A bipolaridade da minha filha fez eu me conhecer melhor

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Em julho de 2014, minha filha mais velha teve que ser internada numa clínica psiquiátrica, durante 14 dias. Até então, não tínhamos diagnóstico, desde 2009, quando ela teve as primeiras crises, com 14 anos na época. Nesse processo todo dela e nosso comecei a buscar me fortalecer e me conhecer, para que eu pudesse ‘dar conta’.

Voltando ao período que ela ficou internada, lembro da dor que senti. Não era uma tristeza só. Era uma dor como se tivesse um fogo abrindo um buraco no meu peito. Foi a maior dor que eu já senti todos os dias, todos os momentos em que ela esteve lá. Mas mesmo nesses dias, lembro que li ‘A semente da vitória’, um livro do Nuno Cobra que me deu uma baita sustentada; e consegui inclusive ser grata pelo processo, porque sempre entendi que ela precisava passar por isso, e eu também, assim como toda a família.

Nas crises desses anos todos eu não conseguia trabalhar quase nada, porque ficava o tempo todo cuidando dela, levando em médicos diversos incontáveis vezes, e várias outras funções e desafios, tudo desgastante demais. Isso durou anos, e financeiramente, meu marido e minha mãe ficaram segurando a onda como dava, porque além das contas normais, tivemos que arcar com médicos, exames, remédios, enfim, tudo muito caro. Nisso acumulamos um bocado de dívidas. Precisávamos mudar aquela situação.

Nesse mesmo período de internação, no meio do furacão, comecei a buscar coisas pra mudar minha vida, tanto pessoal como profissional, porque a essa altura já estava muito cansada, desgastada e não fazia sentido mais trabalhar com maquiagem como antes. Afinal, nesses anos comecei a fazer terapias e, me entendendo um pouco mais, eu senti necessidade de fazer algo com mais sentido e que tivesse de acordo com meus valores. Na busca por algo novo, fiz processos de coach e empreendedorismo. Mergulhei de cabeça-ombro-joelho-e-pé. Olhos-ouvidos-boca-e-nariz. E alma também.

Por volta de setembro de 2014 já tínhamos um possível diagnóstico, que seria a bipolaridade. Então, depois do período da internação, que foi de pico de energia, ou ‘eufórico’ como dizem, ela estava no estágio depressivo. Só que dessa vez era uma depressão apática. Sem movimento. Sem vida. Sem choro. Seca. Em novembro desse mesmo ano, fui em um evento com várias palestras sobre desenvolvimento pessoal. Poucos dias depois que voltei, ela tentou se matar.

Não sei (ou melhor, agora sei sim) de onde eu tirei tanta força naquele momento para lidar com aquilo com tanta assertividade para resolver aquela situação. Uma das coisas que me veio na mente naquela hora foi uma das frases que tinha ouvido em uma das palestras, em que o tema era empatia e a comunicação não violenta:

“Por trás de todo comportamento existe uma necessidade”

Foi o que me direcionou naquelas frações de segundo para que eu pudesse agir com precisão. Não foi um abraço ou colo que ofereci. Foi firmeza, e foi transferir para ela a responsabilidade pela vida dela. Foi mostrar pra ela - enquanto vomitava quantidades assustadoras de espuma do que tinha tomado - que eu estava aqui pronta pra ajudá-la a viver.

Essa era a necessidade dela por trás de tudo: viver.

Mas que se a escolha dela fosse morrer, que infelizmente eu não poderia ajudá-la, e falei com firmeza e seriedade que ela buscasse a solução. Porque mesmo que eu forçasse uma resolução dela naquele momento, não teria como eu vigiá-la 24h por dia, afinal ela já tinha 19 anos. E ela buscou a solução.

Enquanto isso, ao lado dela, com meu coração sendo trucidado de desespero, medo, raiva, revolta, a mil batimentos doídos por segundo e um turbilhão de coisas passando na minha cabeça, falei em voz baixa ao meu marido que saísse com nossa filha mais nova de casa para que não visse a irmã morrer. E outros longos dias se seguiram nessa peleja. Foi uma coisa de louco (mas que ironia). Mas fiquei no modo ‘Força, que vai dar certo! Tá t.u.d.o certo!’.

Nesse trajeto todo, meu afeto por ela ficou muito desgastado, afinal, nas crises ela ficava altamente agressiva principalmente comigo e com meu marido. E estudando muito e percebendo que isso é que ia salvar grande parte da situação, me empenhei muito nessa (RE)construção desse afeto e venho me empenhando cada vez mais.

Sabe aqueles casos quando a pessoa recebe a notícia que “Você tem só mais um mês de vida…” ? E sabe quando a pessoa decide que “Não vai ser bem assim não, doutor!” ? Pois é. Fiquei assim com essa história de bipolaridade. Não que eu negue que existe, isso é fato. Mas decidi que um diagnóstico não ia engessar a vida dela nem a nossa. Venho conseguindo nutrir essa parte afetiva, separando o conteúdo das crises com a essência saudável dela. E o que tem acontecido é que ela só tem melhorado.

Cada vez com mais consciência de si, e cuidamos do físico, espiritual / energético e mental, com um suporte sempre muito grande. Agora ela está bem, e há pouco tempo quis entender mais sobre tudo, e temos conversado muito sobre como quem passa por isso acaba se sentindo muito sozinho, tanto a própria pessoa como os familiares. Porque as pessoas não falam disso abertamente. Embora ainda não se sinta pronta para expor sobre o assunto, ela concorda que eu o faça, por ver a necessidade do tema ser mais falado, mais discutido. Existe muita vergonha por serem adoecimentos em que as feridas não são visuais em que colocam-se ataduras.


São feridas na alma que se externalizam como comportamentos e emoções.

Eu tive vergonha dela. Foi muito doído, mas muito importante também assumir isso pra mim, para que eu pudesse me acolher e cuidar disso com carinho e verdade. ELA sentiu muita vergonha dela e ainda trabalha isso com muita consciência e garra surpreendentes. E tudo isso dói muito, de um jeito que só quem passa pode dizer.

Mas enfim, por que tô contando isso tudo?

Porque com esse processo todo me fortaleci e continuo me fortalecendo de uma forma incrível. Porque acredito que falar dessa nossa história pode tocar muitas pessoas e a nós mesmos de forma positiva. Sempre senti isso com muita força, porque percebo que quanto mais a gente se conhece, mais a gente consegue lidar com qualquer situação, por mais grave que seja. Geramos mais clareza e capacidade de ficar menos tempo nas dores, que não diminuem de intensidade, mas conseguimos buscar soluções de forma mais rápida e consciente. Porque vivencio como mulher e mãe, que conhecer e saber lidar com meus sentimentos e então me posicionar com autoconfiança e honestidade comigo reflete na vida familiar que vai se estruturando de forma mais harmoniosa, e a vida flui mais leve.

E esse é o motivo primário que impulsionou um novo significado e me motivou a mudar o meu trabalho dando o nome de Maquiagem Não é Tudo _ que causou e ainda pode causar estranheza para muitos, vindo de uma maquiadora, a princípio. Porque eu sei que com a minha experiência e com o que tenho aprendido posso ajudar muitas mulheres a se conhecerem, se fortalecerem e então descobrirem a beleza verdadeira que existe nelas, e na vida em volta. Essa tem sido a minha história.

Só conseguimos cuidar do outro quando nos cuidamos primeiro. Porque aprendemos a nos acolher com verdade. E aí a maquiagem entra como um toque de cuidado, e não como uma camada grossa que esconda ou tente mudar quem somos.

Menos corretivo e mais coração. Dessa forma construímos uma vida melhor, sabendo nos relacionar primeiro com nós mesmas e depois com os outros, sendo esse outro um familiar ou não, com desafios diversos e naturais da vida de qualquer um. Acredito que as curas moram em aprender como viver da melhor forma possível, um dia de cada vez, sendo nós mesmos. Aceitar, mas sem se conformar ou acomodar.

A maioria de nós não sabe lidar nem com as próprias emoções, nem com o próprio comportamento. E isso precisa mudar para termos um mundo melhor. Primeiro o nosso mundo interno, depois o mundo das nossas casas, e aí sim poderemos transbordar mundo afora. E se tem uma coisa que aprendi com esse processo, foi que a gente não tem que ‘dar conta’ de tudo. Podemos e devemos ter a humildade (e não fraqueza) de pedir ajuda quando realmente precisamos.


Bom, se você foi guerreira pra ler isso tudo e tá aqui ainda comigo, te peço então pra compartilhar essa história se acredita que ela pode ajudar pessoas. E siiiim, claro, me abraça por favor.

Acreditando cada vez mais em colocar minha essência no mundo, deixo aqui minha gratidão gigante a todas as pessoas que ajudam, inspiram, abraçam e enviam energias positivas pra mim e pra nós. Que esse amor multiplique e se espalhe ♥

Ela é um exemplo e minha maior inspiração pra me conhecer e me mudar, pra conseguir viver e conviver melhor comigo e com os outros. Sou muito grata a ela por estar nessa caminhada comigo.

Um beijo carinhoso pra você.


*Esse texto foi publicado anteriormente no site da autora.

Tags bipolaridade depressão maternidade-real
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Márcia Damasceno

Márcia Damasceno
Eu sou Márcia Damasceno. Mulher, esposa e mãe de duas filhas, (veja bem, ser mulher vem antes ser esposa e mãe).Escritora. Thetahealer. Instrutora de yoga a caminho. Externalizadora e facilitadora de beleza, criadora do Maquiagem Não é Tudo. Cuido e ajudo mulheres nessa aventura de se conhecer e se gostar mais. Maquiando ou não. Maquiada ou não. E faço isso através de conteúdo online, cursos, oficinas, palestras, e o que mais meu coração disser que sim.

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