A desmoralização das mulheres mães no mercado de trabalho

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Ser adulto dá trabalho. Cuidar de casa dá trabalho. Ser mulher dá trabalho. Ser mãe dá (muito) trabalho. Ser boa profissional dá trabalho. E ser mulher-mãe-profissional? Não deveria ser tão difícil...

Bom, 1º de Maio passou. Comemorou-se, no Brasil e em vários outros países, o tal “Dia do Trabalho”. Mas, sem “pão e circo”, separa 10 minutinhos aí, que a gente coloca agora, na roda, um assunto importante: a desmoralização das mulheres mães no mercado de trabalho.

“Você tem filhos?” – essa pergunta feita num bar, numa roda de conversa entre amigos, ou na fila do supermercado – quem nunca?- seria algo normal, possivelmente a deixa para um papo despretensioso. Mas numa entrevista de emprego, amigos, pode crer que ela tem outro peso. Vem acompanhada de uma carga. É um gatilho para tensão. Ninguém pergunta isso impunemente, durante um processo seletivo.

O ambiente formal de trabalho é, em grande parte, hostil para as mães. Como se não bastasse o fato de, só por serem mulheres, lidarem com salários menores e menor ocupação nos cargos de liderança, além dos assédios moral e sexual – as mães são, com frequência, constrangidas, diminuídas e colocadas em xeque enquanto suas habilidades profissionais e sua produtividade.

Uma professora que vira mãe perde a capacidade de ensinar? A executiva deixa de ser capaz de gerenciar um projeto depois que pari? Uma arquiteta mãe perde sua capacidade de pensar e projetar um espaço? Não, senhores. É claro que não. O que elas perdem são a confiança e a credibilidade no seu ambiente de trabalho. E, com isso, perdem muitas vezes o emprego, a independência financeira, a autoestima.

Está entranhada na sociedade a ideia de que uma mãe é, quase sempre, uma profissional prestes a “dar defeito”, com potencial para “deixar na mão, afinal, nunca se sabe quando ela vai precisar interromper suas demandas de trabalho para cuidar de um filho doente, resolver um imprevisto na escola, ou, quem sabe, comparecer ao encerramento do ano letivo, não é mesmo?

A mulher lida com uma sobrecarga mental há tempos. Quando mãe, esse buraco fica muito mais embaixo. Elas são, quase compulsoriamente, as principais cuidadoras dos filhos, as principais responsáveis pelas tarefas domésticas, muitas vezes as únicas responsáveis pelos gastos com saúde, moradia e educação. Não à toa, o número de mulheres que se tornam empreendedoras após a maternidade é crescente. Não porque elas são tomadas por um grande desejo de virar “mulher de negócios” – pode ser até que isso aconteça- mas geralmente este é o escape, a brecha que encontram.

Segundo uma pesquisa da Catho, realizada em 2016 com mais de 13 mil pessoas, 28% das mulheres já abriram mão do emprego após a chegada dos filhos, contra apenas 5% dos homens. Para se ter uma ideia, outro estudo, feito em Stanford, na Califórnia, ofereceu aos participantes dois currículos idênticos de candidatas a um posto de consultoria de gestão, exceto pelo fato de que deles mencionava fazer parte de uma associação de pais e professores. A conclusão foi que a mulher com filhos tinha chance de contratação 79% menor.

Quando paramos pra debater assuntos como este é que nos damos conta do quanto ainda falta. Falta acolhimento. Falta bom senso - inclusive de mulheres em cargo de chefia que reproduzem esse tipo de comportamento. Falta cuidado e respeito com as mães. Falta incentivo à mãe que retomou os trabalhos. Falta vergonha na cara dos homens que se abstém das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos. Falta oportunidade. Falta entender que os episódios que envolvem atraso ou ausência no trabalho por conta de um filho só são mais recorrentes porque, na maioria das vezes, não existe uma divisão igualitária entre pai e mãe.

Falta muita coisa, a gente sabe. Só não faltam motivos pra lembrar que - como bem li por aí – “Ter empatia gera um ambiente de trabalho mais humano e harmônico. Ah! E que o pinto do homem não cai se ele levar o filho sozinho ao médico ou comparecer sozinho à reunião escolar”.

Pra entender o que a gente passa:


“Quando eu que falei q estava grávida (aos 24 anos), a diretora me olhou com cara de pena e disse: ‘puxa, mas e a sua carreira?’ Nem lembrou de dar parabéns”.

“Uma colega voltou da licença maternidade o bebê tinha 5 meses. Ela ordenhava todo dia de manhã e tarde pra manter a produção e pra ter leite pra deixar em casa e manter o aleitamento materno exclusivo até os 6 meses do bebê. Uma vez ela estava na sala fechada ordenhando e veio um gerente procurar por ela... respondi que ela estava ordenhando o leite pro bebê e já voltava. Ele respondeu "ah sim, tá fazendo papel de vaca.”

“Em uma seleção de emprego me perguntaram se era casada. Como respondi que tinha casado há pouco tempo, a pessoa disse que daqui a pouco eu iria querer engravidar e achava melhor contratar um homem"

“Quando voltei da licença maternidade, me disseram que fizeram uma avaliação das possíveis demissões e meu nome passou para o início da lista, porque agora eu era mãe e isso me tornava menos disponível que as outras pessoas”.

“No final da gestação um colega homem disse que eu já “não era mais a mesma” e que “seria dali a pior”, sendo que me esforcei mais do que deveria ter me esforçado para diminuir a diferença de estar grávida e os outros colegas não.”

“Meu filho ficou duas semanas internado com pneumonia e bronquiolite e foi em um período de troca de contrato, onde não pude negociar o meu salário na nova empresa. Resultado: meu salário diminuiu mais de 40% dos demais colegas. Desde o momento em que me tornei mãe, o meu marido, pai do meu filho, cujo cargo é o mesmo do meu, recebeu duas promoções e o meu salário só diminuiu até culminar em uma demissão”.

"Um dia consegui chegar no trabalho cerca de 30 minutos antes. Colegas homens bateram palma por eu ter conseguido controlar meu tempo finalmente. O tom era de brincadeira, mas foi uma humilhação coletiva”

“Eu estava no segundo semestre da gravidez e trabalhava em local de fácil acesso, quando fui transferida para uma unidade bem mais distante, cujo deslocamento incluía longa caminhada ou gasto com transporte extra. A transferência segundo o chefe era por conta do meu desempenho ter caído nos últimos meses”

“Uma amiga que presta serviço para uma revista acadêmica estrangeira recebeu a solicitação do chefe de tirar a foto dela com o filho do Whatsapp porque podia dar "problemas"

“Sempre tive as 2 avós do meu filho super disponíveis. Nunca faltei o trabalho, nem tinha que sair pra buscar meu filho na creche. Ainda assim, quase todos os dias, ouvia do meu chefe como minha dedicação ao trabalho era diferente porque só eu tinha filho. Mas que ele “entendia”, era “super normal”, isso logo após eu ter passado 2 meses trabalhando basicamente de 9 as 22h, inclusive aos sábados”.

Tags maternidade mercado-de-trabalho apoio machismo
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Érika Xavier

Érika Xavier
Roteirista e pesquisadora audiovisual, ou garimpeira de boas histórias. Mãe aprendiz da Teresa. Capricorniana que acha que se emocionar é uma das coisas mais bonitas do mundo.

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