. Quando a gente quer e tenta dar um jeito de sair para conhecer novas pessoas, descobre que precisa de novos amigos, descobre que as músicas que a gente dançava eram de dez anos atrás. Mesmo beijando, mesmo transando, mesmo saindo, o universo parece que simplesmente complicou muito o nosso simples beijar na boca.

Na verdade, não foi o universo. Foi a maternidade solo, que nos sobrecarrega. Difícil dedicar tempo a uma outra pessoa quando você está o tempo inteiro exausta. Difícil sair e relacionar com alguém quando você não tem uma única noite sem as crianças ou só tem de 15 em 15 dias quando pai faz sua visita. Difícil sentar e conversar com um alguém sem interrupções mesmo quando a conversa não é ao vivo. Se você fala que é mãe, afasta a grande maioria dos contatos porque a maioria acha que você está procurando um “novo pai” para o seu filho ou simplesmente está desesperada por um relacionamento sério.

Mesmo quando fica claro para os dois que é só uma situação casual, a criança fica doente, o telefone toca, a pessoa que ia te ajudar acaba desmarcando, o pai não pode (nunca pode!). Às vezes, é difícil até combinar assunto porque nos anos em que o contatinho estava curtindo, você estava sendo esposa e mãe full time. Você está perdida nas séries do momento, nas músicas do momento, nas baladas do momento. Você é a complicada, a que não tem “disponibilidade para uma relação”.

O que mais escuta-se por aí é "vai refazer sua vida", "vai curtir". Sim, a gente beija, a gente transa, a gente vai curtir, mas toda essa ação é muito mais do que querer e do estar pronta. Reconstruir, “refazer a vida”, “conhecer pessoas” demanda tempo, demanda dedicação e muitas vezes, essa demanda está exclusiva com os filhos. Não, porque a gente quer, mas porque a gente está aguentando tudo sozinha ou porque estamos "complicadas" demais mesmo para uma transa casual.

Mais uma vez podemos pensar nas amigas, nas vizinhas, nas tias, nas irmãs, nas primas. Mulheres ajudando mulheres para que a gente possa realmente formar uma rede de apoio uma a outra. Uma rede que possibilite que outras mulheres saiam, curtam, beijem, transem e vivam seu lado mulher, livre, leve e solta. Sororidade, na mais pura e concreta definição do termo.
Tags maternidade-solo feminismo empoderamento sororidade
SHARE

Marcela Brazao

Marcela Brazao
Farmacêutica apaixonada pelas letras. Feminista, 33 anos, mãe solo da Maria Eduarda e da Juliana, que acredita que viver é uma evolução. Uma mulher que se redescobriu após a maternidade e que escreve para desabafar, refletir e divertir ou sempre que as palavras brotam na cabeça e no coração.

Comente

Studio na Colab55